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Entrevista | Pedro Charbel, co-diretor de Não Existe Almoço Grátis

Não Existe Almoço Grátis, de Pedro Charbel e Marcos Nepomuceno, oferece um olhar esperançoso aos dias que antecederam o início do terceiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva. Em uma das Cozinhas Solidárias do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), três mulheres vivem com a expectativa de dias melhores após os anos de um governo que colocou o Brasil de volta ao mapa da fome.

É por meio de Jurailde, Socorro e Bizza que a dupla de diretores encontra um norte para mostrar um Brasil que muitas vezes escapa ao noticiário tradicional e que as pesquisas eleitorais, por sua própria natureza, não conseguem traduzir em toda a sua complexidade. Entre a fé religiosa e o sonho de ter uma casa própria, a organização coletiva sobressai como o condutor desses dias melhores que aquele 1º de janeiro de 2023 prometia.

Após três anos de carreira em festivais, o filme chegou aos cinemas no início do mês que antecede mais uma eleição presidencial, com novamente Lula enfrentando um Bolsonaro (agora, o filho). Em um momento em que algumas das questões que atravessavam aquelas personagens continuam no centro do debate brasileiro, o diretor Pedro Charbel falou com o Feito por Elas sobre a construção do filme. Leia a entrevista abaixo:

Camila Henriques: Se eu pudesse condensar o filme em um único sentimento, seria o de esperança. Até chegar a essa ambientação de três dias antes da posse do Lula, imagino que tenha sido um processo de muita correria, até porque vocês estavam acompanhando um momento histórico em um intervalo de tempo muito curto. Como foi construir o filme a partir dessa expectativa?

Pedro Charbel: Tudo era muito incerto quando começamos a gravar: três dias antes da posse, o movimento de fato ainda não sabia onde poderia cozinhar, quantos ônibus chegariam, onde as pessoas ficaram alojadas, sem falar da dúvida geral sobre a possibilidade de golpe, etc. Ao mesmo tempo, o clima de mudança e esperança era perceptível, e havia uma metáfora muito forte em refeições sendo cozinhadas a muitas mãos naquela virada de ano. 

“Optamos por acompanhar tanto a incerteza quanto a esperança nessa correria que perpassava os preparativos, e o resultado é um filme em constante movimento – que também convida quem assiste a se movimentar. Acredito que com isso pudemos construir um filme que não faz parecer que a posse de Lula encerrava os problemas, mas que em vez disso retrata uma esperança de transformação que depende da luta diária e territorial para existir.”

Camila: É impressionante como as histórias de Jurailde, Bizza e Socorro se complementam justamente nas diferenças entre elas. Como vocês chegaram a essas três mulheres e como foi perceber, durante o processo, que as histórias delas poderiam construir esse retrato tão amplo do Brasil?

Eu já estava no MTST e conhecia as três há alguns anos, e apesar de ter intimidade com elas, não sabia tantos detalhes de suas trajetórias. Durante o processo das entrevistas percebemos que suas histórias teriam que encontrar um lugar bem ancorado na montagem, e começamos a desenhar um roteiro que daria conta desse retrato amplo do Brasil – e também da força dos movimentos sociais – que as três formulam tão bem. O desafio foi costurar tudo isso de modo não linear, possibilitando o envolvimento do público com a narrativa enquanto proporcionamos lugares apropriados para temas mais difíceis ou traços singulares das trajetórias. Sempre nos guiamos com a máxima de que esse filme seria visto, primeiramente, por elas e pelo movimento, sendo imperativo muita ética e afeto guiando o processo. 

Camila: Uma coisa que achei muito interessante é o olhar do filme para um Brasil profundamente marcado pela religiosidade, especialmente pelo neopentecostalismo, mas sem transformar a fé das personagens em objeto de julgamento ou de exotização. A fé aparece como parte da vida de Jurailde, em específico. Como foi trabalhar isso junto a ela? 

Pedro: Foi bem natural porque é a realidade do movimento social e das periferias brasileiras de modo geral. A fé evangélica convive de modo pulsante nesses espaços e muitas igrejas são verdadeiros pólos de acolhimento e comunidade. Aliás, nisso as igrejas e o movimento social têm muito em comum: ambos são espaço de criação de vínculos, de afeto, conectores para rede de apoio em uma sociedade cada vez mais prejudicada pelo individualismo. A grande diferença está no fato de que, institucionalmente, muitas igrejas servem a um projeto de manutenção de opressões, aparelhadas pelo projeto da extrema direita, enquanto movimentos sociais querem justamente superar essas estruturas injustas. 

“Jurailde, com sua ancestralidade indígena e fé evangélica resume tudo isso no louvor que canta enquanto cozinha: a vida com Jesus pode ser boa, cheia de alegria e doce como o mel, quando valorizamos a união.”

