Antártida congela o clima na abertura do festival [Gramado 2026]
Este texto faz parte da cobertura do 54º Festival de Cinema de Gramado que acontece entre os dias 14 e 23 de agosto de 2026
I. O primeiro filme exibido em Gramado, propôs uma abordagem sobre as diversas violências cometidas contra mulheres. Sendo ambientado em um espaço majoritariamente masculino, de tensão latente, devido aos meses de isolamento, acompanhamos o cotidiano de militares que trabalham como tripulantes de uma base/laboratório, localizado na Antártida.
II. A história consiste em seguir a chegada de Inês (Marina Ruy Barbosa), uma cientista recém formada, na missão de monitoramento das mudanças climáticas. Em meio ao preparo para um lockdown, a mulher é encontrada desacordada do lado de fora da base, em meio a neve. Ao ser levada para a enfermaria, descobre-se que ela foi vítima de um estupro. A partir disso, o filme se transforma em uma caçada pelo abusador, mas também em uma salada de assuntos apresentados de maneira superficial. Ao fim o que se ofereceu ao público foi um produto insosso, amargo, embrulhado em uma embalagem bela e tecnológica. Se esse filme fosse um picolé, seu sabor seria de chuchu com jiló, sem tempero.
III. A violência sofrida por Inês passa a ser investigada pelas demais mulheres que estão na estação, sendo a líder delas a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão). Além delas, outras duas mulheres compõem o time de militares: Marina (Leandra Leal) e Rose (Marina Sena). Trago neste primeiro momento o olhar para Marina, afinal esta foi a personagem que mais me chamou a atenção desde o início. A interpretação potente de Leandra Leal – que já vimos em outros filmes como “O Lobo Atrás da Porta” e “Os Enforcados”, nos momentos em que ela precisa mostrar alguém à beira de uma crise emocional – não sustentou o desenvolvimento oferecido à sua personagem. Marina, além de ser uma mulher ocupando um cargo de prestígio na base – ela é médica –, ainda é vítima de violências físicas imputadas por seu ex-marido, o capitão Vicente (Lázaro Ramos). Porém, assim como, Elisabeth (agredida por sua posição de comando, bem como por sua idade) ou Rose (apagada ao precisar se assemelhar aos homens como uma camuflagem em busca de proteção), alcançamos essa consciência por meio de inferências, mas não por ver isso ser desenvolvido na tela.

IV. Se o objetivo era falar de uma boa parte das violências sofridas por mulheres, a ideia não pode ser transmitida de uma maneira efetiva, pois o filme peca pelo excesso de diálogos expositivos. Da mesma forma, não desenvolver bem suas personagens provoca em quem assiste a produção, pouca ou nenhuma empatia, ao ponto de não importarmos com elas o bastante, seja por amor, pena, revolta ou ódio. Se a proposta do cinema é criar obras audiovisuais (áudio + visual), qual o motivo de não usar tais recursos para transmitir sua mensagem? A única resposta que tenho é a de que ainda há filmes que buscam se sustentar apenas em sua sinopse ou na explicação da produção sobre o que se pretendeu fazer ao subir no palco para apresentar seu produto.
V. Caro leitor, entenda que tanto acima, quanto abaixo eu falo e falarei sobre violências contra mulheres e não cito apenas a violência sexual/física, mas também a emocional, a verbal e demais violências. O filme aponta algumas delas, por exemplo, quando Inês chega à base e é descredibilizada profissionalmente e intelectualmente por ser jovem (e mulher), ou quando surgem tensões entre Elisabeth e os homens subalternos a ela. Ou até mesmo, quando Vicente justifica sua “preocupação” com a saúde emocional de Mariana pelo fato da ex-esposa ter passado pelo processo de depressão pós parto, a posicionando em um lugar de loucura e fragilidade constante.
VI. Vemos nesse filme algo recorrente em produções de Hollywood, um elenco estelar que não sustenta, sequer fortalece, um filme que não sabe para onde ir. Ou sabe e escolhe caminhos equivocados. Um filme que em seus créditos finais aponta revisão sensível do roteiro e que na coletiva cita um clássico do cinema Sci-Fi protagonizado por uma mulher potente (“Alien – O Oitavo Passageiro”) carecia de maior lapidação em seu roteiro, assim como de consultoria sobre a construção de personagens negras para o cinema.

