Quando a Mulher se Opõe (Merrily We Go to Hell, 1932)
Publicado originalmente em 11/12 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.
Joan (Sylvia Sidney), uma jovem socialite, filha de um rico industriário, conhece Jerry (Fredric March), um charmoso jornalista em uma festa. Ela estava entediada, ele a fez rir. Embriagado, ele faz um brinde aos dois, exclamando merrily we go to hell: alegremente vamos ao inferno. Apesar da simpatia do rapaz, ele claramente não consegue mais controlar seu desejo pelos copos: esse brinde já é um aceno de desespero e a frase dá o título original de Quando a Mulher se Opõe (1932), romance-melodrama pré-código dirigido pela cineasta Dorothy Arzner.
Única mulher trabalhando no sistema de estúdios nos Estados Unidos no período (e a primeira a integrar o Sindicado dos Diretores) Arzner não se furtava de usar das convenções do melodrama para comunicar sutilmente mensagens irônicas sobre o amor romântico e o relacionamento heterossexual convencional. Sua experiência de anos como montadora no cinema silencioso e seu interesse por história da arte e arquitetura lhe garantem estratégias visuais interessantes na composição de suas narrativas.
Aqui, logo no começo, vemos como Jerry enxerga os outros casais da festa não só separado pela construção, manifestada pela porta-janela e sua cortina, mas também por uma muralha de garrafas enfileiradas a sua frente, em uma composição que o reflete o quanto o álcool já o afasta dos demais e filtra o modo de se relacionar com o mundo. O fotógrafo do filme é David Abel, na época colaborador recorrente de Arzner.
Joan, ignorante dos hábitos de Jerry, o convida para um chá em sua casa no dia seguinte. O primeiro sinal de alerta é dado: ele chega muito atrasado ao compromisso entre os dois. Mas ela segue apaixonada, decepção após decepção. O sogro tenta comprá-lo com 50 mil dólares: não quer que a filha viva com um jornalista beberrão e um salário de 85 dólares semanais. Mas ambos estão decididos: irão se casar. Jerry comparece embriagado na própria festa de noivado. Joan sente-se humilhada.
A perspectiva da nave central da Igreja é acentuada pela velas que marcam a linha do corredor. Joan é iluminada de forma a destacar os olhos marejados, enquanto Jerry, exasperado procura o anel. Sem que a câmera revele totalmente o artefato que ele desliza no dedo da noiva, depois vemos um plano detalhe revelando tratar-se da argola de uma chave. Ele perdeu o anel e a noiva, como se fosse mais uma trapalhada do amado.
Vivendo em um apartamento comum de classe média, ela cozinha, vestindo um avental, tentando encarnar o papel de dona de casa enquanto recepciona os amigos dele, em um modo de vida que nunca teve antes. Uma dela, Vi (Esther Howard), que acompanha Buck (Skeets Gallagher), o simpático que está sempre junto das bebedeiras de Jerry, alerta para que pule fora ates que o amor vire ódio. Esse é outro aspecto interessante da filmografia de Arzner: além de seus filmes serem protagonizados por mulheres, as histórias são marcadas por amizade feminina. Até mesmo tramas que poderiam focar em tropos tradicionais de rivalidade, optam por caminhos menos tradicionais de solidariedade.
O álcool também abre as portas para a reaproximação de Jerry com Claire (Adrianne Allen), sua ex-namorada. Aventurando-se na dramaturgia, ele escreve uma peça que será estrelada por ela, que é atriz. O estrago está feito e Joan ainda tenta fazer ciúmes levando a uma festa o na época desconhecido jovem Cary Grant como acompanhante.
É curioso como muitas vezes Billy Wilder é creditado como o primeiro cineasta a tratar o alcoolismo de maneira séria e não caricata em Farrapo Humano (The Lost Weekend, 1945). Mas Quando a Mulher se Opõe também é um retrato sério e não caricato. Talvez o crédito não seja dado a Arzner porque o ponto de vista da narrativa não seja da pessoa com adicção, e sim de sua companheira e esposa. Talvez haja um viés de gênero quando esses marcos são definidos, seja pela autoria ou pelo protagonismo. Não há como saber.
O fato é que o melodrama é um retrato sensível de um casal se afastando em virtude de um homem que cada vez mais perde o controle em virtude do vício, esquecendo-se do porque amou em um primeiro momento. Assim, em a princípio o desfecho do filme pode parecer de reconciliação banal. Mas não estou bem certa de que, diante de toda a construção da narrativa até então e do conjunto de sua filmografia, Arzner não estivesse alfinetando a lógica romântica simplista. O fade para o desfecho certamente não oculta que não há resolução para o coração partido, a confiança traída e o amor desfeito, mas que a convenção dita que o casal heterossexual deve permanecer junto apesar de tudo, preservando o ideal de amor (pelo menos no cinema).



