America’s Next Top Model: Choque de Realidade (Reality Check: Inside America’s Next Top Model 2026)
Publicado originalmente em 07/05 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.
Para quem assistia ao famigerado programa de competição de modelos nos anos 2000, a Netflix lançou uma série documental em três episódios chamada America’s Next Top Model: Choque de Realidade (Reality Check: Inside America’s Next Top Model 2026)), que traz de volta seus principais personagens para discutir o que exatamente estava acontecendo naquele momento da história da televisão. E o resultado é que ninguém parece muito disposto a encarar as próprias ações.
Criado no exato momento em que reality shows competitivos se tornavam um fenômeno televisivo, America’s Next Top Model tinha como mote a ideia de trazer os bastidores do mundo da moda para o público ao mesmo tempo em que abriria o mercado para uma uma novata. Foram 15 temporadas entre 2003 e 2011 e se tornou um sucesso. Aspirantes à modelo passariam por uma série de ensaios fotográficos (que levavam a eliminações semanais) e desfiles e seriam enviadas com seus portfólios para agências reais em busca de trabalhos reais, para, na grande final, participarem de um grande desfile e serem julgadas pelo conjunto dos resultados obtidos.
Na teoria parece ótimo? A execução era um inferno televisivo. Jovens sendo jogadas umas contra as outras em barracos homéricos altamente editados que nada tinham a ver com moda, ensaios fotográficos esdrúxulos, body shaming e humilhação. Meninas desesperadas por uma carreira que a quem assistia sabia que não vinha dali, porque era uma época em que ser famosa de reality show era vergonhoso e, para poder participar do programa, todas elas eram maiores de idade, ou seja, “velhas demais” para estar começando na carreira a sério.
O reality era apresentado pela modelo Tyra Banks. O documentário a coloca proeminentemente em foco e a falta de autoconsciência começa com sua perspectiva histórica, quando ela afirma que não haviam modelos negras antes dela, ignorando nomes como de Iman (e curiosamente David Bowie, com quem foi casada, aparece no doc) e a supermodelo Naomi Campbell, que atingiu um nível de estrelato muito maior que o seu. Daí para frente, ela e o produtor executivo, Ken Mok, irão reviver momentos controversos, de uma modelo obrigada a passar por procedimentos dentários a uma situação de abuso sexual filmada e televisionada pelo programa até o hoje memético “eu estava torcendo por você”. Ambos vão jogar para o ar e comentar a mudança dos tempos e de perspectiva, vão dizer que naquela época as coisas eram diferentes e no final ninguém nunca vai se comprometer com nada. Interessante que as pessoas estavam lá naquela época e o programa já era criticado. Não é como se tanto tempo assim tivesse passado.
Além de Tyra e Ken, o doc conta com depoimentos de coach de modelagem e passarela Miss J. Alexander, o maquiador Jay Manuel, e o Nigel Barker, fotógrafo, que foram parceiros do programa e jurados ao longo de sua duração. Também deram seus depoimentos algumas ex-participantes, com foco nas 5 primeiras temporadas, mas essa seleção poderia ter sido mais mais ampla. Um dos depoimentos, em particular, é lamentável: trazer uma mulher reviver seu trauma apenas para novamente mantê-la sem um desfecho me parece apelativo e sem propósito.
No final das contas, por mais que se proponha como um mergulho nos bastidores de um programa que marcou época, America’s Next Top Model: Choque de Realidade parece mais um esforço chapa branca de redimir o passado de um programa que tem sido muito questionado pelo olhar de hoje, preparando o terreno para o relançamento de um reboot. Com muita culpa no contexto cultural, como se tudo brotasse numa bolha, e pouca autocrítica, só vale por algumas curiosidades para quem acompanhava na época.
America’s Next Top Model: Choque de Realidade está disponível em streaming na Netflix.



