Cinema

[Gramado 2026] Tecendo histórias com palavras 

Este texto faz parte da cobertura do 54º Festival de Cinema de Gramado que acontece entre os dias 14 e 23 de agosto de 2026

As produções exibidas nos três dias de festival que serão abrangidos nas seguintes notas, são costuradas pelo uso das palavras. Enquanto “Pele de Rinoceronte” se fundamenta na cobertura jornalística e na retórica jurídica, “Chorão: Só os Loucos Sabem”, se inspira nos relatos de Graziella Gonçalves sobre sua história de amor com o vocalista do Charlie Brown Jr. O mais diferente de todos os exibidos na Competitiva de Longas Nacionais é “Leite em Pó”, também é entrecortado por palavras, seja por meio das conversas entre as personagens ou dos relatos em um diário, que servem de gatilho para o desenvolvimento da narrativa. 

Pele de Rinoceronte

I

Inspirado no assassinato de Ângela Diniz, “Pele de Rinoceronte” costura com palavras a história de três mulheres que são atravessadas pela violência de gênero. Enquanto uma jornalista (Débora Falabella) investiga o assassinato de uma mulher (Camila Lucíola), uma advogada (Naruna Costa) prepara a tese de acusação contra o homicida.

II

O nome do filme faz uma associação a resistência da pele do mamífero com a luta das mulheres contra o patriarcado. Entretanto, durante a coletiva de imprensa, o diretor (Marcello Ludwig Maia) contou que durante a produção de “Febre do Rato”, um dia, caminhando na rua ao lado de Júlio Bressane, o cineasta começou a recitar a poesia “As Cismas do Destino”, de Augusto dos Anjos. Em um certo trecho, o Augusto escreveu, 

[…] Lembro-me bem. 
A ponte era comprida, 
E a minha sombra enorme enchia a ponte, 
Como uma pele de rinoceronte 
Estendida por toda a minha vida![…]

Foi naquele momento que Ludwig Maia bradou ao amigo que precisava realizar um filme com o título “Pele de Rinoceronte”.

III

Em contraponto ao filme de abertura, “Antártida”, a produção dirigida por Marcello e roteirizada por Josefina Trotta, possui personagens femininas mais bem desenvolvidas. Porém, de maneira semelhante a “Antártida”, o filme também se excede em diálogos didáticos e violências contra os corpos femininos em cena. Ambas produções entendem a importância de discutir o alto índice de feminicídios, bem como a revitimização e a desmoralização das pessoas agredidas. Entretanto, ainda há um excesso de representações das violências em cena, o que bambeia a linha que divide a denúncia da espetacularização dos crimes.

IV

Ainda assim, o filme acerta em não etiquetar a produção como uma bio do caso de assassinato cometido por Doca Street, contra Ângela Diniz. Esta escolha permite a universalização do tema e a possibilidade de que a temporalidade do caso se flexione e expanda, portanto, a abordagem do roteiro de Trotta não seja anacrônico. As três mulheres que têm suas histórias cruzadas poderiam ser personagens contemporâneas, enfrentando toda a pesada carga que atravessa corpos femininos em 2026. A jornalista de Falabella, inicialmente apresenta um comportamento desrespeitoso com uma mulher encontrada morta em um terreno baldio. Sua postura inicial é a de quem desumaniza uma vítima, pois seu foco é conseguir fotos em primeira mão para ilustrar suas matérias no jornal em que trabalha. A sequência inicial chega a ser asquerosa, pois a personagem não se importa em invadir uma cena de crime, além de tratar o cadáver da mulher assassinada como um mero objeto a ser registrado. Mas, o trunfo do texto de Josefina é complexificar a personagem, mostrando sua mudança de comportamento, à partir do momento que ela se liga ao crime, pois percebe que a relação amorosa que tem com seu chefe (Augusto Madeira) pode levá-la a um fim semelhante ao da mulher que investiga. 

V

Da mesma maneira que a jornalista é uma pessoa complexa, a advogada foi escrita de uma forma parecida. Ela é mãe, esposa e trabalhadora. Tem consciência de classe, gênero e raça. Seu marido (Irandhir Santos), também advogado, a incentiva no trabalho. Porém, apesar de apresentar um comportamento desconstruído, a personagem de Irandhir reproduz questionamentos machistas. Essa faceta diversa de algumas pessoas que se destacam na narrativa, principais ou coadjuvantes, dão corpo ao filme, sem colocá-los nas posições dicotômicas tradicionais de mocinho e bandidos. 

VI

Formalmente o filme é protocolar, com início, meio e fim, bem demarcados. Entretanto, ao fim, duas cenas se destacam, não deixando a emoção construída esmorecer. Em uma delas a advogada ensaia a apresentação da tese de feminicídio, no escritório em sua casa, performando teatralmente um texto maniqueísta e pedagógico. A interpretação de Naruna é a cereja do bolo! Além disso, ao fim, o encontro das mulheres por um breve segundo, provoca emoção na simplicidade da troca de olhares, de duas anônimas que foram afetadas por aquela morte. Uma abordagem interessante, mesmo tendo deixado algumas questões sobre as mulheres em aberto.

