[79º Festival de Cannes] Entrevista com Manu Sobral, de “Ilhéus”
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
Natália Bocanera: Ilhéus nasceu a partir de um curta-metragem homônimo, que já possui uma trajetória internacional. O que te levou a perceber que aquele universo ainda tinha desdobramentos possíveis?
Manu Sobral: A produção de Ilhéus, o longa, só foi possível por causa do curta e da projeção que o curta teve nos prêmios, nas exibições e tal. Com esse curta que eu consegui apoios, que eu consegui uma equipe interessada, que eu consegui transmitir a ideia do universo, no sentido de conquistar pessoas e apoio, tanto técnicos, de equipamentos, da própria comunidade local. O curta circulou muito lá na Prainha Branca com a comunidade. Então todos os apoios do longa foram possíveis por causa do curta. Porém, não é uma trajetória linear. O curta não veio antes do longa. A cronologia é a seguinte: primeiro veio a escrita de um argumento de série chamada “Ilhéus”, que abordava não só o sambaqui, mas tinha essa centralidade. Ao mesmo tempo abordava o lugar, essa ideia de um lugar com uma comunidade específica tradicional. Mas era uma série, ia desde um passado bem mais remoto, até um futuro que não está no filme. Só que naquele momento não consegui fazer essa série. A série chegou a participar de um laboratório, foi selecionado na mentoria da Lorenna Montenegro, cheguei a trabalhar esse argumento de série. Só que era impossível produzir. A ideia era que eu escrevesse e dirigisse. Eu escrevi junto com o Jean Caetano. Depois que eu percebi que eu não ia conseguir fazer a série, eu pensei num longa, só que também seria muito difícil fazer um longa com a qualidade que eu queria, com uma técnica profissional para poder justamente circular com ele o máximo possível. Então do longa e extrai o curta. Quando eu lancei o curta, ele era uma estratégia de organização do longa. Na verdade, o longa estava já, de alguma maneira, projetado nesse curta, apesar do curta não abarcar a história do longa, é outra questão, é o passado do filme, a ideia do longa já está dentro do curta, que foi para testar a linguagem de um monte de coisas, testar também o espectador, angariar fundos, foi nesse sentido.
Natália Bocanera: O filme chega ao Marché du Film em Cannes em um momento particularmente interessante para o horror brasileiro. O que essa circulação internacional, especialmente em Cannes, representa para você?
Manu Sobral: Então, para mim representa uma oportunidade inestimável e inesperada. Eu não esperava de jeito nenhum. Claro, superou todas as minhas expectativas, uma surpresa muito grande em Cannes, porque é o maior mercado. E qual é a minha questão nesse momento? É encontrar distribuição, porque eu ainda não encontrei distribuição no Brasil para o filme. Então, assim, eu acho que esse é um contexto excelente.
Talvez um dos melhores contextos do mundo para o meu objetivo seguinte, que é mostrar o filme, participar em festivais de gêneros e eventualmente de não gêneros, festivais de filmes independentes, de filmes de autor. E vender, quem sabe, para plataformas, é um outro formato que funcionaria muito bem, tem uma dinâmica. E exibir o filme para o máximo de pessoas possível no Brasil e fora do Brasil. Então, nesse sentido estar em Cannes, nesse circuito internacional sobre o cinema com um destaque, uma vitrine e tal, é excelente para esse momento da carreira do filme.
Quanto ao horror brasileiro, assim, para mim o que eu vejo no caso do Ilhéus: é sempre bom a gente ter um impulso, uma credibilidade dentro de um grupo. Então, é muito oportuno para mim e me sinto contemplada também por fazer parte de algo que não só eu que estou sentindo, pensando, fazendo, e criando em cima de referências, visuais e sons de uma cinematografia, mas também outras pessoas no mesmo espaço e tempo que eu, fazendo a mesma coisa. É interessante fazer parte de uma espécie de movimento.
