Entrevista | Dandara Ferreira e o percurso solitário de Anatomia do Caos
Cinco anos e quase quatro meses depois do início do isolamento social por conta da pandemia de Covid-19, as imagens das covas enfileiradas no cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus, seguem frescas na memória coletiva. Mostrar a crise do oxigênio na capital amazonense foi fundamental para a diretora Dandara Ferreira em seu documentário Anatomia do Caos, que estreia nesta quinta-feira (2) nos cinemas. No filme, imagens e sons de um trauma coletivo que culminou em mais de 600 mil mortes no Brasil surgem entre os bastidores de uma das CPIs de maior repercussão da história recente do país.
Esse processo, que Dandara define como um “percurso solitário”, foi vivido de forma intensa, enquanto ela realizava outros projetos. Ao mesmo tempo em que acompanhava a CPI da Covid-19, ela também dirigiu, em parceria com Lô Politi, Meu Nome é Gal (2021), a cinebiografia de Gal Costa estrelada por Sophie Charlotte. Além disso, mergulhou na vida e na obra de Odair José ao dirigir o documentário Eu Vou Tirar Você Deste Lugar, que foi exibido no ano passado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e ainda não tem data de estreia.
Para ela, trabalhar nesses projetos de forma simultânea foi lembrar constantemente da importância política da arte, principalmente porque Gal Costa e Odair José, cada um a seu modo, resistiram à censura e criaram obras marcadas pela provocação.
“A música, a arte e esses personagens me lembravam que, mesmo nos momentos mais difíceis da nossa história, existe uma enorme potência criativa e uma capacidade de resistência na cultura brasileira”, diz a realizadora, em entrevista ao Feito por Elas. Na conversa, Dandara também fala sobre a importância de colocar a crise do oxigênio em Manaus no centro de Anatomia do Caos e sobre o acesso aos bastidores da Comissão. “É impossível assistir àquelas imagens [do Amazonas] sem compreender que houve escolhas que levaram o país até ali”, sintetiza.

Leia a entrevista completa abaixo:
Camila Henriques: Os anos pós-golpe de 2016 tiveram vários documentários que registraram diferentes aspectos do governo Bolsonaro e da pandemia. Houve troca de ideias ou diálogo com outros realizadores que também estavam documentando esse período? De que forma você encontrou um caminho próprio para Anatomia do Caos dentro desse conjunto de filmes sobre a história recente do Brasil?
Dandara Ferreira: Durante o processo, eu não tive muita troca com outros realizadores que estavam filmando esse período. Na verdade, fiquei bastante imersa no próprio filme. Passei anos assistindo, revendo e organizando centenas de horas de material, tentando entender qual era a linguagem que aquela história pedia. Meu diálogo principal foi com o arquivo, com os personagens e com as perguntas que surgiam do próprio processo. Eu sabia que já existiam documentários importantes sobre o governo Bolsonaro e sobre a pandemia, então nunca fez sentido disputar o mesmo lugar. O que me interessava era encontrar um recorte que permitisse olhar para aquele momento de outra forma. A CPI da Covid me pareceu esse lugar porque ela concentra política, drama, investigação e performance. É quase um palco onde o Estado é obrigado a falar de si mesmo. A partir daí, o desafio deixou de ser apenas contar os acontecimentos e passou a ser entender como transformar aquele excesso de informação em experiência cinematográfica.
Anatomia do Caos nasceu menos preocupado em reconstruir cronologicamente a pandemia e mais interessado em revelar os mecanismos que produziram aquele desastre. Acho que foi esse percurso, muito solitário e muito guiado pelo próprio material, que acabou dando ao filme uma identidade própria.
Camila: Para mim, foi muito forte rever as imagens e ouvir os sons da pandemia em Manaus, por todo o medo que eu vivi naquela época. Todos os dias naquele início de 2021, a gente acordava com uma notícia de alguém conhecido que estava internado ou que tinha morrido e ainda tinha aquele sentimento de que o resto do Brasil não estava nem aí. Qual era a importância de partir dessa tragédia (completamente evitável) no Amazonas para contar essa história sobre a pandemia no Brasil?
Dandara: Manaus é, para mim, o ponto em que a pandemia deixa de ser apenas uma crise sanitária e se torna uma tragédia política. Ali, todas as contradições ficaram expostas: o colapso do sistema de saúde, a falta de oxigênio, o abandono da população e a insistência em um discurso negacionista mesmo diante da morte. Começar por Manaus era uma escolha narrativa, mas também ética. Aquele episódio sintetiza aquilo que o filme procura investigar: como decisões políticas têm consequências concretas sobre os corpos e sobre a vida das pessoas. Não era uma fatalidade. Era uma tragédia evitável. Acho que, além disso, Manaus rompe uma certa abstração dos números. Quando falamos em centenas de milhares de mortos, existe o risco de a dimensão humana desaparecer. Manaus devolve rosto, voz e silêncio a essa estatística.
É impossível assistir àquelas imagens sem compreender que houve escolhas que levaram o país até ali. O filme pergunta: se fomos capazes de assistir a tudo isso acontecer, como chegamos a esse ponto?

