[79º Festival de Cannes] All of a Sudden
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
Cada um de nós é prisioneiro de um sistema econômico que está à beira de colapsar. A busca pelo lucro fundamenta o modo de existência não só de corporações, mas também os nossos, indivíduos que tanto se tornaram instrumentos desse mecanismo brutal, como o incorporaram tão intrinsecamente no interior de seus seres a ponto de moldar nossos modos de relacionamento e nossa forma de sentir. Não temos tempo de respirar conscientemente. Nem de olhar para o céu. Não temos tempo de demonstrar nossos afetos. O mundo pós-pandêmico, principalmente, nos inseriu numa lógica de pressa nunca antes vista, e nesse contexto, não são poucas as vezes que nos esquecemos de sorrir e de expressar gentilezas em nosso dia a dia.
Até o cuidado com o próximo foi instrumentalizado. Hospitais, casas de repouso e outros estabelecimentos de saúde não estão alheios a esse sistema de acúmulo de bens, dinheiro e resultados. Protocolos, burocracia e decisões menos custosas em detrimento da vida transformaram instituições de saúde em linhas de produção, e o material humano é a principal fonte de lucro. É esse universo de desumanização que o diretor japonês Ryusuke Hamaguchi se propõe a explorar em All of a Sudden, fortíssimo candidato à Palma de Ouro do 79º Festival de Cannes, no qual ele demonstra um amor tão imenso pelas pessoas que, muito embora lide com temas mórbidos e melancólicos, a experiência fílmica se encerra com um sentimento de leveza e vontade de viver de forma mais consciente – Cada um de nós é prisioneiro de um sistema econômico que está à beira de colapsar. A busca pelo lucro fundamenta o modo de existência não só de corporações, mas também os nossos, indivíduos que se tornaram tanto instrumentos desse mecanismo brutal, como o incorporaram tão intrinsecamente no interior de seus seres a ponto de moldar nossos modos de relacionamentos e nossa forma de sentir. Não temos tempo de respirar conscientemente. Nem de olhar para o céu. Não temos tempo de demonstrar nossos afetos. O mundo pós-pandêmico, principalmente, nos inseriu numa lógica de pressa nunca antes vista, e nesse contexto, não são poucas as vezes que nos esquecemos de sorrir e de expressar gentilezas em nosso dia-a-dia.
Até o cuidado com o próximo foi instrumentalizado. Hospitais, casas de repouso e outros estabelecimentos de saúde não estão alheios a esse sistema de acúmulo de bens, dinheiro e resultados. Protocolos, burocracia e decisões menos custosas em detrimento da vida transformaram instituições de saúde em linhas de produção, e o material humano é a principal fonte de lucro. É esse universo de desumanização que o diretor japonês Ryusuke Hamaguchi se propõe a explorar em All of a Sudden, fortíssimo candidato à Palma de Ouro do 79º Festival de Cannes, no qual ele demonstra um amor tão imenso pelas pessoas que, muito embora lidando com temas mórbidos e melancólicos, a experiência fílmica se encerra com um sentimento de leveza e vontade de viver de forma mais consciente – no mundo de hoje sentimentos, veja-se, anticapitalistas.
All of a Sudden, coescrito por Hamaguchi e Léa Le Dimna e estreia do diretor em língua francesa,é livremente inspirado no livro de não-ficção You and I — The Illness Suddenly Gets Worse, escrito por Makiko Miyano e Maho Isono. O filme é protagonizado por Virginie Efira, que vive Marie-Lou Fontaine, diretora de uma casa de repouso em Paris especializada no método “humanitude”, que rejeita os protocolos convencionais de cuidado e enfermagem, encontrando resistência tanto de sua equipe, que tem dificuldades práticas de aplicá-lo e traz problemas reais quanto à sua viabilidade, como pela cúpula da instituição, que exige resultados e números que estão muito longe de serem alcançados. O acaso a faz conectar com Mari Morisaki (Tao Okamoto), uma jovem roteirista teatral portadora de uma doença terminal, e a forte ligação entre elas provoca uma reflexão e um estudo conjunto, com pontos de vista diferentes, mas complementares, a respeito desse sistema opressor e como seguir combatendo-o na prática daquele microcosmo hospitalar, do qual Morisaki depende para ter algum conforto em seu fim.