Quanto ao meu caso específico, o que foi muito, muito oportuno para mim, foi o convite do Javier Fernandes e da Mônica Trigo. A Mônica Trigo também é a diretora do CineFantasy e o Javier é curador do Ventana Sur, também é o cofundador do Blood Window. A Mônica e o Javier me convidaram para esse showcase, eles que são sócios da VDF. E o Blood Window é uma referência absoluta. Não sei se é a primeira, mas possivelmente sim, em todo caso é uma janela histórica importantíssima do Ventana Sur. O Ventana Sur já é um mercado, uma janela latino-americana para produções latino-americanas, mas a Blood Window é ainda mais específica dentro desse contexto, a janela para filmes de gênero. E daí eu não estou falando de horror porque o Ilhéus não é um filme de horror. Ele tem um momento no filme que tem um clímax que ele adota, assim, abertamente o gênero de horror. Mas ele é um filme de fantasia. É uma fantasia macabra, uma fantasia sombria. Então ele está o tempo todo ali conversando, encostando no horror, mas ele é principalmente um filme de fantasia. Mas tanto a fantasia quanto o sci-fi, quanto o horror, estão nesse guarda-chuva da ficção especulativa do cinema de gênero. Aí está todo mundo falando da mesma galera, do mesmo universo de interesse. sobretudo como se pensa em público e audiência.
Natália Bocanera: Pelo que já sabemos do filme, Ilhéus lida com pesquisas arqueológicas de rituais fúnebres de uma civilização desaparecida e traz uma protagonista feminina como pesquisadora. Quais imagens, leituras ou inquietações deram origem a essa história?
Manu Sobral: Sobre a questão do que deu origem às referências e os rituais fúnebres da cultura sambaquiana, que é essa cultura que desapareceu aproximadamente 1000 anos antes da nossa era: são cemitérios que são montes de areias que podem chegar até 40 metros e que estão distribuídos meio que ao longo de todo o litoral, mas sobretudo uma grande concentração no litoral sudeste, que é da onde eu sou também, Rio de Janeiro. A maior concentração de sambaquis desses cemitérios ancestrais fica em Santa Catarina. Provavelmente ali havia grandes aglomerações na pré-história.
Eu sempre tive contato com os sambaquis. Sempre me impressionou muito. Demorou muito tempo para eles começarem a serem sítios preservados pelo IPHAN como patrimônio imaterial, e é muito pouco difundido. Para mim ficou muito forte desde que eu leio sobre e isso faz bastante tempo, acho que foi uma paixão antiga. E não é passado nas escolas, porque o povo sambaquiano dominou a Costa Brasileira por mais de 3000 anos, uma nação por mais de 3.000 anos é um império, né?
A gente frequenta museus, e a gente vê tantas civilizações, impérios. E aqui, com essa com essa possibilidade de se falar de um império, como que ele se sustentou, para onde ele foi. Então sempre foi um assunto que me interessou. Ele voltou à tona, aquela paixão antiga reacendeu muito forte durante a pandemia, por conta dos sepultamentos com coletivos que a gente assistia virtualmente.
A cultura sambaquiana tinha essa característica de sepultamentos coletivos, mas era muito ritualizada, era muito ligada a uma um tipo de cosmologia, provavelmente uma espiritualidade específica. Eu comecei a me questionar sobre como os povos enterram seus mortos, qual a importância disso, qual o significado dessas despedidas. E é outra coisa que me entrega muito do povo sambaquiano, porque é um grande mistério, tanto a origem, quanto o desaparecimento dele. Então, não se tem muita pista sobre isso.
Sobre as referências, uma referência muito grande para mim de leitura é a Madu Gaspar, que é uma arqueóloga veterana muito conceituada que escreveu dezenas de livros, artigos, talvez até mais que dezenas, talvez centenas sobre o assunto, que é uma pioneira. E que tem projetos incríveis no departamento de arqueologia brasileira, no recorte dos sambaquis e paisagens. Eu frequento os simpósios, os encontros de arqueologia, porque é um assunto que me apaixona mesmo.
