[79º Festival de Cannes] El Ser Querido
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
Nas mãos de um diretor talentoso, é um deleite observar que uma cena simples de diálogo, em plano e contraplano, pode ser um mar de descobertas e revelar muito a respeito de toda uma trama. El Ser Querido, filme de Rodrigo Sorogoyen em disputa pela Palma de Ouro no 79º Festival de Cannes, inicia-se, justamente, nesse exato contexto de uma longa conversação entre duas pessoas. As noções sobre quem são, sobre a intimidade existente entre elas, as nuances de humor, tornam-se perceptíveis por dois aspectos fílmicos, aqui, de suma importância: pela oscilação de planos e closes, e pela interpretação perspicaz dos atores.
Inseridos nesse contexto, Esteban (Javier Bardem) encontra Emília (Victoria Luengo) num restaurante. Notamos a formalidade, a hesitação e a surpresa entre eles com esse encontro, sem que haja qualquer verbalização nesse sentido. A repetição de perguntas como “você está bem?”, dão conta de que tratam-se de indivíduos que não se veem há muito tempo. Ele é mais velho que ela – seria esse encontro um flerte? Na insegurança e na busca por assuntos que os conectem, o garçom chega e toma o pedido. Esteban faz questão de dizer que já esteve no lugar e pede exatamente o mesmo prato. Quando o atendente volta para anunciar que o prato não será servido naquele dia, a irritação súbita do personagem é notada pela mudança extremamente sutil no tom de voz e no olhar de Bardem.
Nos vinte minutos iniciais, com a descrita introdução, num único espaço e contexto, descobrimos que Esteban é um diretor de cinema renomado, que morava em Nova Iorque e é pai de Emília, uma atriz de trabalhos menores. Descobrimos, ainda, que eles não se veem há 13 anos, ou seja, o abandono parental ocorreu muito cedo na vida de Emília. O retorno dele à Espanha provoca o movimento de reaproximação, mas Esteban assume, a princípio, não a função de pai, mas a de diretor, e a convida para participar de sua próxima película. Na sutileza de Bardem, e talvez ainda mais importante, percebemos que se frustra facilmente quando é contrariado – a expressão ante a falta do prato desejado é cirúrgica nessa demonstração.
Tal qual Valor Sentimental, de Joachim Trier, El Ser Querido parece apostar na ideia da reaproximação e redenção paterna através da arte. Não que isso não faça parte de sua construção. A abismal diferença, aqui, é exatamente a frustração: o vínculo sanguíneo e o afeto não bastam para conectar duas pessoas desconhecidas, e a arte, especificamente o fazer cinema, não se cerca de qualquer idealização que o torne instrumento de cura de relações familiares, principalmente quando seu idealizador é um homem cujo ego e posição de poder o levam a performar uma masculinidade tóxica e autoritária, por mais progressista ou aparentemente gentil que ele possa ser.
Sorogoyen representa a figura desse pai-diretor confrontando suas facetas e o colocando em situações de afronta a essa autoridade que ele está acostumado a exercer como homem e como diretor de cinema famoso. Ele procura a filha para aproximar-se oferecendo-lhe “ajuda”, presumindo que ela o necessite. Obviamente que trata-se de uma oportunidade – afinal, Esteban é vencedor de dois Oscars – mas em que pese seja cristalino e genuíno seu afeto por Emília, as características patriarcais vêm à tona e prevalecem sempre que ela o desafia com discordâncias. Essa reação quase automática dele se repete diante de outras personagens femininas, restando evidente que os prêmios, a criatividade e a fama são supostos permissivos para que exerça uma personalidade machista profundamente enraizada e muito distante de qualquer resolução.
O próprio efeito da presença do personagem em cena dá conta de transmitir tais informações, e a parceria de Bardem-Sorogoyen os coloca como muito prováveis candidatos aos prêmios de atuação e direção nesta edição do festival. Se o diretor aproxima-nos de Esteban com closes extremos que ressaltam suas nuances de humor e a fagulha que precede a explosão da performance masculina, Bardem as expressa com uma maestria assombrosa.
El Ser Querido enfatiza, outrossim, o desalinhamento de pai e filha pelos diferentes pontos de vista a respeito de suas próprias histórias. As memórias de Emília não são as mesmas de Esteban, e o mesmo acontecimento é visto por eles de forma diversa, seja por ter sido ela abandonada na adolescência, seja pela tentativa dele de minimizar a própria culpa. Inclusive, a forma cinematográfica é modificada pelo diretor como representativa dessa diversidade de visões. Além da metalinguagem que nos coloca como espectadores do filme realizado pelos personagens, alterando-se a razão de aspecto e a granulação da imagem, o diretor oscila subitamente para o preto e branco com periodicidade, quando, por exemplo, se estudam e se observam à distância, e a edição sonora acompanha as mudanças na medida em que deseja evidenciar o isolamento, a respiração nervosa e os incômodos dessas figuras. Trata-se, portanto, de uma direção muito presente – e talvez por isso, excessivamente chamativa para si mesma, e por isso mesmo, pode agradar o júri.
Se a oscilação, seja da forma cinematográfica, seja das emoções dos personagens que se atraem e se repelem na mesma medida, ocorre durante todo o longa, a consolidação do futuro dessa relação se dá, quiçá, numa das melhores cenas do 79º Festival de Cannes. Na gravação do filme, após ser contrariado pela filha, Esteban não se satisfaz com nenhuma tomada filmada. O exercício natural do poder da direção extrapola num piscar de olhos. A leveza dá lugar para uma tensão que domina todo o set de filmagens. Se não havia consciência das dores, das máculas que cada um carregava dentro de si, se havia esperança de cura pelo cinema, a resposta fica clara a partir daí.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.


