Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

[50ª Mostra de São Paulo] Iron Boy (Le Corset, 2026)

Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.


Christophe é um menininho criado em uma fazenda que misteriosamente está sempre se desequilibrando e caindo para o lado. O fato irrita seu pai, um fazendeiro meio turrão. Quando investigam o causa, os médicos determinam a necessidade do uso de um colete ortopédico para corrigir sua postura. O problema é que além de dificultar sua mobilidade e ser vexatório, a peça precisa ser utilizada 24h por dia e, segundo eles, por alguns anos, entre o final dos 80 e o início dos anos 90. Christophe não poderia ficar mais arrasado. Esse é apenas um dos dramas iniciais, que justifica o título do filme Iron Boy, dirigido por Louis Clichy e escrito por ele em parceria com Franck Salomé, uma vez que o menino vai passar a viver com o tronco em uma gaiola de metal.

Mas esse é o pano de fundo para suas ações e seu crescimento, afinal, como antecipado, serão anos, sendo um garoto de aço. Como tal, ele gostaria de ajudar na fazenda, mas vai ter que lidar com o pai, que não confia totalmente nas suas capacidades. Ao mesmo tempo, o próprio filme pincela a precarização dos trabalhadores rurais, recebendo sementes que desconhecem, tendo que investir em equipamentos novos, lidando com uma produção que ano a ano é aquém daquela exigida pelos compradores e sendo expulsos do ofício de seus pais e avós.

Quando o trabalho e o sustento é a preocupação primordial, é difícil ter espaço para o lúdico e o artístico. E ainda assim, Christophe deseja, dentre todas as coisas, aprender a tocar órgão. Com ajuda do organista da igreja local se dedica aos seus primeiros mergulhos no musicais, apesar das dificuldades impostas pelo colete, permitindo, também, permear a narrativa com musicalidade. E tem tempo até para treinar natação para melhorar a postura e encontrar um primeiro amor em meio a tudo isso.

O traço do filme, com contornos grossos, pretos e irregulares e preenchimentos aquarelados suaves, resulta em uma animação caprichosa e elegante. Não à toa ele levou os prêmios do júri e do público no Festival de Annecy, tradicional festival dedicado a animações, e também Prêmio Especial do Júri da seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes.

Trata-se de uma história de crescimento com um olhar doce e afetuoso, mas que também não deixa de refletir sobre as questões agrárias da França, interrogando onde é o lugar do agricultor no modo de produção atual, e qual é o futuro que cabe aos seus filhos. Em meio a isso tudo, como sonhar fazer arte, com a ingenuidade de criança? Iron Boy é um filme cativante que, com um traço bonito consegue contar uma história sensível para um público de qualquer idade.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *