• Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

    A Noiva! (The Bride!, 2026)

    Do além, Mary, com sua voz grave de assombração, a cabeça pesada, o olhar furtivo, lista seus nomes: Wollstonecraft por parte de mãe, Godwin por parte de pai e Shelley por parte de seu amante-marido. Uma mulher, como tantas, cujos nomes indicam, mais que pertencimento, propriedade. Um sobrenome é um atestado de posse: ela não é ela, ela é dos seus. Mary Shelley, a fantástica criadora da ficção científica contemporânea, interpretada por Jessie Buckley, é quem narra essa história, diretamente de uma espécie de limbo. A diretora e roteirista Maggie Gyllenhaal veio de sua estreia com uma adaptação impecável do A Filha Perdida de Elena Ferrante e agora retorna com…

  • Críticas e indicações,  Seriados,  Televisão

    Vladimir (2026)

    Publicado originalmente em 26/02 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui. Esses dias eu mandei lá no grupo de telegram do FpE um trailer de uma minissérie nova da Netflix chamada Vladimir. Ela é criada e roteirizada por Julia May Jonas, autora do livro de mesmo nome e dirigida por Shari Springer Berman & Robert Pulcini, Francesca Gregorini e Josephine Bornebusch. A premissa é que uma professora universitária de literatura, interpretada por Rachel Weiszs, em um casamento de longa data com outro professor do mesmo departamento, John (John Slatery). Acontece que seu digníssimo marido vem sendo acusado de assédio sexual por algumas…

  • Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

    O Morro dos Ventos Uivantes (“Wuthering Heights”, 2026)

    Enquanto os créditos de abertura sobem, é possível ouvir madeira rangendo e uma pessoa gemendo. A mistura de sons evoca uma imagem sexual. Quando o quadro se abre revela um homem pendurado, sendo estrangulado em uma forca, arfando em busca de ar enquanto seu corpo se debate em seus últimos espasmos, ao mesmo tempo em que ostenta uma grotesca ereção. Uma multidão de pessoas ao seu redor grita e vibra, incluindo as pequenas Cathy Earnshaw (Charlotte Mellington) e Nelly (Vy Nguyen), sua dama de companhia. Nesse mundo bárbaro, de vigiar e punir, nem mesmo as crianças passam incólumes da violência (que se mistura ao sexo). A diretora e roteirista Emerald…

  • Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes,  Livros

    Infâncias ficcionais entre pessoas que se vão

    Publicado originalmente em 29/01 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui. O primeiro livro do Grupo de Leitura Feito por Elas esse ano foi Se Deus Me Chamar Não Vou, de Mariana Salomão Carrara. Trata-se de uma história sensível, narrada em formato de diário por uma menina de 11 anos chamada Carmem. Como toda menina dessa idade, ela tem seus conflitos com os pais, seus dramas escolares, seus primeiros amores. E a linguagem é muito efetiva em evocar ao mesmo tempo uma inocência típica da idade, mas transmitir uma poética que eleva a leitura e a conduz de forma…

  • Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

    Hamnet – A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025)

    Em um ano com tantos filmes relacionados a parentalidades, não consigo deixar de relacionar Morra, Amor (Die, My Love), de Lynne Ramsay e Hamnet, de Chloé Zhao. O primeiro trata de uma mulher, Grace (Jennifer Lawrence), escritora, que se casa, engravida, e vai morar em uma casa distante com o marido, onde começa a apresentar o que é entendido pelos demais como um comportamento errático. O segundo é a história ficcionalizada da pessoa real que foi Agnes, esposa de William Shakespeare, envolvendo a morte do filho de ambos, Hamnet, que teria inspirado a escrita da peça Hamlet. Ambas são narrativas que envolvem questões complexas sobre maternidade e domesticidade. Na época…

  • Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

    Quando a Mulher se Opõe (Merrily We Go to Hell, 1932)

    Publicado originalmente em 11/12 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui. Joan (Sylvia Sidney), uma jovem socialite, filha de um rico industriário, conhece Jerry (Fredric March), um charmoso jornalista em uma festa. Ela estava entediada, ele a fez rir. Embriagado, ele faz um brinde aos dois, exclamando merrily we go to hell: alegremente vamos ao inferno. Apesar da simpatia do rapaz, ele claramente não consegue mais controlar seu desejo pelos copos: esse brinde já é um aceno de desespero e a frase dá o título original de Quando a Mulher se Opõe (1932), romance-melodrama pré-código dirigido pela cineasta Dorothy Arzner. …

  • Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

    Melhores Filmes de 2025

    Como todos os anos, tentei elaborar uma lista dos filmes que mais gostei e como todos os anos sofri no processo. Filmes entraram e saíram e certamente vou me arrepender assim que publicar. Eu não gosto de fazer listas muito extensas, mas também gosto de números redondos, então acabei ficando com 30 títulos. Esse é um recorte aproximado daquilo que mais me emocionou e/ou instigou em 2025, nem sempre necessariamente os melhores em termos objetivos (isso existe?), mas alguns dos que mais mexeram comigo. Até o momento, foram 283 filmes assistidos no ano, sendo 240 longas metragens. Se eu contei certo, 101 foram lançados Brasil ao longo dos últimos 12…

  • Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

    20 melhores filmes vistos pela primeira vez em 2025

    Desde 2013 incluo na minha retrospectiva do ano esse apanhado de descobertas entre os filmes que assisti que não são lançamentos daquele ano. Afinal, a cinefilia nunca acaba, é um processo de encontros. A lista também pode ser conferida no letterboxd, onde também é possível ver minha nota para cada um deles. A ordem da disposição é cronológica, já que ranquear seria uma tarefa ingrata. Seguem os escolhidos. Garotas Na Farra (The Wild Party, 1929) Direção: Dorothy Arzner Minha Rainha (Queen Kelly, 1932) Direção: Erich von Stroheim O Pecado da Carne (Rain, 1932) Direção Lewis Milestone Oharu, a Vida de uma Cortesã (Saikaku ichidai onna, 1952) Direção: Kenji Mizoguchi Palavras ao…

  • Entrevistas

    Entrevista | Kate Hudson, de Song Sung Blue

    Biografias musicais costumam ser inspiradoras, especialmente aquelas que tratam de astros e estrelas de que somos fãs e que nos inspiram, trazendo canções que marcaram época. Mas Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, dirigido por Craig Brewer, conta uma história um pouco diferente daquela que estamos acostumados: embora as músicas sejam famosas, o casal de protagonistas vividos por Kate Hudson e Hugh Jackman é dupla de artistas de cover. Adaptado de um documentário com o mesmo o nome, o filme conta a história de Mike e Claire Sardina ou Thunder e Lightning, respectivamente, que na vida real se conheceram tentando a vida e buscando o sucesso com suas respectivas…

  • Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

    Tudo que Resta de Você (All That’s Left of You, 2025)

    Publicado originalmente em 27/11 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui. Tudo que Resta de Você (All That’s Left of You, 2025), escrito e dirigido pela cineasta palestino-jordaniano-estadunidense Cherien Dabis, utiliza do drama familiar para contar a história da Palestina em três gerações. Logo no primeiro ato, a câmera na mão segue pelas ruas um adolescente, Noor (Muhammad Abed Elrahman) e seu amigo. O moletom amarelo de um, a jaqueta jeans do outro, eles poderiam ser jovens em qualquer lugar de um momento recente. Mas trata-se da Cisjordânia em 1988, na primeira Intifada, quando os palestinos se rebelaram com pedras…