Então, ali tinham trópicos. Realmente eram rituais, além de fúnebres mágicos, também. E eles dão muita pista também sobre essa cosmovisão de que todas as criaturas fazem parte, são constituídas de elementos compartilhados, de uma mesma energia. E o que diferencia, por exemplo, um homem de um animal é só uma roupagem. A pele, o corpo.
Tem outra referência que das artes visuais, da Ana Mendieta, que é uma artista cubana, que trabalha muito a relação do corpo feminino com a terra, com os processos, com o renascimento, com a despedida, com desterro. Ela é uma referência bem grande para mim, assim, fora do cinema. No cinema, eu acho assim, uma referência bem grande para mim, assim, mais recente, foi o La Llorona, um filme guatemalteco, que é do Rairu Bustamante, que eu achei um filme muito forte, porque ele fala desses fantasmas que vem desses lugares do silêncio.
Natália Bocanera: Ilhéus foi quase que inteiramente filmado na Prainha Branca, no Guarujá. Como foi filmar naquele espaço e construir relação com a comunidade local?
Manu Sobral: O filme foi rodado todo na Praia Branca, tirando as sequências da universidade e uma outra coisa que a gente filmou na Represa da Guarapiranga, mas ele foi 90% filmado na Praia Branca. Foi espetacular, foi um casamento de ideias voluntárias e uma compreensão mútua muito grande, porque ali, a Praia Branca é uma comunidade caiçara muito resiliente, do lado de São Paulo e com muita consciência dessa pré-história.
A cultura bahiana também é uma cultura que é muito ligada ao mar, ao oceano, às práticas ligadas de sobrevivências ligadas ao oceano, ao transporte marítimo. Era muito importante para o filme estar num lugar em que essa cultura ainda existe. E a Prainha Branca é esse o caso. A gente teve uma relação muito próxima. O nosso diretor de locação é o presidente da Associação de Moradores de lá. O nosso ator principal é uma pessoa de lá da região também, de Camboriú, é um não ator, que a gente ensaiou, ele teve muita disponibilidade, muita paixão, porque eu acho que o roteiro conecta com pessoas que estão morando em um dia a dia nesse contexto do oceano e da mata. E assim, a figuração, a comunidade inteira se envolveu. Foi uma coisa linda. E aumentou a economia local por um tempo, de forma bastante intensa, então foi bom para todo mundo e foi uma troca muito grande, muito boa, muito rica.
Natália Bocanera: Fazer cinema de gênero no Brasil — especialmente em um momento em que cada vez mais mulheres têm ocupado esse espaço — ainda envolve uma série de desafios práticos e estruturais. Quais foram as maiores dificuldades para tirar Ilhéusdo papel nesse sentido?
Manu Sobral: O filme de gênero já sofre alguns preconceitos. Apesar de ter mais espaço hoje em dia, ainda tem um tem muitas pessoas que tem uma certa ressalva, de não ser um formato sério, um formato de excelência, qualquer coisa assim. Então, esse problema sempre existe.
Sobre fazer cinema no Brasil sendo mulher, eu sei que o contexto está muito melhor, mas assim, é uma coisa relativamente recente, ainda é bem difícil eu dirigir. Se é uma diretora mulher, sendo uma diretora mulher como eu, no primeiro longa, que não tinha uma grande produtora chancelando, o talento, a qualidade, essas coisas que as pessoas dão muita importância, obviamente e com razão, mas eu não tinha todas essas chancelas para ser tão forte. Também não tinha ganho nenhum edital. Mandei para todos os editais e não tinha ganho nenhum edital. Então, eu não tinha uma validação muito sólida externa. O que eu tinha como validação da minha presença como diretora eram mesmo os meus filmes anteriores e sobretudo o curta. Depois é difícil conseguir dinheiro, tem muitas dificuldades, mas a gente conseguiu e agora a recompensa acaba sendo uma coisa bem heroica. E isso é bem interessante de se experimentar. Tanto eu quanto a Mariana Zane, que é a produtora, a gente teve alguns grandes desafios, assim como imagino aqui muitas mulheres do cinema independente no brasil tiveram.

Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.