Camila: Outra coisa que vocês conseguem trazer de forma muito natural, no depoimento de Bizza, é a fala dela sobre ter votado no Bolsonaro. Pra mim, isso vai de encontro a um Brasil que eu considero muito mais complexo do que as porcentagens de votação são capazes de refletir, porque nem todo mundo votou nele porque concorda necessariamente, e sim por uma falta de letramento político. Como foi para vocês ouvir e incorporar isso ao filme e o quão importante é trazer esse tipo de fala? 

Pedro: É muito importante desmistificar quem é ou foi eleitor de Bolsonaro e do bolsonarismo. Muita gente chega no MTST tendo votado na direita ou extrema direita, e o depoimento da Bizza revela muito sobre esse processo de conscientização política. O desejo de mudança que ela descreve moveu muita gente na eleição de 2018, e buscamos incorporar isso de modo natural e responsável para corroer uma divisão estática imaginária entre eleitores. Pensamos bastante em que momento do filme trazer essa “revelação” para não promover julgamentos ou afastamentos inadequados, e sempre pensamos que nosso filme poderia ser visto por pessoas  localizadas em diferentes pontos do espectro político.

Camila: Ainda nesse tema, assim como acontece com os relatos de Jurailde sobre a sua fé, eu sinto que essa fala é retratada sem julgamentos – isso, inclusive, retorna como uma piada feita por Bizza a caminho da posse. Entre as primeiras exibições do filme e a estreia agora, três anos depois, como vocês sentem que isso tem sido recebido pelos espectadores? 

Pedro: Como o filme não é sobre a posse em si, ele parece estar mais atual do que nunca. As reações têm sido muito positivas, e mesmo gente que não se identifica como progressista se envolve e vem comentar. Há também uma diversidade de experiências com o próprio cinema, pois desde a circulação pelos festivais fizemos sempre um esforço de ocupar as salas com pessoas que normalmente costumam não estar ali, viabilizando ônibus das ocupações e periferias das cidades pelas quais o filme passava, por exemplo. Isso resulta em que muita gente foi ao cinema pela primeira vez nessas ocasiões, e isso nutriu esforços de democratização de acesso ao audiovisual brasileiro através de um projeto mais amplo do MTST chamado  Cinema Sem Teto: a proposta é levar o cinema para o meio do povo e fazer o povo ocupar os cinemas.

Camila: Uma das coisas que mais me lembro da posse do Lula é o discurso emocionado que ele faz sobre a fome no país e sobre o retrocesso que o governo genocida do Bolsonaro representou. Comida é uma ferramenta de luta, e, para o trio que vocês acompanham no filme, também é o passo para um futuro em que todas caminhem juntas e realizam seus sonhos juntas. Como vocês pensaram essa relação entre o discurso político daquele momento e a experiência concreta dessas mulheres? 

Pedro: A Bizza diz uma coisa no filme que acho que responde a essa questão: vivemos em uma sociedade que faz as pessoas acreditarem que se elas não tem uma casa é porque elas não se esforçaram, quando na verdade há uma estrutura injusta que só pode ser superada com a organização coletiva, inclusive para pressionar o governo. Na minha opinião, é nessa chave que reside a relação entre a política mais institucional que o discurso do Lula representa com a política da vida concreta das pessoas. O próprio título do filme é uma provocação nesse sentido, pois do outro lado existe uma ideologia que quer nos fazer acreditar que o mundo se move pelo lucro e o mérito individual. Mas comida é um direito e, quando há solidariedade, ela pode e deve ser gratuíta sim. 

Camila: Além de contar as histórias dessas mulheres e dessa volta da esperança, Não Existe Almoço Grátis também parece fazer um movimento de devolver às pessoas alguns símbolos que foram apropriados pela extrema direita, como a bandeira e o hino. O que significa, para vocês, recuperar esses símbolos hoje?

Pedro: Talvez nem se trate de recuperar uma coisa ou outra – não sei se algum dia elas deixaram de ser nossas, e acho que essa dicotomia já vem se esvaindo há algum tempo. Como a emoção da Jurailde ao cantar o hino demonstra, talvez seja mais sobre compreender verdadeiramente qual é o nosso projeto de país e manifestar orgulho sobre isso.

“Quando gravamos nosso filme, mais da metade da população brasileira sofria com algum tipo de insegurança alimentar e milhões estavam passando fome. Hoje, nosso filme circula em um país com os menores índices de insegurança alimentar da história e com as Cozinhas Solidárias incorporadas às políticas públicas do próprio governo federal. Então seja através do hino, da bandeira, ou de um prato cheio de comida boa, temos que nutrir nosso imaginário desse projeto de país coletivo e solidário.”

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

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