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Mulheres 100% à prova de Morte

Publicado originalmente em 17/04 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.


Serial killer, mulheres sexy, carros potentes. Não! Não estamos de volta aos anos 70, mas temos todos os elementos necessários para executar com primor um suspense de ação com aquela pitada exploitation, e todo o visual para que essa sensação nostálgica até para quem não a viveu seja real.

Tarantino, em toda sua obra, sempre dá o devido destaque às mulheres. Temos sub-atrizes viciadas, aeromoças contrabandistas, assassinas profissionais, mães, donzelas em perigo, dentre essa gama de possibilidades que ele teve para retratá-las. Mas qual seria seu filme mais marcante sobre o girl power? Digo, sem dúvidas, À Prova de Morte [Death Proof, 2007]. Apesar de não ter uma boa recepção durante seu lançamento, sendo posteriormente relançado em edição com uma metragem maior, por muitos é considerado um dos melhores filmes do diretor, recheado de violência, diálogos amplos e referências, características marcantes do seu estilo.

Esse filme, que fez parte do projeto Grindhouse, realizado em parceria com seu amigo Robert Rodriguez que dirigiu Planeta Terror [Planet Terror], primeira parte desse projeto – trouxe para as telas a sensação dos cinemas baratos americanos, que exibiam de filmes populares a pérolas Z de baixo custo e gosto duvidoso. Tarantino dirige e roteiriza a segunda parte de Grindhouse, centralizado na obsessão do personagem de Kurt Russel [Fuga de Nova York, Tango e Cash], Stuntman Mike, um dublê de filmes de ação, que usa seu carro, Chevy/Dodge, “100% à prova de morte”, para caçar e matar belas mulheres.

Ao começar o filme é facilmente perceptível o foco em como as personagens femininas se portam. Não lidamos com moças cândidas e puras, em busca da constante proteção de um príncipe encantado e sim com mulheres independentes e bem resolvidas, que se portam de maneira descontraída e têm um comportamento comumente taxado de masculino. Falam naturalmente sobre sua vida sexual, se vestem sem pudor, mas também sem uma sensualidade forçada. Tudo na trama se apresenta de maneira confortável, por mais que as atuações sejam propositalmente forçadas e algumas vezes vazias e superficiais.

E isso atrai Stuntman Mike. Ele as persegue, em todo seu percurso a caminho do Guero’s, seu carro é mostrado pela primeira vez até um bar onde aborda Butterfly [Vanessa Ferlto] oferecendo um drink e recitando o poema citado por Julia Jungle [Sydney Tamija Poitier], em seu programa de rádio. A atmosfera nos envolve, desde o primeiro sinal da perseguição marcada aqui por seu carro parado no estacionamento, onde Butterfly o observa com certa desconfiança, minutos antes da abordagem debaixo de uma grande chuva, com a jukebox tocando ao fundo no ritmo com o qual seus discos são trocados en harmonia.com o barulho das gotas d’água chegando ao chão.

A trilha sempre marcante dá tom ao desenvolver da história, se encaixando como peça que falta em um quebra-cabeças, o toque final para que a esperada imagem se forme em sua mente. Os corpos se movem de acordo com a música, o espaço se adapta a ela.

Mike as despreza, é claro, em seu olhar. A postura diante delas transmite certo asco, uma necessidade de destruir aquela beleza. Sua voz é sarcástica, sua postura premeditada. Pobres garotas que não sabem o que as esperam, acreditam que a noite está apenas no início. Seus planos de diversão serão convertidos em mutilação suja e grotesca em poucos minutos.

Reforçada em quatro pontos de vista diferentes, de uma beleza sádica primorosa, vemos [e ouvimos] a rodovia escura, um pato cromado, o acelerador, o som alto, o ronco do motor, a face obcecada, os corpos dançando, a luz momentânea, os carros em colisão, vidros, um corpo que cai, uma perna que voa, olhos sensuais, crânio escalpelado, crash, boom, bang, um fim.

Mas, todo Serial que se preze, em um filme extravagante, da primeira vez se safa, com alguns arranhões e mais experiência na carteira, e volta triunfalmente para espalhar o pânico.

Nesse ponto essa história se transforma.

Aquela aventura, com possibilidades desconhecidas, se foi em meio aos destroços da lataria dos carros. Nasce aqui outro filme. Sabemos quem é o assassino, deduzimos facilmente quem são suas vítimas, prevemos seus passos, desejamos vingança. Precisamos daquele amontoado de movimento que acabamos de ver, a velocidade, os barulhos, as curvas. Todas as referências do universo pessoal de Tarantino que ele cospe em nossa cara a cada cena filmada. A confusão da cultura pop que é referência em cada pedaço do que é dito.

Nos deparamos de novo com mulheres, com perfis que reforçam a ideia da liberdade já existente no primeiro grupo. A necessidade de matar, do assassino, é ligada a esse reconhecimento, expresso nessas personagens. Elas se destacam, cada uma por suas singularidades. São agressivas, impetuosas. Não temem [quase] nada. São também sensíveis. No carro, depois de serem encurraladas por Mike, Kim e Abbie choram assustadas pensando que Zoë morreu ao ser lançada do capô. Temos sutilmente o drama. Tarantino não reproduz apenas violência gratuita, ele tem a capacidade de expressar, no meio do caos, sentimentos. De maneira simples, com o foco em uma moita e rostos cheios de lágrimas.

A cereja do bolo é a sequência final onde Abbie, Zoë e Kim perseguem Mike, após seu ataque, em um Dodge Challenger branco – como o de Kowalski em Vanish Point (1970) – destruindo seu carro. Todo o empenho em acabar com o maníaco é como desfazer de hábitos há muito arraigados. Cada golpe é um medo que cai por terra. É o restauro da possibilidade de ser quem você é. É se livrar do que te oprime. É abandonar quem te diminui. É a capacidade de Tarantino de não dizer nada em uma cena e, por trás do nada, criar sensações que significam algo para cada espectador.

É a perseguição insana de carros na rodovia, seguida de um linchamento, que me diz: se liberte. Viva! Seja blindada, 100% à prova de morte.

Artista visual, desenhista, graduanda em Letras - Tecnologias da Edição. Membro Abraccine, votante do Globo de Ouro (Golden Globe Awards). Pesquisadora de cinema, principalmente do gênero fantástico, bem como representação e representatividade de pessoas negras no cinema. Devota da santíssima trindade Tarkovski-Kubrick-Lynch.

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