Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2, 2026)
A cineasta dinamarquesa Susanne Bier, longe dos dramalhões morais que realizava no cinema de seu país origem, ainda parece não encontrar totalmente sua voz nas produções hollywoodianas em que tem trabalhado. Mas ela estabeleceu uma parceria com Sandra Bullock em Bird Box (2018) e com a Nicole Kidman em The Undoing (2020) e The Perfect Couple (2024). Então nada mais adequado do que juntar esse time todo em Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2)
O filme começa com um flashback que nos informa que toda aquela promessa no primeiro de que a protagonista, Sally (Bullock), tinha encontrado o homem perfeito, com um olho de cada cor, com o símbolo da estrela, que montava cavalo de costas, e assim quebrado a maldição das mulheres Owens, era falsa. A maldição dizia que todo homem amado pelas mulheres Owens morreria e ela tentou criar a descrição de um homem impossível de existir e ainda assim o encontrou. Mas mesmo assim Gary também morreu no tempo depois do filme. Nós vemos seu enterro agora e Sally apagando a memória das filhas Kylie e Antonia para que elas nunca saibam que são bruxas, nem que todo homem que amarem vai morrer. Gillian (Kidman) discorda dessa atitude, mas Sally quer proteger as filhas da dor que passou de perder dois amores Gary, e o pai das meninas, que havia morrido ainda no primeiro filme.
Até que anos depois, agora nesse segundo filme, quando Antonia (Maisie Williams) está na na faculdade de Medicina e Kylie cursando Artes (Joey King), esta chega com um namorado para o aniversário da tia-avó Jet (Dianne Wiest). Ao falar para ele que o ama, o pobre rapaz cai em coma, numa safadezinha de roteiro, ao invés de morrer, como os demais amados. Com isso, a geração mais nova pode enfrentar as demais e descobrir e sua natureza e sua história, para gerar o conflito necessário para a trama.
Se no filme anterior Sally estava em uma semi-negação da sua capacidade de bruxa, nesse ela se afastou completamente de qualquer atividade mágica. Assim, ela trocou o trabalho na lojinha de cosméticos, que ainda envolvia uma certa “alquimia”, por um na biblioteca. Esse novo trabalho serve à narrativa, porque dá acesso a um livro de feitiços e ainda mantém uma certa estética “bruxa”. E em se tratando de estética, Alexandra Byrne cria um figurino referencial, incluindo cardigãs do primeiro filme.
É esse livro que, em sua revolta, e sem preparo, vai levar Kylie para a Inglaterra, em busca de uma forma de quebrar a maldição e salvar o namorado. A decisão de deslocar a história para o velho continente é um ponto fraco. Primeiro que desconecta os acontecimentos da casa das Owens, que é um coração no primeiro. Antonia fica quase sem papel nas ações. E por fim, o filme sofre por ter um vilão aleatório: no primeiro a ideia era a personificação da violência contra as mulheres nesse é… um filho bastardo? Mas a linhagem das Owens não é justamente todo um matriarcado de mulheres que criaram suas proles sozinhas? De mulheres ostracizadas pela sociedade ao seu redor? Qual a lógica? Cria-se um discurso de reforço da linhagem bastante estranho. Da mesma forma, como se trata de uma história sobre lidar com o legado, fechar ciclos e saber se despedir, pensando na força de personagens como as tias Jet e Franny (Stockard Channing), é estranha a decisão de que uma mulher mais velha e sem filhos deva se sacrificar.
Além disso, senti falta da presença de outras mulheres para além daquelas da família, da ideia de mais do que sororidade, congregação. Por isso a lojinha, a escola, e qualquer outro externo externo a elas elemento faziam sentido. A experiência da violência ou do término do relacionamento era unificadora. O deslocamento para a Inglaterra fez tudo isso ser perder. De lá, apenas a presença sempre charmosa de Lee Pace como um professar das artes mágicas é bem vinda, porque Lee Pace nunca é demais.
Dito isso, apesar de ter um roteiro convoluto, o reencontro das personagens em si é divertido: elas são saudosas e a trama é simples. A magia, dessa vez, é mais pesada apesar da possessão do primeiro, parece que as bruxas têm mais poder e o medo que elas despertam nas pessoas é mais justificado. Mas a dinâmica e a relação entre as duas funciona. É divertido revê-las e impossível não sorrir e torcer por suas peripécias. Talvez não marque época como o primeiro. Não tem as roupas, não tem as músicas, não tem o timing. Mas atrizes são ótimas e o humor funciona. Se você, como eu, é da geração que amou o primeiro, vale a pena rever as irmãs Owens.




