Pequenas Criaturas (2025)
Brasília, uma cidade de possibilidades, 1986. Helena, interpretada por Carolina Dieckmmann, leva o marido ao aeroporto. A despedida é tensa, ela ajeita a franja sobre um hematoma na testa. Ele vai embora. Um louva-deus no para-brisa dialoga com o título do filme: Pequenas Criaturas , escrito e dirigido por Anne Pinheiro Guimarães, traz vez por outra o foco em diminutos seres como paralelo para os pequenos seres humanos que retrata. Helena está perdida, fumando um cigarro atrás do outro, em uma cidade em que acabou de chegar, uma cidade também nova, não só nova para ela. Uma cidade em que não escolheu viver. Quem escolheu foi seu marido, esse, que, agora, recém chegados, foi embora.
Mas ela não está só e não pode se dar ao luxo de afundar completamente. O filho adolescente André (Théo Medon) e o pequeno Dudu (Lorenzo Mello) ainda precisam de alguma estrutura, embora, sendo férias escolares, estejam, também, prontos para explorar o mundo fora da nova casa. Essa ainda está em processo para se tornar um lar, em meio ao caos das caixas da mudança. O calor, a sensação de marasmo, as primeiras paqueras, as amizades e o senso de alienação constroem dois filmes de crescimento em paralelo. André, com suas primeiras descobertas de adolescência, incluindo uma maior independência, o bullying do grupo de garotos locais, um primeiro amor, conversas sobre superpoderes, bebida e cigarro. Já Dudu vive uma experiência lúdica de ficção científica, sonhando com o palito de picolé premiado, trajado com uma máscara de Planeta dos Macacos, sonhando encontrar com alienígenas. Mesmo quando uma possível ameaça muito real e muito alardeada nos anos 80 e 90 ronda o menino, ela se dissipa de forma simpática. E ai vale destacar a graça da atuação de Lorenzo Mello, que conduz o personagem com imenso carisma.
Por outro lado, o drama da mãe deprimida e que, a princípio, não tem com quem compartilhar sua solidão naquela cidade inóspita, corre como uma história paralela. O marido ausente é quase uma presença. O foco na aliança quando ela liga para seu hotel grita o peso de um relacionamento que se transmite na melancolia do olhar na atuação da atriz. A vizinha, Angela (Letícia Sabatella), parece estar em outro tom: mais vívida, já aprendeu os meandros daquele lugar, talvez.
Não faltam metáforas para ilustrar o desânimo de Helena. Primeiro há Cacau, outra das pequenas criaturas, uma cachorra que ela atropela, leva para casa e… fica torcendo para que se recupere? Quando ela recolhe a bichinha e dirige em direção ao prédio em que mora eu pensei: ela vai deixar os meninos em casa e depois vai levar a cachorra ao veterinário sozinha. Mas não. Ela sobe com a cachorra, a coloca numa caixa de papelão e daí para frente não faz mais nada. Não existia atendimento veterinário em Brasília em 1986? Cacau é um dispositivo narrativo barato, sacrificada para fins de drama, em uma quebra de lógica absurda.
Outra metáfora, essa mais interessante, é o fato do carro ser também uma Brasília. Esse veículo é o que lhe concede liberdade na cidade e algumas vezes é registrada de cima, fazendo as curvas na cidade sem esquina. E esse veículo que apropriadamente enguiça em uma volta para casa. O que liberta, mas também atrapalha. Mas é essa pane que a permite conhecer Carlos (Caco Ciocler), um bonitão de conversível vermelho que interrompe seu caminho para consertar o carro, depois admitindo que não entende nada de mecânica e também está só visitando a cidade. Não é perfeito? A isso se segue uma série de encontros divertidos e sem maiores consequências, que servem para tirá-la desse lugar de tristeza. “Tudo que é muito muito bonito é um pouco triste também”, ele fala sobre Brasília, mas poderia ser sobre ela, em mais uma metáfora. Até o chaveiro do carro do carro é um inseto, como a mosca da estufa dos salgados e mesmo o desenho de som trabalha frequentemente o barulho de cigarras, amarrando o tema. É preciso dizer que a reconstrução de época é um trabalho de primoroso e facilmente se mergulha no mundo retratado pelo trabalho de direção de arte e cenografia de Claudia Andrade e de figurino de Cristina Kangussu.
Existe muita melancolia na(s) história(s) do filme, mas existe muita ternura também. Talvez o maior problema seja querer abarcar demais. Alguns simbolismos se excedem e entre todos os protagonistas, mãe e filhos, não se sabe exatamente se o tom é o drama do fim próximo de um casamento ou uma história de crescimento divertida ou os primeiros passos de um adolescente para sua descoberta da vida. A mistura por vezes é confusa. Helena talvez seja quem menos importa nesse caldeira, mérito, do carisma dos pequenos. E ainda assim, ela consegue se encontrar no meio do caos. Por sorte, a narrativa é cheia de pequenos momentos de beleza ímpar que se sucedem e de alguma funciona. O final é particularmente poético, porque é o cinema que consolida a comunidade inesperada, garantindo que dali para frente aquela cidade, apesar de tudo, vai ser um lar. Pequenas Criaturas é o retrato de uma mulher que está tentando, de dois meninos que estão descobrindo o mundo, mas acima de tudo de encontros que tornam tudo isso bonito.


