Pérolas no Mar (Us and Them / Hou lai de wo men, 2018)
Publicado originalmente em 25/06 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.
Xiaoxiao (Dongyu Zhou) está em Pequim para trabalhar, em tarefas provavelmente pouco remuneradas em lojinhas e quiosques. Ela não tem recursos para continuar os estudos e nutre uma verdadeira obsessão por uma futura vida estruturada, imaginando a possibilidade de uma casa própria confortável e como conseguiria obtê-la. Jianqing (Boran Jing) é um estudante universitário, que trabalha com computação e programa jogos e cujo pai, já idoso, tem um restaurante no interior. Ambos são oriundos da mesma pequena cidade e no ano novo chinês de 2007 os dois se conhecem no trem viajando para lá. Esse é o pontapé inicial de Pérolas no Mar (Us and Them / Hou lai de wo men, 2018), dirigido por Rene Liu, filme que fez imenso sucesso na China e foi adquirido pela Netflix para sua distribuição internacional.
Na narrativa, o passado é lúdico, e até as cores são estilizadas, com Xiaoxiao utilizando roupas vermelhas e Jianqing roupas azuis. Mas de fato a amizade imediata que se estabelece no trem, se converte em acolhida, uma vez que o lugar de origem de Xiaoxiao não tem nada para ela. O jantar de ano novo preparado pelo pai de Jianqing (Zhuangzhuang Tian) é farto e festivo e ele logo passa a acolher Xiaoxiao como parte da casa.
De volta a Pequim, as rotinas dos dois jovens é diferente, mas eles não perdem contato e a amizade se estreita. Xiaoxiao termina um relacionamento e, sem ter para onde ir, se aloja no quarto de Jianqing. O amor surge. Os atores são extremamente carismáticos e a direção de arte constrói um mundo palpável, onde conseguimos sentir os ambientes pequenos, os corredores estreitos, os móveis de segunda mão, o aroma da comida. É um filme muito sensorial. Eles não têm espaço para viver, sequer têm uma janela, vendem softwares piratas, correm do rapa, sentem a pressão de tentar fazer acontecer e não serem engolidos na cidade grande. Cada ano novo é um atestado do tempo que passou e mais uma vez não deu certo.
Toda essa primeira parte dos eventos é, na verdade, narrada em flashback. Tudo é muito vívido em detalhes. Isso porque, anos depois, ambos ficam presos em uma nevasca novamente no feriado de ano novo e cada um deseja chegar ao se destino final, que a princípio não é revelado. A fotografia é em preto e branco, detalhe importante: no passado eles haviam dito que no jogo que Jianqing estava fazendo, se o menino não encontrasse a menina o mundo nunca teria cor.
Nesse reencontro, o passado e a juventude vêm a tona, não sem melancolia, saudosismo, revisão dos erros, rememoração do que foi bonito e um gosto agridoce de todos os “e se”. A falta de compreensão, de diálogo, o companheirismo, os pequenos detalhes, tudo reemerge, tecido com beleza em um relacionamento construído ficcionalmente com uma carga emocional densa. É difícil não comparar esse filme com Vidas Passadas (Past Lives, 2023), de Celine Song, pela temática e desenvolvimento da trama, mas esse é anterior, apesar de ter tido um público ocidental muito mais tímido (tem apenas 68 mil logs no letterboxd, por exemplo, contra 2,1 milhões do outro). De qualquer forma ambos oferecem reflexões sensíveis e uma visão posterior de um relacionamento e suas possibilidades.
Xiaoxiao desejava mais do que estabilidade financeira e uma casa: ela queria um lar. E talvez quem mais entendeu isso foi o pai de Jianqing, que a cada mudança de ano via a própria casa se esvaziar. O calendário é inexorável e um bolinho de feijão pode ser uma forma de amor. Pérolas no Mar abraça o melodrama e o faz com delicadeza em um romance emocionante.
Pérolas no Mar está disponíveis em streaming na Netflix.


