Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

[79º Festival de Cannes] Butterfly Jam

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


Tecnicamente, é possível transformar quase qualquer matéria orgânica em uma preparação semelhante à geleia. As habilidades culinárias do personagem de Azik (Barry Keoghan), um chef de cozinha de descendência russa, lhe permitem tal proeza, ao ponto de transformá-la na controversa, antiética, provavelmente insegura e mística geleia de borboletas que dá nome ao novo filme de Kantemir Balagov, que estreou no 79º Festival de Cannes na Quinzena dos Cineastas. À primeira vista, tal descrição parece dar conta de revelar um profissional de renome, cujas aptidões na cozinha o tornam capaz de conceber os pratos mais impossíveis. Ao menos, essa é a percepção de seu filho adolescente, Pyteh (Talha Akdogan), que idolatra a figura de um pai tão imaturo quanto ele próprio, dedicado ao pequeno e decadente restaurante familiar, incapaz até mesmo de investir em uma máquina de algodão-doce para salvar os negócios. 

Butterfly Jam nos leva ao interior conturbado de uma família de membros unilaterais, composta por três irmãos, interpretados por Keoghan, Zalya (Riley Keough) e Marat (Harry Melling). Além de Pyteh, o bebê esperado pela personagem de Keough, grávida, representa a continuidade e a esperança de uma existência menos ordinária. O adolescente desponta como um potencial lutador profissional e, da mesma forma que exalta o talento culinário do pai, Azik deposita, orgulhoso, todas as suas expectativas no futuro esportivo do filho. 

Há, nesse lar sufocante, e principalmente, nas figuras masculinas do filme, uma iminência de violência que é contida por um clima de brincadeira. Em sendo Pyteh lutador, as simulações de luta que acompanham toques mais agressivos revelam tensões frágeis e a ponto de explodir. Homens desafiam-se através da força de seus corpos, ainda que pareça que ali não há rivalidade entre eles. Quando a violência, de fato, se impõe, a estranheza que flerta com a alucinação trabalhada por Balagov torna os seus efeitos letárgicos e de duvidosa assimilação, principalmente dentro de tal contexto familiar.

O diretor anuncia esse torpor que precede o estouro e prenuncia que ele pode acontecer logo na introdução de Butterfly Jam. Num espaço fechado, uma espécie de bar claustrofóbico, pouco iluminado e visivelmente abafado, homens aparentemente embriagados estão reunidos ao redor de uma mesa. A conversa carrega um tom jocoso que é ameaçador, e a expressão dos corpos masculinos valida essa atmosfera. Ouvimos os personagens referirem a luta profissional, mas ainda não os conhecemos o suficiente para saber se as informações que recebemos são confiáveis, principalmente pela sensação de entorpecimento temporal. 

Muito embora não ocupe o centro da narrativa, Zalya (Riley Keough) é, naquele lar de homens imaturos e inseguros diante de suas próprias masculinidades, a irmã que assume, mesmo grávida, uma função maternal perante os irmãos. Ela e Alika (Liyah Richards) são as únicas mulheres nesse universo marcado por figuras masculinas infantilizadas. Richards interpreta uma colega de luta profissional de Pyteh, uma garota tímida por quem ele nutre uma paixão, embora seja incapaz de se aproximar. A delicadeza e a inocência dessa relação contrastam com o próprio lugar que o menino ocupa dentro da família: aos 16 anos, o adolescente aparenta possuir muito mais consciência e responsabilidade do que o pai e o tio juntos.

O relacionamento ingênuo entre Pyteh e Alika é, inclusive, um respiro dentro dessa narrativa perturbada, marcada por nuances alucinatórias que encurralam seus personagens. Os dois compartilham, talvez, a cena mais bela do longa. Quando a menina revela sofrer com acne, numa tentativa de empatia e aproximação da dor do garoto após uma tragédia familiar, Pyteh promete resolver o problema com uma técnica ensinada pelo pai – e ambos friccionam suavemente as costas um do outro, como se, através daquele gesto, ele estivesse limpando-a. Embora a sequência seja adorável e simultaneamente melancólica, ela também nos mantém, em certa medida, tensos, pois somos levados a temer que Pyteh reproduza os comportamentos nocivos dos adultos ao seu redor. 

O auge do conflito acontece justamente quando a ideia de força e virilidade masculina é confrontada e colocada em xeque, confirmando a percepção da toxicidade gradual daquele ambiente, ainda que nele ainda sobrevivam demonstrações de afeto. E o modo como tudo se desenrola é profundamente incômodo, inesperado e brutal. Se os acontecimentos ocorreram exatamente da maneira como os vemos, porém, permanece a dúvida, já que os relatos se contradizem e o delírio passa a dominar a narrativa: no interior da panela de pressão familiar, surge um pelicano que acompanha os personagens por todos os lados, enquanto Monica Bellucci, musa de Azik, aparece como atendente de um café à beira da estrada. Fato é que, em Butterfly Jam, o diretor revela homens incapazes de amadurecer emocionalmente e adolescentes que, cedo demais, precisam aprender a sobreviver aos destroços deixados por eles. 


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *