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[47ª Mostra de São Paulo] Excursão (2023)

Esta crítica faz parte da cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 19 de outubro e 1 de novembro.


Iman (Asja Zara Lagumdžija) é uma menina de 15 anos que conta uma pequena mentira. Ao ouvir que o rapaz por quem é apaixonada estava falando para outros que eles tiveram uma relação sexual, ela confirma a história. Sua intensão era, com isso, se aproximar dele. Excursão (Excursion, 2023), escrito e dirigido pela cineasta bósnia Una Gunjak, trata dos desdobramentos dessa ação, que resultam em um verdadeiro efeito dominó. O filme recebeu a Menção Especial do Júri na seção Cineastas do Presente do Festival de Locarno.

O título da obra faz menção ao momento que se aproxima na escola: as três turmas de oitava série, incluindo a de Iman, precisam decidir qual vai ser o destino de sua viagem de fim de ano. Alguns querem ir para perto, outros desejam se deslocar até a Itália (feito que seria muito mais caro e nem todos poderiam pagar, o que é o caso da protagonista). Mas o assunto que domina as conversas nas reuniões de pais não é o trajeto, mas sim a convivência pouco tutelada dos alunos durante o deslocamento. Isso porque correm boatos de que em outra escola sete meninas estariam grávidas ao mesmo tempo. O fato é que ninguém sabe a veracidade desses relatos.

A direção de arte ajuda a reforçar a juventude da protagonista. Seu quarto, ainda com ares infantis, é recoberto com papel de parede de galáxias. Seus objetos, como a capa de celular e o penal, também têm estrelas e planetas estampados, mostrando um interessa pelo tema. Além disso, o figurino dela é o oposto daquele de sua mãe. Enquanto a mulher mais velha usa calças e jaquetas bem cortadas, Iman veste as mesmas com modelagens amplas, evidenciando não só um estilo despojado, mas também seu corpo magro e ainda pouco desenvolvido.

A história inventada por Iman cai como uma luva para aquele momento da comunidade. As adolescentes se mostram curiosas, querendo saber o que ela sentiu com a suposta primeira relação sexual. Por outro lado, o julgamento também é rápido, pelo fato de ela não namorar com o garoto em questão. Mas os problemas aumentam quando surge o boato de que ela estaria grávida.

O professor de história da turma chega a dizer que Iman gosta de parecer uma criança modelo, uma vez que é uma aluna que só tira 10, mas também gosta de problemas. ele reforça que sabe como são as pessoas nessa idade, especialmente meninas, dano mostras do viés de gênero que carrega mesmo sendo um educador. O professor de religião, por sua vez, chega a pedir para que ela não assista a sua aula, diante dos boatos que circulam.

As reações não são razoáveis. Sua melhor amiga diz que não é como ela e seus colegas dizem que gostariam que ela fosse punida. Quando o filme mostra os stories de seus amigos, todos eles, de certa forma, retratam o modo como eles lidam com a sexualidade, explorando os limites daquilo que é aceito em público. Nesse sentido, chama a atenção que o filme não se debruce mais nos aspectos de interações de redes sociais, tão onipresentes hoje.

De toda forma, tomando-se as reações das pessoas, a imaturidade dos colegas para lidar com temas complexos é esperada, dada a juventude de todos os envolvido. Mas há um pânico moral por parte dos adultos também. Não há espaço para acolhida ou diálogo e existe um forte componente misógino na forma como todos agem. A linguagem do filme evidencia o isolamento da protagonista, visualmente encurralada, especialmente com a intensificação de bullying e assédio.

A trajetória de Iman é marcada por julgamentos que escalonam rapidamente. A sensação que permanece é que há um peso excessivo para algo que poderia ser apenas uma mentirinha juvenil sem mais consequências. Excursão é mais um filme que se insere em um histórico de obras que retratam sexualidade, adolescência e suas consequências no cinema e sua narrativa desperta o interesse e gera empatia pela personagem principal, especialmente diante da ausência de razoabilidade das demais personagens.

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Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisa corpo, gênero, sexualidade e cinema e é feminista.

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