O Diabo Veste Prada 2
Os tempos eram outros em 2006. Tempos mais simples. Nós todos éramos outras pessoas. Quando O Diabo Veste Prada foi lançado eu tinha míseros 21 anos de idade, peguei o livro na biblioteca, naquela mania eterna de ler-o-livro-ver-o-filme. O filme, afinal, era adaptado do livro de mesmo nome de Lauren Weisberger, baseado nas suas experiências trabalhando no revista Vogue. Eu ainda não era formada e já sabia que não queria ser arquiteta, embora não sabia o que queria fazer. Escrever, com certeza. Mas também era absolutamente louca por moda. Comprava revistas, comprava livros de história da moda, desenhava croquis. Pouco depois comprei minha máquina de costura e entrei num curso de corte e costura. Comprava revistas Burda (revista de moldes) no sebo e com elas e a partir de roupas que eu já tinha comecei a costurar as minhas próprias roupas.
Assistia religiosamente Project Runway e até mesmo America’s Next Top Model, na falta de qualquer coisa melhor qualidade na TV pra sentir que eu estava perto desse mundo. Lembrando que eu morava em Blumenau, no interior do interior. Quando eu via um reality show desses, a ideia de desenhar uma coleção minha parecia completamente despropositada. Mas eu não deixava de querer fazer algo meu mesmo assim. Quando tive minha primeira coluna em um site, em 2013, foi sobre figurino. Quando entrei no mestrado, no mesmo, ano, meu projeto foi sobre moda e gênero, mas depois o tema foi mudando com sua execução.
Então, quando assisti a O Diabo Veste Prada, mergulhei no mundo do filme, dois universos que naquele momento eu aspirava a distância: a moda e o jornalismo. Cada vez que uma personagem mencionava um nome ou um sobrenome sem contexto e eu o reconhecia, era como se eu pertencesse de alguma forma àquele mundo retratado.
O Diabo em questão era Miranda Priestly, interpretada por Meryl Streep, personagem inspirada na mítica editora da revista Vogue estadunidense Anna Wintour. Na ficção Vogue se converte em Runway, o lugar onde “milhares morreriam para trabalhar”, mas Andrea “Andy” Sachs (Anne Hathaway) vai parar completamente alheia ao impacto cultural da publicação. Rodeada por Emily (Emily Blunt) a assistente que sonha com as semanas de moda e Nigel (Stanley Tucci), diretor criativo e braço direito de Miranda, veterano na área, que apesar de rabugento, está disposto a ajudar a novata.
Miranda, por sua vez, tem a língua mordaz, trata seus funcionários com distanciamento e mesmo desdém, exige padrões de excelência impossíveis e controla até mesmo o que vai ser lançado pelas grandes marcas. Fica claro que está pronta para deixar para trás seus amigos leais para se manter perpetuamente no topo. A própria narrativa redime seu estilo feroz, com um semi-questionamento: ela seria quem é se não fosse desse jeito? O que fica nas entrelinhas é que, para além do inferno que é trabalhar com Anna/Miranda, a Runway/Vogue só é possível por sua causa. Ou ainda, extrapolando, que se ela fosse homem talvez a postura nem causasse tanta estranheza assim. Não que seja defensável, claro.
O que Andy ganha ao trabalhar nesse ambiente, além da experiência, é autoconfiança e um senso de estilo aprimorado. Afinal, por mais que desdenhasse de qualquer noção de moda ao entrar na revista em um primeiro momento, entendeu que pode haver um equilíbrio na ideia de projetar uma imagem profissional e assimilou quais as ferramentas possíveis para isso.
Avançamos 20 anos para o futuro e o filme da vez é O Diabo Veste Prada 2. Na sequência inicial Andy está recebendo um prêmio por alguma matéria importante sobre a cidade de Nova York. Mas segundos antes de subir ao palco, ela e todos os seus colegas de redação foram demitidos em um passaralho por SMS. Emocionada diante da demissão, faz um discurso apaixonado em defesa do jornalismo.
No outro lado, a Runway publicou uma matéria elogiosa a uma marca que descobriu-se fazer uso de sweatshops, fábricas com mão de obra precarizada. Quando veio a público, a suposta conivência da revista foi creditada a Miranda, que foi considerada culpada por tudo. Para de salvar a credibilidade da publicação, Irv Ravitz (Tibor Feldman), CEO da editora, resolve contratar Andy como editora para renovar a revista. E assim Andy e Miranda voltam a se encontrar. E a brincadeira com o público parte do impacto dos eventos na vida de cada uma: se para Andy definiram sua carreira dali em diante, para Miranda, por mais fascinante que tenha sido naquele momento, porque teriam sido memoráveis? Afinal, quantas assistentes se pode ter em duas décadas.
Um dos acertos é justamente o senso de familiaridade. Isso inclui as pequenas referências ao anterior, como um par de cintos em uma banca de brechó ou um cartaz de anunciando uma coleção floral de primavera (que inovador!). Com a passagem do tempo, o reencontro entre as personagens também é um reencontro nosso com elas. E não só com elas, com o time todo: volta o diretor David Frankel e a roteirista Aline Brosh McKenna, conferindo continuidade aos projetos, de forma que as personagens realmente pareçam viver uma sequência (com o perdão do trocadilho) dos eventos do filme anterior, respeitando esse intervalo de tempo de maneira que há um amadurecimento que faz sentido nas interações.
