[79º Festival de Cannes] The Dreamed Adventure
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
Dos vinte e dois filmes que compuseram a competição da 79ª edição do Festival de Cannes, apenas cinco foram dirigidos por mulheres, e dois deles foram exibidos no último dia do festival, quando muitos jornalistas e críticos do mundo todo já haviam deixado a Croisette. É nesses momentos que se torna evidente o desprestígio ainda atribuído ao cinema feito por mulheres, sobretudo quando percebemos que muitos dos títulos selecionados para a competição principal são medianos, ou mesmo fracos, enquanto outras mostras abrigam cineastas realizando obras de enorme qualidade.
The Dreamed Adventure, de Valeska Grisebach, foi o penúltimo filme da competição a ser exibido. Representou, simbolicamente, as mulheres cineastas presentes na disputa ao ser laureado com o Prêmio do Júri, o que foi, de fato, uma surpresa, já que, muito embora interessante, o longa é dono de duas horas e quarenta minutos que parecem intermináveis. Funciona em um ritmo livre e em um tempo muito próprio, acompanhando personagens que perambulam por espaços e conversam aleatoriamente com pessoas, inseridos em um contexto político mais amplo que permanece sutilmente presente ao longo da narrativa.
Ambientado na fronteira entre a Bulgária, Grécia e Turquia, The Dreamed Adventure é um estudo de personagens em trânsito, envolvidos em esquemas ilegais como forma de escapar da marginalização e da precariedade em que vivem. Grisebach retrata uma faceta periférica da Europa, sobre a qual paira a sensação de não pertencimento, como se aquelas existências fossem sempre provisórias e o tempo permanecesse suspenso para elas.
Grisebach constrói um filme de rotina, no qual o meio e as relações de causa e consequência interferem gradualmente na vida dos personagens sem que haja grandes acontecimentos. São duas as figuras que concentram nossa atenção. A primeira delas é Saïd (Syuleyman Alilov Letifo), um homem que trabalha nas estradas em um ofício aparentemente não totalmente legalizado ligado ao comércio de combustíveis e que retorna à sua terra de origem, despertando contas não acertadas e relações mal resolvidas do passado.
Uma dessas pendências relacionais é Veska (a ótima Yana Radeva). Arqueóloga, ela trabalha escavando peças de cerâmica que revelam costumes e modos de vida de povos passados. Quando surge, entusiasmada ao reencontrar o antigo amigo, e talvez antigo affair, Saïd, o filme passa gradualmente a se voltar para ela. Saïd, após ter o carro roubado, literalmente desaparece. Seu sumiço, entretanto, não parece gerar grandes preocupações ou abalar Veska de fato. Na realidade, nenhuma circunstância parece interferir verdadeiramente em sua serenidade, e seu sorriso constante, presente até nas situações mais carregadas de agressividade ou tensão, a transforma em uma figura enigmática, observadora e progressivamente fascinante à medida que passamos a conhecê-la melhor.
The Dreamed Adventure é uma obra naturalista que até leva o naturalismo ao extremo, sobretudo em seus aspectos temporais e ordinários. São incontáveis as vezes em que Veska se senta à mesa, reunindo-se com homens e mulheres diferentes para comer, beber e jogar conversa fora sem que isso necessariamente agregue relevância narrativa. Como dito, muitos acontecimentos revelam com sutileza traços e informações sobre a protagonista, como seu envolvimento com o crime organizado da região ou a tensão discreta de ser a única mulher em meio a tantos homens, perceptível em seu incômodo, por exemplo, com o decote da blusa. Essas revelações, entretanto, surgem como lapsos dispersos em meio a cenas longas demais, que conduzem o espectador para espaços outros que não o próprio filme.
Mesmo quando a diretora insere momentos de dinâmica supostamente mais ágil, o tempo da ação e da reação permanece lento, destoante e estranho. Isso ocorre, por exemplo, quando a protagonista presencia uma situação de violência e precisa retirar uma criança dali diante do risco iminente. Enquanto a tensão aumenta, vemos a personagem agir em um tempo desproporcional à brutalidade da situação. O oposto também acontece. Na única cena de sexo do longa, Grisebach assume um dinamismo mais coerente com o momento, mas interrompe a cena justamente no auge do prazer da protagonista.
The Dreamed Adventure desafia proporções convencionais do tempo fílmico ao dilatá-lo de maneira muito próxima da realidade em determinados momentos e torná-lo antinatural em outros, justamente quando se espera agilidade. Sua protagonista é uma mulher que sobrevive em um mundo absolutamente masculino, circulando por ele e se impondo sem temor. Sua calmaria reflete a placidez rítmica, mas a compreensão gradativa do lugar que ela ocupa nesse espaço parece ter sua relevância diluída na prolongação excessiva dos acontecimentos que permeiam a obra.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.


