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[79º Festival de Cannes] Made of Flesh and Fuel

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


O cinema de Ken Loach e a expressão da precarização das condições laborais na Europa deixa, naturalmente, inspirações e referências para o campo do cinema realista social. Made of Flesh and Fuel, filme de Pierre Le Gall selecionado para a Semana da Crítica do 79º Festival de Cannes, traz, à primeira vista, a sensação de ser uma dessas heranças mais evidentes. 

O diretor nos apresenta essa Europa em crise migratória e trabalhista tão cara ao cinema de Loach, em um cenário moderno no qual formas cada vez mais fragmentadas de conexão humana se consolidam, por meio do olhar do caminhoneiro francês Étienne (Alexis Manenti), que atravessa o continente fazendo do veículo seu lar. O distanciamento da obra do cineasta britânico reside na maneira como Le Gall assume a dramatização de um romance queer nesse contexto ainda pouco explorado pelo cinema. Se o cotidiano impõe ao protagonista jornadas exaustivas e claramente desumanas – almoços feitos ao volante, banhos secos improvisados dentro do caminhão, a coluna desgastada pela ergonomia precária e pela permanência contínua na estrada -, os prazeres e respiros também precisam encontrar espaço ali, e o filme acompanha a tentativa desses homens de preservarem alguma intimidade em um mundo que os encurrala no isolamento. 

A transição da nossa percepção sobre a temática, qual seja, do realismo social para um romance queer inserido no ambiente de trabalho, ocorre por meio de um momento perspicaz em que o diretor vai aguçando gradualmente nossa curiosidade acerca dos caminhos do filme. Atrás dos estacionamentos de caminhões, refúgios minimamente seguros encontrados no meio da estrada, Étienne faz uma caminhada noturna por uma floresta onde acontecem cruisings. Nosso olhar busca compreender a natureza daquele espaço em penumbra, fotografado em um misterioso tom azulado, na mesma medida em que o personagem procura um parceiro anônimo para um encontro ocasional. É nessa dinâmica que ele conhece Bartosz (Julian Swiezewski), um caminhoneiro polonês. O sexo intenso entre eles se transforma em um sentimento genuíno, dando início a uma relação sustentada por chamadas de vídeo que permitem o compartilhamento da rotina, bem como por encontros ocasionais, apesar da distância provocada pela estrada.

O diretor insere o road movie em espaços pouco romantizados pelo cinema: postos de gasolina, plataformas industriais, estacionamentos noturnos e cabines de caminhão onde trabalhadores vivem comprimidos entre jornadas intermináveis e solidões. A estrada, associada à liberdade, surge aqui como sinônimo de aprisionamento, já que homens cruzam países diariamente sem que isso signifique encontrar pertencimento em lugar algum. 

Made of Flesh and Fuel reflete sobre as possibilidades do amor e do desejo em contextos de precarização laboral, compreendendo que a violência capitalista não se manifesta apenas por meio do desgaste físico do trabalho, mas também pela corrosão dos afetos. O amor, aqui, precisa sobreviver e encontrar espaço em intervalos de minutos. Mesmo quando há desejo pulsante – e o diretor explora cenas de sexo relativamente longas -, o erotismo acaba contaminado pelo ambiente opressor das cabines minúsculas dos caminhões. 

Le Gall, entretanto, parece abandonar o retrato sensível desses sujeitos ao transformar a narrativa em um melodrama. A trilha sonora altíssima, que cresce nos momentos de expectativa amorosa, e os inúmeros atalhos de roteiro que evocam apelo emocional, aproximam o filme de uma cafonice quase novelesca. É interessante que o diretor se aproprie de uma pieguice tipicamente romântica em favor de duas categorias marginalizadas: a representatividade homoafetiva no cinema e a representatividade de uma classe trabalhadora invisibilizada. Ainda assim, parece não dar conta de equilibrar esse romantismo exacerbado com a expressão mais realista do capitalismo que massacra o trabalhador. 

De mais a mais, o filme evita reduzir seus personagens queer a narrativas traumáticas. Muito embora existam momentos em que se cria a expectativa de uma possível violência homofóbica masculina – afinal, trata-se de um espaço marcado pela performance da hipermasculinidade -, Made of Flesh and Fuel subverte nosso olhar, acostumado a temer pelo protagonista, para observar respeito e reconhecimento entre aqueles homens. 

Mesmo escorregando em certas conveniências narrativas e assumindo uma estética emocional por vezes excessiva, Made of Flesh and Fuel é honesto na maneira como humaniza trabalhadores reduzidos à invisibilidade, construindo um retrato melancólico de pessoas que seguem tentando amar, apesar de uma estrutura de vida organizada pelo capital e que impede, consequentemente, qualquer permanência. 


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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