Andy é idealista, claro, e ainda se dedica a reportagens inteligentes, mas ela sabe que o cenário exige adaptabilidade. Agora aprendeu que pode comprar um casaco Margiela por 11 dólares no brechó, por exemplo. Até seus amigos são outros, inclusive. Se no primeiro filme ela está rodeada por pessoas que julgam sua dedicação ao trabalho e consideram tudo futilidade, em 2026, quando a maioria dos mercados já foram precarizados (pejotizados, em termos brasileiros), ninguém ousa questionar qualquer tipo de comportamento aguerrido para segurar um fiapo de possibilidade de carreira. Especialmente se isso implica em conseguir indicações pros outros. E Miranda… bom, Miranda precisa ser lembrada constantemente que ela não pode mais falar frases que são entendidas como politicamente incorretas, não pode destratar fisicamente seus assistentes e não dita mais o que as Maisons vão lançar. De certa forma está mais flexível. E a assimilação da imagem de Miranda pelo público ao longo dos anos é tamanha, , essa negociação entre diabo e apenas uma chefe linha dura admirável, que Meryl Streep e Anna Wintour trabalharam juntas na campanha de divulgação. O próprio diabo que um dia foi denunciado, agora amansado e convertido em meme para as massas. O capitalismo é mesmo fascinante.
O jornalismo não é mais o mesmo. A moda não é mais a mesma. Nigel mesmo fala que hoje a Runway não é uma revista, é conteúdo para ser scrollado no banheiro. A lógica é outra. Hoje matérias longas são raras. Jornalismo de qualidade exige recursos virou um chavão. Recursos esses que quase ninguém tem disposição para pagar. Cobertura de moda é cara. Ninguém mais compra revista. Já as casas de moda vivem de temporadas cada vez mais curtas, já que agora além dos dois desfiles principais, realizam os de pré-temporada e às vezes outros específicos. Hoje a venda de bolsas e perfumes, com valor agregado menor que as roupas, são o que sustentam as marcas. E no final das contas, influencers substituem o papel tanto de jornalistas quanto de modelos em ambos os mercados. As aparições de pessoas como Donatella Versace, ela mesma mais uma figura midiática do que qualquer outra coisa, acabam por reforçar a ideia de o mundo da moda é hoje uma caricatura de si mesmo.
Nesse contexto, trabalhar em algo como a Runway carrega ainda um nome, um legado, mas certamente não a mesma influência e importância que 20 anos atrás. Andy sabe disso, mas sabe que há poucos lugares disponíveis para ser jornalista. Miranda sabe disso, mas ser a chefa da revista é tudo que sempre foi.
O que não é mais como já foi é a estética, claro. Se a peruca de Meryl Streep no filme original, confeccionada por J. Roy Helland, confere o volume e a onda perfeita para a persona incisiva e divônica de Miranda, agora seu cabelo é uma versão tímida do passado. Da mesma forma, seu escritório é preenchido com uma composição desinteressante e burocrática de quadros em preto em branco daqueles que parecem ser vendidos em lojas de materiais de construção como arte pronta quando a pessoa não sabe o que usar para decorar as paredes. Muito diferente do tipo de arte instigante ou inspiradora que se esperaria na sala de uma trendsetter. E quando Miranda usa um trenchcoat de vinil bege? Pijama Versace? Ela mesma jamais aprovaria. Por fim, as maquiagens em geral são todas escuras e terrosas demais para as personagens, com um resultado visualmente duro. Por outro lado dessa vez Andy não serviu coat porn mas o figurino de Molly Rogers é bastante consistente ao apresentar a personagem como essa mulher madura, que incorpora elementos da alfaiataria para compor sua imagem profissional.
Nesse caldeirão se somam algumas boas participações, como a nova Emily de Miranda, Amari (Simone Ashley), a antropóloga bilionária (uma impossibilidade que relevo pelo bem da ficção) Sasha Barnes, interpretada por Lucy Liu e uma participação especial de Lady Gaga, uma figura que certamente personifica moda e mídia de um jeito particularmente interessante nas últimas décadas. Entre todos essas personagens, é só uma pena que se tenha vilanizado Emily, que antes era focada e mal-humorada, mas não era má. Felizmente há espaço para redenção.
Dito isso, não quero soar excessivamente crítica. Para uma narrativa que é construída em cima da nostalgia de uma obra anterior, e que só vai funcionar dentro de sua lógica e do conhecimento prévio daquele material, ela diverte sobremaneira. Enquanto no primeiro filme a revista era apresentada como um estepe, um trabalho inferior, até mesmo algo vergonhoso, agora, em tempos de crise no mercado, a Runway aparece como uma das últimas tábuas de salvação do futuro do jornalismo, com recursos e liberdade editorial.
É bom reencontrar essas personagens, se reinserir em seus mundos, ainda que eles estejam em metamorfose. Miranda amolece não sem uma pontada de cinismo. Nigel segue um amor com um pouco de acidez e Andy vai continuar sendo idealista, mesmo que os contextos não sejam ideais. Há otimismo no desfecho, mais do que seria concebível na realidade, da reflexão sobre o jornalismo contemporâneo até a forma como se soluciona. Mas talvez é isso o que se quer quando se assiste a algo assim. Ao ver Andy terminar sabendo repaginar seus erros, cortar as mangas do suéter azul cerúleo para usá-lo como um colete incorporado a um look que condiz com sua função atual, é impossível não abrir um largo sorriso. A gente não é mais aquelas pessoas de 2006. Ainda bem. Mas ainda somos um pouco. Que bom.

