Fúria (Furious, 2026)
Publicado originalmente em 09/07 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.
Alguns homens ricos e poderosos são encontrados mortos como se houvessem tido uma overdose. Nenhum deles tem antecedente de abuso de drogas. Entra em cena a detetive Alice Black, interpretada por Emmy Rossum. Ela percebe que os casos são relacionados e que as overdoses são provocadas, e não acidentais. Alice é uma ex-policial que deixou o serviço e o trocou pelo FBI, onde exerce atividades menores, como atender telefone, e raramente lida como crimes reais. Mas foi chamada para esse caso emprestada, porque foi solicitada por um ex-colega policial, Henry (Scoot McNairy).
Essa é a premissa de Fúria (Furious, 2026), seriado criado e escrito por Elizabeth Meriwether, que também já foi showrunner de The Dropout e Dying for Sex. Talvez a maior qualidade da roteirista esteja em construir personagens mulheres complexas e interessantes, e, nesse caso, com um mundo de turbulências políticas em torno delas. Porque assim que Alice se dá conta que as mortes não são acidentais, ela percebe que se trata de um caso de serial killer. E logo percebe que quem ela procura é uma serial killer. Uma jovem mulher que gravita em torno desses homens, mas consegue manter sua identidade anônima e seu rosto incógnito.
A trama é livremente inspirada no filme O Mistério da Viúva Negra (Black Widow, 1987), com Debra Winger, em que uma investigadora vai atrás de uma assassina que mata seus maridos para ficar com a herança. Mas Fúria não é um seriado interessado em contar uma história sobre ganância. Como o título indica, a narrativa explora múltiplas camadas da raiva feminina. Alice largou a polícia porque seu companheiro, também policial, a espancava (isso não é spoiler, é parte da premissa). Sua chefa, interpretada por Quincy Tyler Bernstine, também lida com diversas limitações e outros homens da hierarquia. E a própria assassina, Catherine (Lola Petticrew) tem suas motivações originais que a levaram aos crimes (que eu vou deixar cada pessoa descobrir). E aí vem o questionamento: existem violências que justificam a vingança, se a lei não dá conta de alcançar esses homens?
A vida sexual de Alice recai naquela construção estereotipada da busca da violência para arrefecer como saída para um trauma passado. Mas ao mesmo tempo é uma construção complexa, pois demonstra a personagem tentando ter controlar as ações sobre si, quando antes não tinha. É um retrato de uma mulher tomando as rédeas de seu corpo para si, recusando o lugar de vítima e clamando prazer, mesmo que possa parecer confuso.
De certa forma existe um certo espelhamento entre as duas protagonistas e seu jogo de gata e rata. Nós sabemos desde o primeiro episódio que é uma mulher a assassina e qual sua identidade, então isso não é uma grande revelação: descobrir ela não é parte do mistério. Entender o duplo entre a trajetória de Alice e Catherine é que torna a trama tão interessante: duas mulheres profundamente marcadas por violência misógina. Uma escolheu o caminho da lei, enquanto uma escolheu a vingança pelo crime. Mas ambas sabem que nem sempre nenhum dos caminhos é completamente eficiente. Cada vez que elas se encontram, estão mais próximas e a narrativa fica mais intrigante.
Trata-se de uma série povoada com personagens intrincadas e nem sempre gostáveis. Os temas sociais e sombrios e o teor investigativo a aproximam de um nordic noir. muito mais do que de um procedural estadunidense convencional. O desfecho moraliza, mas ao mesmo tempo apazigua as protagonistas. Lida-se bem com as emoções as possibilidades de soluções. Fúria é um belo estudo de personagem sobre as violências cotidianas e aquelas não tão ordinárias assim.
Fúria (Furious) foi assistido em screener e estreia na Disney+ em 27/07.



2 Comentários
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