[79º Festival de Cannes] Ben’Imana
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
O genocídio tutsi, ocorrido em Ruanda em 1994, deixou o país absolutamente devastado. Cerca de oitocentas mil pessoas foram exterminadas em poucos meses. Décadas depois, entretanto, a tentativa de reconstrução nacional parece distante de se consolidar, e ainda esbarra em uma questão existencial inevitável: como seguir vivendo quando vítimas e responsáveis pelos massacres continuam compartilhando os mesmos espaços? É nesse contexto que Ben’Imana, da diretora Marie-Clémentine Dusabejambo, uma das poucas produções africanas do 79º Festival de Cannes, laureada com o prêmio Camera d’Or, se insere. Ambientado em 2012, o longa acompanha um país que tenta reorganizar suas estruturas sociais e emocionais através de mecanismos de julgamento e reconciliação coletivos, mas que permanece assombrado por traumas impossíveis de serem plenamente superados.
Os esforços dessa reconstrução assistimos do ponto de vista de Veneranda (Clémentine U. Nyirinkindi), uma sobrevivente do genocídio que transita entre exigir punição dos culpados e organizar reuniões de terapia em grupo para que outras mulheres possam encontrar um lugar seguro para compartilharem suas dores. Ela concilia a vida coletiva com problemas familiares e seus próprios traumas, e o filme lida com esses conflitos e as muitas facetas dessa mulher sem maniqueísmos, heroísmos ou julgamentos. Ben’Imana acompanha, justamente, o peso dessa existência fragmentada, e Dusabejambo constrói, assim, uma personagem complexa, repleta de ressentimentos, fragilidades, sofrimentos, e em meio a essa turbulência, parece difícil haver lugar, tempo ou disposição para ternura ou afeto.
Ben’Imana traz, nas sequências de encontros coletivos – julgamentos e círculos de apoio – a cultura africana da oralidade bastante presente, e nesses espaços, há uma democracia da fala e da escuta. Enquanto nos tribunais populares busca-se algum tipo de justiça como uma tentativa de definição que apazigue a sensação de impunidade, nas conversas compartilhadas o objetivo claro é a cura por meio da exposição, e não necessariamente do desfecho. Cada discussão e diálogo, coletivo ou íntimo, parece impregnado por mais pendências, como se todos ainda estivessem emocionalmente aprisionados em um luto sem encerramento possível.
Dessa forma, a diretora compreende que não existe possibilidade de simplificação diante de uma ferida histórica dessa dimensão, e não transforma Veneranda numa figura moralmente idealizada. Pelo contrário: numa família matriarcal, ela cuida da mãe idosa e lida com a gravidez precoce da filha adolescente, ocultando, nesse seio familiar, dores profundas que conectam essas três mulheres para muito além do sangue. Há um cuidado na maneira como a diretora observa essa mulher que tenta sobreviver à exaustão emocional de ter se tornado, simultaneamente, vítima, cuidadora e símbolo de resistência para outras pessoas.
A tragédia é revisitada mediante os vestígios deixados não só nos corpos sobreviventes, mas também naqueles que vieram depois do genocídio. Trata-se de um trauma geracional e hereditário. Ainda que trate de um contexto político específico de Ruanda, Ben’Imana alcança uma dimensão universal por reconhecer a ambiguidade humana produzida pela violência extrema. Marie-Clémentine Dusabejambo realiza um filme duro, é fato, e testa os limites do perdão e da própria ideia de reconstrução. Quiçá, o que há de mais certo e concreto é que certos traumas não encontram fim definitivo, e o desespero de Veneranda é temer, justamente, na figura e sua filha, a continuidade, em outros formatos, das dores que ela vivenciou, já que em seu próprio coração, a paz parece não permanecer.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.


