Cinema
-
Um Outro Francisco (2022)
Em Um Outro Francisco, de Margarita Hernández, dois fotógrafos italianos, Giorgio Negro e Dario de Dominicis, resolvem visitar uma festa de São Francisco em Canindé, uma pequena cidade do interior do Ceará, considerada a segunda maior celebração dedicada ao santo do mundo. E aí retornam algumas vezes em anos posteriores, não só fazendo novos registros, mas também apresentando para as pessoas retratadas aqueles realizados no passado. O documentário, sensível, traz discussões caras à antropologia visual, como, por exemplo o direito de “roubar” imagens: um fotógrafo brasileiro questiona a ética de fotografar um modelo incauto, como por exemplo uma pessoa que não perceba que esteja sendo fotografada. Já os europeus parecem…
-
[78º Festival de Cannes] La Ola
Este texto faz parte da cobertura do 78ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 13 e 24 de maio. Sebastián Lélio, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional pelo fabuloso Uma Mulher Fantástica, levar um musical para sua premiére no 78º Festival de Cannes é um acontecimento que fez lotar a sala Debussy em expectativa. Pessoalmente, gosto muito do cinema do diretor chileno, mas apesar disso, procuro não alimentar anseios ou pré-julgamentos a respeito dos filmes que assisto, e por essa mesma razão, dificilmente leio sinopses ou fico na caçada de trailers. Não trata-se de nenhuma mania ou fobia de spoilers, apenas tento, na medida do possível, gozar…
-
[78º Festival de Cannes] The History of Sound
Este texto faz parte da cobertura do 78ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 13 e 24 de maio. Em certo momento, quiçá já na metade da projeção de The History of Sound, eu me vi torcendo para que, durante os duetos de música folk estadunidense cantados por Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor), houvesse uma grande reviravolta vampiresca e uma nova versão de Pecadores, de Ryan Coogler, se formasse, quiçá, assumindo um lado queer. Não é que não aprecie as canções do gênero. Não é que não admire Mescal e O’Connor, pelo contrário, tenho gostado muito dos mais recentes trabalhos do último. É que, em que…
-
[78º Festival de Cannes] Eddington
Este texto faz parte da cobertura do 78ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 13 e 24 de maio. Que a maior economia do mundo se transformou em um gigantesco surto coletivo muito bem financiado, não é novidade alguma. São, entretanto, os discursos mais óbvios os que precisam ser repetidos à exaustão para que alguma reflexão qualificada possa se formar. Talvez essa tenha sido a proposta de Eddington, novo filme de Ari Aster (Midsommar, Beau Tem Medo): inserir, num microcosmo de cidade estadunidense fantasma e desértica no início da Covid-19, o maior número de razões possíveis que demonstrem a existência desse surto coletivo, e agregar o maior número…
-
[78º Festival de Cannes] O Esquema Fenício
Este texto faz parte da cobertura do 78ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 13 e 24 de maio. Se há algo de fascinante na linguagem do cinema, e que Wes Anderson parece compreender em plenitude ao criar o seu próprio método de fazê-lo, é a extração de sentimentos e sensações a partir da mais rigorosa, racional e antinatural construção imagética. O cinema que emula a realidade e que se esforça para que espectador abstraia da arte para experimentar e se envolver com a história a ser contada, segue, certamente, um caminho mais intuitivo e elementar na atração emotiva, ante a disponibilidade de uma gama de recursos de…
-
[78º Festival de Cannes] The Black Snake
Este texto faz parte da cobertura do 78ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 13 e 24 de maio. Parte da Acid, uma mostra paralela do Festival de Cannes em que os filmes são selecionados por cineastas – prometendo assim uma programação mais ousada -, La Couleuvre Noire, ou The Black Snake, é uma produção entre França, Colômbia e Brasil que adentra o deserto colombiano de Tatacoa. Pelo realismo fantástico, Aurélien Vernhes-Lermusiaux conta tanto a história particular de Ciro (Alexis Lozano Tafur) quanto do espaço geográfico que o cerca, explorando o místico que vem da terra e da ancestralidade. O homem retorna para seu local de origem depois…
-
[78º Festival de Cannes] Renoir
Este texto faz parte da cobertura do 78ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 13 e 24 de maio. Numa Tóquio do fim dos anos 80, enquanto toma aulas de inglês, Fuki (Yui Suzuki), uma garota curiosa de 11 anos, é questionada por sua professora para que fale de algum momento memorável que viveu nas férias escolares. A menina pensa um pouco, e rapidamente responde, com naturalidade e até empolgação: “eu fui a um funeral!”. Em perspectivas, tempos e lugares muito diferentes, mas caminhando lado a lado com Sound of Falling, de Mascha Schilinski que também integra a competição oficial do 78º Festival de Cannes, Renoir, filme japonês…
-
Onda Nova (1983)
Dizer que o tempo é cíclico se tornou clichê em alguns contextos, mas os clichês existem justamente para serem usados: o tempo do filme Onda Nova é agora, mas foi também 1983, ano de sua realização e quando, após lançamento na Mostra de Cinema de São Paulo, o filme foi integralmente censurado pelos órgãos da ditadura civil militar vigente no período e assim permaneceu anos longe das salas de exibição. Em 2025, o relançamento do filme em cópia restaurada encontra o mundo sob a constante ameaça do retorno de governos de extrema direita e a progressão de um conservadorismo que passa inclusive por discussões sobre a validade ou não de…
-
[78º Festival de Cannes] Romería
Este texto faz parte da cobertura do 78ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 13 e 24 de maio. É fato que os aspectos identitários que formam uma pessoa como ela é constituem a somatória de fatores relacionados ao seu passado e ancestralidade, àqueles que vieram antes, àquilo que ela se tornará a partir disso. É formado, ainda, pelo presente modulado pelo exterior, pelos acontecimentos ao redor, um inconstante fio que vai passar por mudanças durante toda nossa vida. Há aqueles que conferem à conexão familiar pelo sangue caráter de imprescindibilidade para composição de identidades. Há, ainda, as burocracias de sociedade que nos tornam existentes, como, por exemplo,…
-
[78º Festival de Cannes] La Petite Dernière
Este texto faz parte da cobertura do 78ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 13 e 24 de maio. A luta pela afirmação de identidades nos parece ter sido a temática recorrente das obras da competição do 78º Festival de Cannes. O Agente Secreto, Romería, Die, My Love, e aqui, La Petite Dernière (The Little Sister), dirigido pela franco-tunisiana Hafsia Herzi. Filmes, de algum modo, primos, que trabalham a jornada de autopreservação como fio condutor narrativo, em buscas específicas e individuais que se traduzem em uma pretensão mais ampla, que é a da garantia do direito fundamental mais básico pela existência digna. A trajetória, nem sempre, é exitosa.…