Chorão: Só os Loucos Sabem

VII

José Loreto pode mudar seu nome para Alexandre Magno, nome de batismo de Chorão, líder da banda Charlie Brown Jr. Em cena, o ator deixa claro que foi feito para o papel. Mas, “Chorão: Só os Loucos Sabem” sofre do mesmo sintoma que a maioria das cinebiografias atuais, conta uma história entrecortada por espetáculos musicais videoclípticos. A consequência disso é um filme que captura o espectador mais pela memória nostálgica, do que por seu argumento. Inspirado no livro escrito por Grazi Gonçalves, o lado depressivo do artista é amplamente explorado, todavia, suas relações com as drogas ficou restrita ao uso de maconha e álcool, sendo que é público o conhecimento sobre seu vício em cocaína. Da mesma maneira, o roteiro opta por colocá-lo na posição de menino mimado, em vez de um adicto em descontrole ora pelo excesso de drogas, ora pela abstinência. 

VIII

Nanda Marques (Graziella) e Pedro Tirolli (Champignon), bem como outras personagens coadjuvantes são ofuscadas, tanto pela interpretação de Loreto (mérito), quanto por uma montagem que confunde a passagem do tempo e eclipsa qualquer outra personagem que não seja o rapper (demérito). Pelo fato de Champignon ter falecido poucos meses após Chorão, acreditei que a luta de ambos contra o adoecimento mental seria mais desenvolvida, afinal, o file inteiro tenta construir a imagem de uma amizade forte e longeva. Outro exemplo disso são os pais de Chorão, pois a mãe doente parece ter uma melhora do nada e o pai, saudável, de repente tem câncer. O filho dele então, surge do nada e é, vez ou outra, jogado na história para trazer a tona um lado amoroso do cantor. O tal casamento do qual nasceu a criança só é citado uma vez, quando Alexandre pede Grazi em namoro, fora isso, ninguém parece saber que ele aconteceu. 

IX

A produção, assim como outras exibidas nos quatro primeiros dias de festival, aborda um tipo de relação abusivas nas quais mulheres são vítimas de parceiros tóxicos. Como alguém que viveu a adolescência nos 90/2000 e acompanhou a ascensão do grupo de pop rock brasileiro, gostaria de ver mais situações incômodas que não arruinariam a imagem de Chorão, mas sim ampliaria a discussão sobre uso de entorpecentes, ataques de raiva, violências físicas ou emocionais e, principalmente, cuidados com a saúde mental em homens, que negligenciam essa parte da vida. Creio que em março de 2027, quando chegar aos cinemas, “Chorão” mobilize o público Millenial, que será movido pela memória afetiva e embarcar em mais uma história sobre mais um artista na qual discorrer sobre alguns “defeitos” daquela pessoa parece ser ofensivo. 

Leite em pó

X

Leite, areia, cinzas e outros pós atravessam o filme de Carlos Segundo e Rafael Copel, um filme sobre renascimentos e lutos. Com um humor sensível, Carlos trouxe em sua estreia em direção de longa-metragem o filme (até agora) mais fora da caixinha da mostra competitiva de longas brasileiros. Vinícius Oliveira, o garoto Josué, de “Central do Brasil” retorna às telas como Vicente, um homem que precisa lidar com o luto, após a morte da avó (Zezita Matos) e com a frustração por não fazer sua carreira como cantor decolar. Além disso, mais uma vez, o espectador presente no Festival de Gramado, pode conferir uma história sobre as marcas do patriarcado.

XI

Vicente tem contato com um diário, escrito por sua avó, no qual ela conta a história do casamento dela com o falecido avô militar e estadunidense do rapaz. Os relatos mostram o profundo desagrado que a senhora viveu ao longo dos anos. Os assédios, estupros e demais violências cometidas pelo marido. Durante a coletiva de imprensa, os diretores trouxeram a reflexão de que aquela senhora representa não apenas uma mulher vítima de um parceiro abusivo, mas, pelo contexto temporal – década de 1970 – a submissão forçada dos países latino americanos ao imperialismo norte americano. “Leite em Pó” é um filme com camadas, sutilezas, metáforas e simbolismos que são absorvidos e entendidos (ou não) após certa maturação do filme em nossa cabeça. O tipo de filme que precisa de tempo, troca com outras pessoas. Uma pausa. Um respiro. O gesto de uma partícula de poeira flanando pelo espaço, silenciosa, imperceptível a olho nu.

XII

A personagem Vicente é imatura, com a morte da avó é como se ele tivesse seu coming of age com duas décadas de atraso. Como o próprio Vinícius apontou durante a coletiva, um homem de quase quarenta anos que ainda toma leite em pó feito pela vovó, passa por um choque brusco ao perceber que a vida adulta carrega mais responsabilidades do que ele entende. A postura de jovem roqueiro revolucionário precisa ser deixada de lado, o diário da avó desmonta a farsa da família brasileira de comercial de margarina. E assim, a medida que parte em busca de um trabalho que não seja sua ilusão em ser um músico famoso, o homem conhece outras pessoas e a complexidade de suas vida. A mãe enlutada (Rejane Faria). A mulher presa em um casamento violento (Priscila Vilela). O técnico de eletrônicos que vive seu renascimento. Pessoas comuns, assim como ele, que se reinventaram diante das negativas do mundo. 

XIII

A produção foi rodada em Natal. Um filme potente, que te deixa reflexivo por dias. Realizado fora do eixo Rio-SP. Uma amostragem da capacidade que os outros brasis, os brasis não-sudestinos têm de presentear o público do país com um cinema intrigante.  

Artista visual, desenhista, graduanda em Letras - Tecnologias da Edição. Membro Abraccine, votante do Globo de Ouro (Golden Globe Awards). Pesquisadora de cinema, principalmente do gênero fantástico, bem como representação e representatividade de pessoas negras no cinema. Devota da santíssima trindade Tarkovski-Kubrick-Lynch.

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