Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

[Olhar do Norte] Kika Não Foi Convidada, de Juraci Júnior

Este texto faz parte da cobertura do 8º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, de 23 a 27 de setembro de 2026.

Na primeira vez que vemos Kika (Sophia Resky) em Kika Não Foi Convidada, ela está correndo, empolgada, com um amigo para não perder um aniversário. A imagem das duas crianças vendo de fora a festa, com os rostos grudados em uma grade, já diz tudo o que precisamos entender sobre aquele momento. O abismo entre esses dois mundos, implícito nessa imagem, fica evidente na fala passivo-agressiva da mãe do aniversariante (apropriadamente chamado Enzo) quando percebe a presença da garotinha.

O curta dirigido e roteirizado por Juraci Júnior, mato-grossense radicado em Rondônia, é muito eficiente em mostrar como a exclusão pelo racismo e pela diferença de classes pode deixar marcas profundas em uma criança. Kika fica profundamente afetada pelo que aconteceu na festa de Enzo e passa a não querer sair de casa nem ir à escola. O filme não nomeia exatamente o que ela tem, mas é perceptível que essa humilhação desencadeia um episódio depressivo na garota.

Essas dores, que são invisíveis para os adultos, não passam despercebidas por um dos amiguinhos da garota. O menino sonha em ter uma festa de aniversário e, com muito sacrifício por parte da mãe, consegue. É nesse momento que o curta traz seus momentos mais singelos, na preparação para a festa e na forma como Kika é, enfim, convidada.

O filme de Juraci Júnior é daqueles curtas que a gente não quer que termine, tamanha a sensibilidade por trás das câmeras e o talento na frente delas. Quando Kika descobre que existe uma mesa em que alguém fará questão de guardar um lugar para ela, é um abraço que o filme também dá no espectador.

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *