Correntes Ocultas (Undercurrent, 1946)
Publicado originalmente em 07/05 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.
Quando a diretora Dorothy Arzner a lançou ao estrelato com Assim Amam as Mulheres (Christopher Strong, 1933), praticamente já moldou o tipo de papel que acompanharia Katharine Hepburn ao longo da carreira: mulheres independentes, geralmente com algum destaque social, muitas vezes que se vestem como a própria atriz, com um guarda-roupa fluido que incorporava itens de alfaiataria que na época eram considerados masculinos.
Com essa persona ousada se estabeleceu com Manhã de Glória (Morning Glory, 1933), de Lowell Sherman, seu primeiro Oscar; As Quatro Irmãs (Little Women, 1933) de George Cukor; Levada da Breca (Bringing Up Baby, 1938), de Howard Hawks; Boêmio Encantador (Holiday, 1938), novamente de Cukor; Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story, 1940), de Cukor e sua terceira indicação ao Oscar, O Fogo Sagrado (Keeper of the Flame, 1942), mais um Cukor; A Mulher do Dia (Woman of the Year, 1942), dirigido por George Stevens e sua quarta indicação ao Oscar. Entre dramas e comédias malucas chegou ao ano de 1946, quando foi protagonista de Correntes Ocultas (Undercurrent), dessa vez um melodrama noir dirigido por Vincente Minnelli. Desse panorama de sua carreira até aí é interessante como sua persona tomboy emprestada do estilo pessoal, se sedimentou nas telas em parceria com cineastas queer: Arzner, Cukor e Minnelli.
Esse último diretor havia alcançado o sucesso há pouco tempo: seu primeiro filme foi o musical Uma Cabana no Céu (Cabin in The Sky) apenas três anos antes. Mas isso não o impediu de, nesse meio tempo, filmar um de seus maiores sucessos, Agora Seremos Felizes (Meet Me In St. Louis, 1944). Para um cineasta que em tão pouco tempo ficou conhecido por seus musicais, um noir parece um desafio. Mas Correntes Ocultas foi seu primeiro melodrama, outro gênero em que Minnelli viria brilhar. E Hepburn é uma escolha interessante para o papel principal.
Sua personagem, Ann Hamilton, é uma mulher inteligente, cuja mãe já é falecida e cujo pai, David “Dink” Hamilton (Edmund Gwenn) é professor universitário. Embora ela não tenha a formação específica, ela cuida da casa e ao mesmo tempo o ajuda com seu trabalho, uma vez que ele tem um laboratório nesse espaço. Dessa forma ela recebe a atenção e o flerte de orientados que frequentam sua casa, mas nada disso lhe interessa. A direção de arte de Randall Duell e Cedric Gibbons representa a ciência de forma cenográfica e abstrata: Ann rodeada por vidros transparentes, tubos e líquidos. O laboratório parece aquele de um cientista maluco de um filme menos sério. As portas se abrem diretamente para a sala, mantendo um senso de domesticidade.
Mas sua indiferença ao romance cai por terra quando o pai se reúne com um industriário, Alan Garroway (Robert Taylor), interessando em um elemento que seu pai está pesquisando. Ela se apaixona imediatamente e a primeira reação é ficar insegura com sua aparência. Se em Núpcias de Escândalo se acentua a relação entre mulher e deusa, aqui o Ann tem consciência da simplicidade de sua imagem e não sabe se ela é capaz de atrair um homem rico e acostumado a estar em lugares refinados. Minnelli dá uma resposta rápida: o filme não é sobre corte e ambos estão diante do altar. O que importa é o que vem depois.
Logo depois do casamento, Alan a leva a uma festa de ricaços. As mulheres todas usando seus melhores vestidos, chapéus, plumas e joias. E Ann e está com uma de suas roupas de filha de professor, um traje marrom, não de milionária. O resultado foi humilhante. Porque ele não a levou para comprar roupas novas antes de apresentá-la para sua sociedade? Porque deixou-a passar por tamanho constrangimento?
Com pouco tempo para conhecer o amado, Ann aos poucos vai descobrindo que há muito que não sabe sobre ele. Lacunas precisam ser preenchidas. Há cochichos. Há histórias. E logo ouve falar do irmão dele, Michael, que desapareceu no passado. A história que corre é que Alan teria matado o próprio irmão, Michael. A figura fraterna ronda como alguém de quem Ann teria gostado profundamente: seu gosto poético e seu apreço pela casa e pela natureza despertam a curiosidade dela. Ann começa temer o marido: cada gesto parece esconder um significado e ela busca a imagem passada da figura fraterna.
É interessante como o filme dialoga com outros desse período, se inserindo em uma cronologia de narrativas em que as mocinhas apaixonadas subitamente se descobriam com medo do amado, mas presas pela situação. É o caso de Rebecca, a Mulher Inesquecível (Rebecca, 1940); Suspeita (Suspicion, 1941), ambos de Alfred Hitchcock e À Meia Luz (Gaslight, 1944), de George Cuckor. Especialmente Suspeita compartilha com esse filme o fato da protagonista ter receio de ser morta pelo marido, medo esse, que, no caso de Ann, se aprofunda conforme conhece a história de Michael, que paira com um fantasma de dúvida. Parece haver um recorte histórico, no espírito do tempo bastante específico que favorece a paranoia e o medo, conectando sexo e morte em uma conciliação absurda que perpassa a psique da nação. Entre o drama e o suspense, havia uma construção de feminilidade fragilizada que questionava sua própria percepção de realidade. A protagonista de Hepburn trilha esse caminho, mas sempre reclamando sua agência, investigando por conta própria, tentando afugentar os temores e manter a certeza no amor.
O filme não costuma ser lembrado entre os grandes trabalhos de Minnelli, talvez porque estivesse se familiarizando com o melodrama e porque noir nunca chegou a ser uma especialidade sua. Mas sob sua batuta competente e um bonito jogo de luzes e sombras contrastantes, numa fotografia estilizada, Katharine Hepburn consegue dar vida à protagonista que poderia ser vista como uma construção peculiar em sua carreira: fragilizada e em dúvida, e ainda assim domina a personagem conferindo-lhe um caráter de resistência. O próprio roteiro permite que expresse tenacidade e curiosidade diante das situações apresentadas, apesar de tudo, mesmo sob o suspense psicológico que se constrói. As revelações finais não deixam de ser uma agradável surpresa. Correntes Ocultas pode não ser o mais famoso dos filmes de ambas as carreiras mas vale a pena ser assistido.
Assistido em DVD (Box Mestres do Cinema Vincente Minnelli)

