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[79º Festival de Cannes] Minotaur

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


Num lar abastado na Rússia, uma família tradicional patriarcal tem forma na figura do pai, Gleb (Dmitriy Mazurov), CEO de uma grande corporação, da mãe, Galina, (Iris Lebedeva) uma bela mulher cujo ofício é cuidar da casa e dos membros desse núcleo, e do filho adolescente, Seryozha (Boris Kudrin). A casa parece uma cabana luxuosa em meio a um bosque, com vidros para todos os lados, incorporando o verde escuro da floresta de pinheiros ao interior amadeirado do espaço. O diretor Andrey Zvyagintsev bebe das fontes de Claude Chabrol e A Mulher Infiel e de Adrian Lyne e Infidelidade para associar a esse modelo conservador um retrato de uma crise generalizada que ultrapassa o indivíduo, se tornando coletiva na medida em que se mostra representativa de toda uma sociedade e de um modo de sobrevivência daqueles que detém o poder e o privilégio e cuja única luta é manter o status quo.

Em Minotaur, cada um dos membros dessa família está em crise, e os colapsos individuais tanto se justificam como reverberam na dinâmica coletiva daquela família. Gleb sofre pressão no trabalho, e sua corporação trabalha lado a lado com Putin, e é constante e mútua a troca de favores entre o público e o privado. Galina não suporta mais a vida como esposa e mãe dedicada, subserviente e disponível. Não consegue mais tocar ou olhar o marido. As turbulências no trabalho e no casamento invariavelmente atingem Seryozha, que compreende que há algo de errado e tem maturidade suficiente para tentar acolher a mãe. 

Os sinais do abalo marital e da infidelidade de Galina são silenciosos e gestuais. Uma sequência de café da manhã basta para que o diretor nos contextualize a respeito dessa dinâmica familiar falsamente pacífica. O marido chega à mesa tudo posto, e pede justamente aquilo que não tem: chá. A esposa o serve, e enquanto o faz, olha o celular rapidamente, levemente ansiosa, e o coloca sobre o móvel com a tela para baixo. Quando Gleb termina o chá, levanta-se e diz que preferiria café. Ela não se expressa, mas a opressão é patente. Depois, sob o ponto de vista do marido, do lado de fora da casa envidraçada, assistimos Galina novamente ao celular, digitando com um sorriso no rosto. Diante das pistas, aflora-se a desconfiança e tensiona-se o clima das relações, e Minotaur dispensa qualquer verborragia para expressá-lo – o meio de fazê-lo é a observação. 

A princípio, nosso olhar para Galina é distanciado, quase como réplica ao olhar do marido sobre ela. Contemplamos sua rotina, suas caminhadas pela cidade quando ela sai de um café para entrar num táxi depois que o marido sai de vista, os sinais e movimentos ao celular. Por vezes, esse recuo soa até julgador, mas Zvyagintsev nos aproxima gradualmente dessa figura, deixando clara a insustentabilidade do casamento e da lógica de sufocamento que testa seus limites, e nos posicionando mais como estudiosos daquele comportamento.

A investigação demandada por Gleb traz uma solução rápida e simples à traição que ainda era misteriosa: ele contrata um detetive particular, diz o que quer, e sem delongas, o investigador entrega todas as circunstâncias do relacionamento extraconjugal. O diretor é prático. A partir daí, passaremos a estudar Galina mais de perto. 

O estreitamento de nosso olhar para Galina nos faz compreender onde a trama deixa de ser individual para tornar-se coletiva num sentido ainda mais amplo. Nas tentativas de Gleb salvar o casamento, o casal sai para jantar com amigos, e nesse ponto entendemos que há uma rede de aparências, de privilégios e status que os sustenta. Se o lado emocional e sentimental do casamento por si só já não encontra mais sentido, o lado contratual e confortável ainda está ali e é forte. 

Galina está à beira do colapso, prestes a explodir. Vê a fagulha de felicidade e de autoestima que lhe renovava a sede de viver ser cruelmente devastada. Mas o que lhe resta? Quais são as possibilidades para ela, uma mulher de meia idade, mãe de um adolescente, esposa de um influente CEO com envolvimento político, que não exerce qualquer ofício que não seja o doméstico, inserida numa sociedade tão patriarcal e machista quanto seu casamento? 

Nesse ponto, Minotaur faz questão de destacar as diferenças sociais entre Galina e seu amante. O refúgio que ele oferece é um apartamento pequeno no subúrbio da cidade, num prédio decadente defronte a uma quadra barulhenta de práticas esportivas. Ali, ela encontrava amor, paixão, aquilo que lhe faltava no casamento. Mas até quando esse amálgama afetivo se sustentaria? Seria ela capaz de viver aquela vida permanentemente?

Gleb equaciona a perturbação maior de sua estabilidade. Como parte mais forte das relações, como topo da cadeia alimentar social, seu poder concentra-se na manutenção de privilégios – e para uma pessoa como ele, que sabe muito bem como fazê-lo, as chances de perder são mínimas. Zvyagintsev é frio, seco e impiedoso com seus personagens. O preto e branco das nuvens que dominam o céu nos minutos finais do filme nos socam de forma incômoda o estômago, funcionando como a materialização de um mundo emocionalmente esvaziado, onde qualquer possibilidade de liberdade é sufocada pelas estruturas de poder, pelas aparências e pela manutenção brutal de uma estabilidade que beneficia apenas quem já está no topo. 


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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