A técnica “humanitude” consiste, basicamente, em dar ao paciente um tratamento digno, empático e individual, dessa forma não só garantindo qualidade de vida, mas propiciando melhora na condição de suas limitações. Para pacientes com Alzheimer, por exemplo, doença de maior incidência na casa de repouso administrada por Marie-Lou, segundo o filme, é cientificamente comprovado que a terapia evita o prolongamento de crises mais graves que acabam impulsionando pioras relevantes à condição do paciente e reduzindo suas perspectivas de vida. Gestos simples como se colocar à altura do olhar do paciente, mirá-lo nos olhos com atenção, tocar gentilmente seu ombro enquanto lhe dirige a palavra e dizer palavras gentis e elogiosas, dissociam a pessoa em crise daquilo que a perturba, possibilitando a mudança de seu foco e a cessação daquilo que estava lhe proporcionando grande e comprometedor estresse. É dessa forma que vemos Marie-Lou lidar com as pessoas que estão sob sua responsabilidade, e treinar sua equipe a fazê-lo da mesma forma.
O que acontece na casa de repouso e que Marie-Lou luta tanto para preservar é um microcosmo que representa um modo de vida que tenta, mesmo que às duras penas, mesmo estando inserido no próprio sistema, negá-lo através da recusa à desumanização ou automatização do cuidado. É como um pedaço do mundo onde o capitalismo é convidado a permanecer do lado de fora. Antes que saibamos que trata-se de um método científico, assistimos a contenção da crise de uma paciente e somos conduzidos à comoção naturalmente. Estamos tão desacostumados à gentileza, à não-violência, a expressões simples e genuínas de empatia, que estar diante delas soa quase como um chacoalhão na alma, uma lembrança do quanto necessitamos uns do outros, por mais difícil e problemática que seja a natureza humana.
Hamaguchi não tenta construir um mundo perfeito ou vender uma idealização antissistema. A natureza humana é complicada, pode ser cruel e a convivência harmoniosa é um desafio que por vezes soa impossível. Para falar sobre humanidade, ele nos coloca lado a lado dos momentos de maior fragilidade humana: a proximidade com a morte trazida pela idade, e no caso de Mari Morisaki, pela doença que a acomete muito jovem e cheia de vida. Diante de tais contextos, o afastamento é uma medida quase que instintiva de proteção. Não queremos confrontar esses momentos. A certeza da morte do outro nos recorda a certeza de nossas finitudes, e uma das consequências do ritmo capitalista é justamente mantermo-nos a essa distância falsamente segura da morte através de rotinas enlouquecedoras e ansiosas.
Em que pese nos inquiete a languidez da temática, Hamaguchi parece praticar a humanitude por meio de sua câmera, equilibrando tristeza, melancolia, e também leveza e conforto. Nas mãos do diretor, a dor da morte é latente e não é apaziguada, mas de algum modo, a condução gentil do diretor traz acalento ao coração espectador. Para além do método, a relação genuína de Mari-Lou e Mari, que cruzam caminhos justamente nessa fase derradeira da vida da segunda, é parte essencial desse equilíbrio, pois elas mesmas precisam encontrá-lo para atender a necessidade mútua de se conhecer profundamente e ainda assim, adquirir consciência para saber que não terão tempo o suficiente para suprir essa urgência da forma como gostariam. Trata-se de uma conexão muito intensa, formada pelo acaso, e que nos faz refletir a absoluta inexplicabilidade de algumas relações humanas que se firmam tão rapidamente, mas que são tão pulsantes que parecem ter existido a vida toda.
Não só a técnica terapêutica da humanitude afronta a mecanicidade do dever de cuidado e das relações, mas também a própria cadência, construção e duração fílmica convergem para que All of a Sudden para fazermos parte de um distanciamento, ainda que momentâneo, desse sistema econômico que nos engole. O filme tem 3 horas e 16 minutos de duração, cenas dilatadas pelos diálogos longos e até explicações bem didáticas a respeito dos estudos de Mari-Lou. Há, ainda, nos momentos em que o toque humano mostra sua profunda importância na felicidade do ser humano, uma certa atmosfera que transcende nosso raciocínio para ser sentida, de fato, como transformadora de perspectivas de vida.
Como disse meu amigo, o crítico e professor Márcio Sallem, Hamaguchi faz cinema anticapitalista por excelência, e a ele faço coro: All of a Sudden consolida, em forma e conteúdo, o cinema antissistema do diretor, e o posiciona, indubitavelmente, como um dos cineastas mais humanistas da atualidade, não só porque parece ter compreendido a natureza humana, mas também porque nos convida a fazê-lo de forma respeitosa e afetuosa.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