VII. Adivinha o que acontece com as três personagens negras? O mesmo tipo de violência representativa que o cinema cansou de cometer outras vezes com outras personagens negras: os homens sempre postos na posição de criaturas violentas e predadoras e, a única mulher completamente apagada. Uma lida rápida em “Horror Noire”, livro da pesquisadora estadunidense Robin R. Means Coleman resolveria boa parte dessas questões. Por exemplo, no livro, Coleman aponta que
[…] Hollywood não conseguia imaginar cientistas negros em laboratórios onde bombas e produtos químicos eram criados e experimentos davam errado, não era possível ter negros lidando com esses temas. (p. 232-233)
“Antártida” não faz isso completamente, pois temos um corpo de negro militares e cientistas, entretanto, no caso específico de Rose, não vemos suas habilidades profissionais, sua camuflagem se masculinizando, como meio de proteção a torna invísivel não apenas para a lógica narrativa, mas para que assiste ao filme. À Rose é oferecido um mínimo de destaque apenas no momento em que pode aparecer sem ofuscar a alva e etérea mocinha em perigo, ou seja, ela se torna a melhor amiga negra, uma fiel escudeira temporária.
VIII. E por falar em etéreo, Inês é posta em posições arquetípicas que parecem tentar ser subvertidos, entretanto não são. Tais características, apenas reforçam estereótipos atribuídos a mulheres, sendo eles: (a) a puta/ mulher desviante, que seduz os homens ao seu redor, e ao meu ver essa falha, pois ao tentar trazer a discussão de que mulheres não podem ser atacadas sexualmente por sua forma de vestir ou se comportar, fez com que pessoas do público e da crítica – sim, eu estive de olhos e ouvidos atentos – se perguntassem que mulher em sã consciência tomaria um porre no primeiro dia de moradia em um lugar novo, habitado por homens desconhecidos. Não há de se culpabilizar uma vítima por seu comportamento. Um corpo não deve ser invadido por segundos ou terceiros. Mas, acho ofensivo abordar um assunto tão sério por meio da construção de uma personagem que se comporta de maneira inocente, tola e insolente. Isso nos leva à característica (b), o arquétipo da santa/virgem ou da mãe sacrificada. Esse analiso em duas personagens. Enquanto Inês é virginal, pura, loira, branca, delicada – ao ponto de Ruy Barbosa ser coberta por uma maquiagem que a empalidece, quase sumindo no fundo de neve digital/efeito prático –, Elisabeth em certo momento passa por uma reviravolta digna de Sandra Bullock, em “Gravidade”, e do nada se torna uma mãe em luto, que passa seus dias na base isolada por não conseguir lidar com o luto.
IX. Sobre a montagem, o início parece em certos momentos corte de teaser ou de um previously in ~adicione aqui o nome de qualquer série de TV~, lançando na tela sequências cortadas bruscamente e ordenadas na tentativa de construir um ritmo intenso, porém chegando apenas a sensação de incompletude.

X. Tocando novamente no ponto de incômodo com as personagens masculinas negras, ainda sigo pensando em como os suspeitos do filme são abordados. Me perdoem por mais uma vez usar a palavra tentativa, mas é o que mais aconteceu nessa situação. Na tentativa de provocar suspeita em todos os homens residentes da base, o roteiro e direção, tratam todos eles em vários momentos como predadores à espreita de sua presa. Trago novamente a Dra. Coleman, em citação e, em seguida contextualizo:
Ao apresentar Gus, assim como outros homens negros, como malévolos, “Nascimento” [de Uma Nação] tem a dúbia distinção de introduzir o desprezível “macho brutal” no cinema. O macho brutal é um desprezível homem negro, ainda mais perigoso por seu foco implacável na maldade. Não é possível ser racional com ele, pois ele é irracional. O personagem é tão primitivo e básico que só pode ser visto como animalesco. Donald Bogle traz uma famosa discussão sobre o dano que Griffith causou ao apresentar os homens negros como machos brutais: “Crioulos sempre enormes e malvadões, supersexuais e selvagens, violentos e loucos ao sonharem com carne branca. Nenhum pecado é grande demais para o homem negro. (p.104)
A personagem de Adélio Lima, sempre é mostrada como alguém que dirige o olhar para Inês de maneira bestial, animalesca. A personagem de Lázaro ainda recebe uma pequena complexidade em sua personalidade ao ser o ex-esposo tóxico, o suspeito desejoso da jovem loira, bem como um homem negro consciente de que a corda sempre rompe para o lado mais fraco. Entretanto, isso não exime o papel criado para esse atores da responsabilidade de, mais uma vez, reforçar um imaginário violento, que data desde o nascimento do cinema nos Estados Unidos.
XI. Não existe problema em criar personagens vis que sejam representados por atores e/ou atrizes negros. O que deve ser observado é o quanto um imaginário imagético arraigado provoca uma primeira impressão que deve ser alterada por meio de recursos como a elaboração de personagens complexos e multifacetados, o uso de cores que não denotam caráter de perigo ou certo nivelamento das facetas boas e más de todos os que estão inseridos na história que está sendo contada. Ainda mais quando se trata de cinema de gênero, uma potente ferramenta para a discussão de assuntos espinhosos por meio de metáforas, analogias, fabulações, mistérios inexplicáveis.

XII. Em suma, os problemas estão todos concentrados em um roteiro panfletário, feminista super branco e liberal, que só tem coragem de tocar em pautas de violências contra mulheres ou de maneira rasa, ou de maneira sensacionalista. No fim, a produção incomoda mais por ser didático demais e emular muitos clichês do cinema de suspense estrangeiro. “Antártida” pode se vender como um filme que aposta na sororidade, mas no fim é excludente.
XIII. Devemos, ao assistir ao filme, roteirizar filmes e realizar filmes, retomar questionamentos como o de Grada Kilomba, artista que apontou em entrevista para a Revista Cult, em 2016, como o feminismo mainstream falhou e falha com pessoas não-brancas, ao dizer que
“Isso [a abrangência do feminismo] é muito mais complexo. Nós temos que trabalhar com muitas outras categorias e interdisciplinarizar, porque o homem negro não tem acesso ao poder, e a mulher branca pode ser a minha opressora.”
ou seja, formar alianças mais complexas do que as que o feminismo convencional formou, complexificar nosso olhar, criar espaços de escuta para aprender sobre o que não nos tange, enfim, assumir suas vantagens diante do pacto da branquitude.
Um comentário
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