Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

A Noite de Alaíde (2026), de Liliane Mutti

Me permitam inverter a ordem das coisas e começar este texto sobre A Noite de Alaíde, de Liliane Mutti, pelo final do filme. O documentário termina em uma reparação histórica, 60 anos depois, com a chegada de Alaíde Costa a Nova York para um show no Carnegie Hall, palco que lhe foi negado no auge da ascensão da Bossa Nova nos Estados Unidos. Até que seu nome fosse destacado em um telão na Times Square como o de uma das mães do movimento do amor, do sorriso e da flor, o caminho foi longo. É por essa estrada tortuosa que Mutti nos conduz, tendo como farol a voz de Alaíde, que canta e conta a própria história. 

Caminhos longos fazem parte da trajetória da cantora, como mostra o filme. Ficar de fora da viagem da turma da Bossa Nova para Nova York e, consequentemente, do histórico show no Carnegie Hall, em 1962, apenas escancarava uma exclusão recorrente. O documentário não esconde a forma como o pacto da branquitude falou mais alto do que o talento da única mulher negra daquele grupo. 

A diferença de classes é um ponto que anda lado a lado com as discussões sobre racismo que o filme de Liliane Mutti traz, especialmente nas lembranças dos encontros no apartamento de Nara Leão. Em narração em off, Alaíde recorda o esforço que fazia para chegar à Gávea, em um relato que confirma que ela jamais foi realmente reconhecida como parte daquela turma. Enquanto Elis gravava disco com Tom Jobim (o mesmo Tom que viajou para Nova York como parte do grupo que excluiu Alaíde) e Nara conferia “credibilidade” aos popularescos Roberto e Erasmo, Alaíde estava longe dos estúdios não por vontade própria. Em paralelo, vemos os laços que ela criou com artistas negros como Johnny Alf, Grande Otelo, Moacir Santos e Milton Nascimento (este último, responsável por ajudá-la a quebrar um hiato de seis anos sem gravar). 

Mutti reconta os passos de Alaíde, da casa de cerca de arame da infância à carreira que construiu à revelia de um mundo que não lhe dava o mesmo reconhecimento que os de outras cantoras do dito cânone da MPB. Em um movimento acertado do filme, a narração em off da artista é marcada pela espontaneidade dos relatos sobre as diferentes fases de sua vida. A Noite de Alaíde anda entre imagens de arquivo e uma animação que mostra a infância, a juventude e o que acontecia atrás da coxia na vida adulta da artista.

Mutti deixa que a riqueza artística de Alaíde conduza o próprio documentário. Quando a jovem, enfim, se descobre como cantora, a diretora também promove uma mudança na construção das imagens. À medida que a era do rádio cede espaço à televisão, as animações dão lugar com mais frequência às imagens de arquivo, e isso permite que a presença de Alaíde ocupe o centro da narrativa, como se o filme a apresentasse a um público que talvez não tenha a dimensão de seu talento. Me chamou muito a atenção que alguns desses momentos que o documentário recupera venham de participações da artista em programas de Clodovil, que, a despeito de ter sido da Globo nos anos 1980, não é um nome lembrado de primeira quando se fala na história da TV no Brasil. Há algo simbólico no momento em que, no palco do programa do apresentador e estilista, Alaíde faz sua primeira apresentação ao piano na televisão.

O “A Noite” do título pode se referir à descoberta artística da jovem Alaíde Costa com os versos cantados por Silvio Caldas em “Noturno”, mas é, também, uma devolução do protagonismo a quem ficou de lado (e, muitas vezes, fora mesmo) da história que é contada sobre a Bossa Nova. A noite que ela tinha direito, com os holofotes de artista principal, enfim, chegou.

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *