[50ª Mostra de São Paulo] I Love Boosters (2026)
Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.
Corvette (Keke Palmer) e suas amigas Sade (Naomi Ackie) e Mariah (Taylour Paige) são booster, pessoas que roubam roupas de lojas de departamento para revendê-las depois. Mas ela tem um sonho em especial: tornar-se estilista. Isso enquanto mora em uma lanchonete de frango frito abandonada e sente uma enorme solidão, mesmo quando conversa com as amigas. Sua ídola é a internacionalmente famosa designer de moda Christie Smith (Demi Moore), de quem já leu a biografia duas vezes e que só lança coleções cápsula monocromáticas.
O diretor e roteirista Boots Riley acerta o tom, mais uma vez repleto de humor, nesse filme que procede seu sucesso de estreia Desculpe te Incomodar (Sorry to Bother You, 2018). E novamente utiliza do sarcasmo e da ironia para tecer comentários certeiros sobre as relações trabalhistas nos mercado global de hoje. Porque o que começa com nossas heroínas (?) tentando sobreviver no dia a dia por meio de roubo de lojas, logo vira algo bem maior.
Primeiro porque para terem acesso ao estoque, elas se infiltram como funcionárias de Smith. E assim descobrem as péssimas condições de trabalho do varejo, em que até as roupas usadas pelas vendedoras são descontadas de seu salário. Mas aí encontram uma booster ainda mais competente, Jianhu (Poppy Liu), munida de um artefato que suga todo o conteúdo da loja em segundos. Trata-se de uma obra mescla gêneros de um jeito afoito e divertido, virando ficção científica em um piscar de olhos. O aparelho tem diversas funções de alteração de propriedade da matéria, mas a de transporte de um lado ao outro, incluindo de pessoas, claramente foi inspirada no jogo Portal, aparecendo com o mesmo tipo de mecânica.
Jianhu, revela que veio por esse portal diretamente de uma fábrica chinesa que produz as roupas da marca de Christie Smith, em condições precarizadas, e que os trabalhadores, incluindo sua mãe, estão adoecendo devido não só às horas excessivas, mas aos produtos químicos utilizados. A partir daí o grupo inicial resolve que roubar as lojas não é o suficiente, mas se unem à recém chegada para criar estratégias a favor das pessoas trabalhadoras, tanto no varejo nos Estados Unidos quanto nas facções na China.
Em meio a isso, LaKeith Stanfield retoma a parceria com o diretor, dessa vez interpretando um demônio com olhar sedutor que suga a alma de pessoas de todos os gêneros por meio do sexo oral. Há ainda um esquema de pirâmide e um sistema mundial de manipulação política visando alienar as pessoas de seus direitos e ampliar a vigilância policial. Tudo extremamente condizente com o tom caótico do resto do filme. De fato o talento do elenco é um dos pontos altos, mas o figurino de Shirley Kurata, bem como todo o trabalho do departamento de maquiagem são um espetáculo à parte. O time usa batom azul, preto, cintilante. Perucas longas, afro, coloridas. As roupas passam por diversos estilos, dos anos 60, kawaii, midsommar ao funcional cinza. É uma explosão de referências, sem contar as coleções monocromáticas de Smith.
E afinal, a solidão de Corvette se resolve com organização: ao se unir a outras pessoas por demandas e direitos que não só seus, passou a se sentir acolhida e pertencente. Com um humor puxado para o estranho e o bizarro e carregado de estilo, I Love Booster consegue falar sobre greve e direitos trabalhistas, precarização de trabalho em um mundo de economia global alimentando o mercado de luxo da moda. Boots Riley faz um filme atual sem, misturando um caldeirão de referências, falando sobre temas sempre sérios, mas sem jamais nos deixar de fazer rir do absurdo.