Camila: O filme trabalha com imagens que já fazem parte da memória coletiva brasileira recente, das covas em Manaus às declarações de Bolsonaro e aos depoimentos de figuras como Nise Yamaguchi e Eduardo Pazuello. Como foi o processo de pegar esse material tão conhecido e condensá-lo em uma narrativa cinematográfica junto com as imagens de bastidores da CPI? E como foi esse acesso aos senadores, principalmente ao Omar Aziz e ao Randolfe Rodrigues?*
Dandara: Todo mundo conhece essas imagens. Todos nós vimos os pronunciamentos de Bolsonaro, as coletivas, os depoimentos da CPI. Então a questão nunca foi mostrar algo novo, mas fazer com que essas imagens fossem vistas de outra maneira. No cinema, o sentido não está apenas na imagem isolada, mas na relação entre as imagens, no ritmo, na montagem, nos silêncios… Passei anos mergulhada nesse material tentando descobrir que conversa uma imagem podia estabelecer com outra. Muitas vezes, uma declaração que parecia apenas absurda ganha outro peso quando é colocada ao lado das consequências concretas que ela produziu. A montagem foi o lugar onde essas conexões apareceram. Esse filme foi um filme de montagem.

Os bastidores da CPI foram fundamentais porque eles deslocam o espectador do espetáculo televisionado para o espaço onde as decisões, as dúvidas e as estratégias aconteciam. Eles humanizam personagens que o público conhecia apenas pela transmissão oficial e revelam que a CPI também era feita de tensão, cansaço, impasses e responsabilidade.
O acesso aos senadores aconteceu porque eles compreenderam a importância de registrar aquele momento. O interesse era construir um documento cinematográfico sobre um dos períodos mais traumáticos da democracia brasileira. Acho que essa confiança foi essencial para que eles abrissem as portas e permitissem acompanhar momentos que normalmente permanecem invisíveis ao público.
Camila: Nesse período entre a CPI e o lançamento de Anatomia do Caos, você lançou Meu Nome É Gal e realizou o documentário sobre Odair José, que tive a oportunidade de assistir na Mostra do ano passado, em uma sessão muito especial acompanhada de um show dele. Como foi conciliar projetos tão diferentes entre si e seguir nesse tema tão pesado quanto a pandemia de Covid-19?
Dandara: Do ponto de vista pessoal, não foi simples. Anatomia do Caos é um filme que exige um mergulho operacional muito intenso. Passei anos convivendo diariamente com imagens de sofrimento, de perda e de violência política. Em muitos momentos, trabalhar em Meu Nome É Gal e no documentário sobre Odair José foi também uma forma de respirar. A música, a arte e esses personagens me lembravam que, mesmo nos momentos mais difíceis da nossa história, existe uma enorme potência criativa e uma capacidade de resistência na cultura brasileira. Ao mesmo tempo, eu nunca consegui abandonar Anatomia do Caos. Era um filme que me acompanhava o tempo todo, porque eu sentia que aquela história ainda precisava ser contada. Acho que, de certa forma, esses projetos se alimentaram mutuamente. Eles olham para o Brasil por ângulos diferentes, mas todos tentam entender as forças que moldam a nossa sociedade.
Para mim, existe um fio que conecta todos eles. Sempre me interessam personagens e acontecimentos que ajudam a compreender o Brasil. Gal Costa, Odair José e a própria CPI da Covid, cada um à sua maneira, falam de disputas de narrativa, de liberdade, de memória e da relação entre cultura e política. Talvez o tema mude, mas a pergunta de fundo continua sendo a mesma: o que essas histórias revelam sobre quem nós somos como país?


