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Dia D (Disclosure Day, 2026)

O retorno de Steven Spielberg ao universo da ficção científica em Dia D (ou Disclosure Day) tem um gostinho de reencontro e, ao mesmo tempo, de renovação de um conjunto de ideias que marcaram seus principais filmes de extraterrestres. Em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e E.T. – O Extraterrestre (1982), o fascínio pela vida alienígena surgia como experiência de aventura e descoberta. Em Dia D, os ETs já conhecem a Terra há décadas, mas há bastante desencanto no mundo terreno, dominado por grandes corporações que escondem informações da população, por vigilância tecnológica e descrença nos meios de comunicação. Spielberg reposiciona o terreno das narrativas sobre alienígenas para uma ambientação contemporânea em que se perdeu a capacidade de expandir crenças e de comunicar emoções.

A meteorologista Margaret Fairchild (Emily Blunt) é a cidadã comum que irá mover boa parte da narrativa do Dia D. De forma bem parecida com Roy Neary (Richard Dreyfuss) em Contatos Imediatos do Terceiro Grau, ela é consumida pela força desconhecida alienígena que reorganiza toda a sua percepção da realidade. A diferença fundamental está na inversão de gênero promovida por Spielberg. Se antes era um homem que abandonava esposa e filhos após o contato extraterrestre, agora é uma mulher comum que irá deixar em segundo plano a relação com o namorado (Wyatt Russell), que mais atrapalha que ajuda. O outro lado da trama é Daniel Kellner (Josh O’Connor), especialista em segurança cibernética, que também teve experiência de contato com alienígenas na infância, mas é responsável por transportar as principais informações dos segredos escondidos pela corporação Wardex.

A relação entre Margaret e Daniel recupera elementos de E.T. – O Extraterrestre, em um dos momentos mais emocionantes de Dia D. Os dois personagens precisam revisitar uma lembrança de infância que havia sido reprimida, numa espécie de retorno às experiências de abdução que marcaram suas vidas. É um recurso tipicamente spielberguiano, que associa o extraordinário ao universo íntimo das memórias de infância. A diferença é que, em Dia D, essa redescoberta não recupera a inocência, mas elucida ser melhor encarar certos segredos ocultos e não escondê-los. 

O roteiro de David Koepp também busca deslocar o foco da conspiração. Em vez de apostar exclusivamente nos governantes de Estado como conspiradores, Spielberg elege como antagonista Noah Scanlon (Colin Firth), líder da corporação Wardex, que se apresenta como ONG, mas que opera segundo a lógica predatória das grandes empresas. Embora o governo esteja implicado nos acobertamentos, ele permanece quase sempre fora de cena. A crítica mira no ambiente corporativo que mantém um sofisticado aparato de vigilância, explora avanços tecnológicos e administra informações sensíveis longe do conhecimento da população. Nesse contexto, Hugo Wakefield (Colman Domingo), ex-integrante da Wardex e defensor da divulgação ufológica, surge como uma figura que remete diretamente ao Claude Lacombe, interpretado por François Truffaut, em Contatos Imediatos: alguém entre a investigação científica e a busca por uma verdade maior.

Outra personagem interessante é a namorada de Daniel, Jane Blankenship (Eve Hewson), uma ex-freira que guia a dimensão espiritual humana da narrativa. Em Dia D, Spielberg eleva a relação com a fé a um novo patamar. Jane duvida da possibilidade de que existam seres superiores à humanidade e reflete sobre o que isso significa para sua crença cristã. O filme evita respostas simplistas e propõe pelo menos duas reflexões raras dentro da indústria do cinema de entretenimento: extraterrestres não são malignos nem símbolo do estrangeiro invasor a ser destruído; e a descoberta de vida alienígena não destrói a fé, mas leva os humanos a se reinventarem e não se colocarem no centro de tudo. 

É claro que há o aspecto limitador do mundo ser interpretado como Estados Unidos, mas esse talvez seja o grande problema de qualquer filme que nasça dentro do aparato de um grande estúdio hollywoodiano (e a bandeira estadunidense insiste em aparecer!). Mas ao recuperar notícias profundamente enraizadas no imaginário ufológico (como o caso Roswell, objetos voadores interceptados por militares, rumores de operações secretas e até escândalos ligados ao governo Nixon), Spielberg constrói uma espécie de mosaico das grandes narrativas conspiratórias do século XX. O que diferencia Dia D de tantos outros filmes de grande orçamento sobre alienígenas é a sua postura moral diante dessas histórias. O resultado é um filme grandioso, emocionalmente envolvente e profundamente humano.

Jornalista, crítica, curadora e realizadora de cinema.

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