Rivalidade Ardente (Heated Rivalry, 2025-)
Publicado originalmente em 26/02 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.
Confesso que estava com preguiça de ver Rivalidade Ardente (Heated Rivalry, 2025- ), seriado canadense criado, roteirizado e dirigido por Jacob Tierney, baseado na série de livros escritos por Rachel Reid. Eu achava que a trama teria apelo adolescente e talvez superficial e não poderia estar mais enganada sobre minhas percepções. A história acompanha dois jogadores de hóquei: o canadense Shane Hollander (interpretado por Hudson Williams) e o russo Ilya Rozanov (Connor Storrie), ao longo de cerca de 10 anos, desde sua temporada de estreia na Liga Nacional de Hóquei, o torneio entre times dos Estados Unidos e Canadá, o primeiro representando o time de Montreal e o segundo de Boston. O foco inicial é a rivalidade entre os times, inspirada em times da vida real.
Mas de fato a grande sacada da série é a interação entre os dois protagonistas. As atuações são ótimas, a química é perfeita. O que o título entrega (e o sucesso estrondoso já deve ter deixado todo mundo sabendo) é que essa competição entre os dois astros esportivos em ascensão também esconde uma atração física mútua, que rapidamente se externa para o contato físico. Logo no primeiro episódio essa atração é visualmente explorada no chuveiro do vestiário, o que poderia ser clichê, mas funciona, e se estende para o quarto de um deles. A jornalista Letícia Arcoverde, em sua newsletter Mais perguntas que respostas (se não assinou ainda, recomendo), escreveu o texto Sexo, intimidade e a linguagem do romance em Heated Rivalry, em que destaca como sexo é a linguagem do conhecimento mútuo dos protagonistas nesse primeiro momento:
“Para além da troca de olhares no chuveiro do vestiário, os primeiros episódios têm longas cenas de sexo que nos ajudam a conhecer melhor os personagens: o fato de um deles estar morrendo de tesão mas dobrar as roupas antes de entrar na cama, o fato do outro soltar provocações para desmontar a tensão como forma de sondar se o parceiro também está gostando. Em tempos de jovens supostamente reclamando de sexo que não avança a plot em filmes, em Heated Rivalry essas cenas não são apenas cruciais para o enredo, no início elas são o enredo, porque a série retrata como duas pessoas estão se conhecendo, e naquele momento elas só se conhecem daquela forma. A comunicação entre dois jovens de 19 anos é cheia de falhas na maior parte do tempo, mas funciona na cama”. (Letícia Arcoverde)
Isso é muito bonito. Significa que nesse romance, dadas as restrições enfrentadas pelo ambiente de expectativas em torno de uma performatividade de masculinidade tradicional exacerbada e de consequente homofobia, há pouco espaço para a conversa nas interações. Qualquer ação que possa ser entendida como um deslize pode potencialmente prejudicar a imagem pública ou mesmo a carreira de cada um. Pelo menos é o que eles acreditam nesse momento. Mas isso não os impede de continuar se desejando, então os encontros precisam ser rápidos e furtivos e é dessa forma que tanto eles como as pessoas espectadoras se dão a conhecer, nos detalhes de personalidade de cada um. É no tato, é na pele.
Eu li uma entrevista com a autora dos livros (que infelizmente eu perdi e não vou poder linkar aqui) em que ela fala que chegou a ficar descrente com a possibilidade de adaptar os livros para o audiovisual, justamente porque as cenas de sexo eram tão cruciais para a construção dos personagens e ela não acreditava que alguém iria conseguir transpor isso (imagino que especialmente nos tempos de hoje, com todas as as discussões sobre elas serem inúteis e não serem importantes para a trama). Aqui elas SÃO a trama: elas SÃO a construção dos personagens, pelo menos nesse momento inicial. Então coreografar a forma como esses corpos interagem e se tocam é mostrar como é o comportamento de cada um dos dois. E é claro que o erotismo precisa funcionar para que o público acredite no romance, porque senão todos esses anos não fazem sentido.
É interessante também perceber que essas escolhas narrativas são muito bem trabalhadas em termos de linguagem. A câmera subjetiva é constantemente acionada emulando o olhar de um sobre o outro, projetando o do público sobre seus corpos. Planos detalhes destacam veias pulsando, a respiração, o movimento. Para um seriado com um orçamento tão enxuto, cada detalhe conta, e tudo está no olhar. É ele que comunica e ele constrói a noção de desejo que se converte em afeto.
A série não é sem seus problemas, e as personagens femininas, nesse mundo tão masculino, são coadjuvantes que atuam como meros acessórios incentivadores. Existe Rose (Sophie Nélisse), a atriz que de namorada vira melhor amiga e Elena (Nadine Bhabha), a melhor amiga que serve de fachada, Mas talvez a mais complicada de todas seja Svetlana (Ksenia Daniela Kharlamova), a amiga-amante de Ilya, cuja função é apenas para ancorar sua bissexualidade na narrativa.
Outro aspecto que pode causar estranhamento é a própria passagem do tempo. Alguns episódios podem pular vários anos de uma vez só. Mas com isso o peso dos encontros reiterados, do envolvimento crescente ganha forma.
Um grande acerto da série é o terceiro episódio, que existe de forma isolada e é adaptado do primeiro livro. Ele narra a relação entre o barista Kip (Robbie G.K) e o jogador veterano do time de Nova York, Scott Hunter (François Arnaud), que o conhece porque sempre pede um smoothie de frutas na sua lanchonete antes de uma partida. A relação entre os dois evolui e eles começa a morar juntos, mas Scott precisa manter o relacionamento escondido dos demais em virtude das mesmas pressões homofóbicas em torno de Shane e Ilya. (Nesse sentido só acho pouco realista que mesmo Kip, um aspirante a pós-graduando em história da arte, tenha corpo de jogador de hóquei. Seria bonito também ver outro tipo de corpo desejado e amado). O episódio é um bom balizador, mostrando um relacionamento que deu passos adiante, de coabitação, ao mesmo tempo em que demostra o peso de viver tendo que se esconder.
E esse talvez seja o ponto forte do seriado: para além das já famosas cenas de sexo caprichadas (e elas são muitas, realmente ardentes, para parafrasear o título): a narrativa se desenrola perfeitamente como um romance romântico, um crescendo de angústia e entrelaçamento de emoções que culmina na inevitável necessidade de Ilya e Shane ficarem juntos de alguma forma. Quando eu escrevi sobre Amores Materialistas falei que, pela convenção do gênero, que é baseado na repetição, na comédia romântica, ou no romance, nesse caso “se constrói habilidosamente a ilusão do amor romântico e apaixonado”. É um desejo carnal constante um pelo outro, mas que também é a urgência de permanecerem unidos, em um ambiente em que isso não parece possível. E a gente sabe que histórias de amor impossível, estilo Romeu e Julieta, costumam ser românticas. Aqui isso é muito bem representado.
Vencendo minha resistência inicial, a série mostrou a que veio e me conquistou de jeito: assisti a todos os episódios no mesmo dia. Com um romance cativante, Rivalidade Ardente entretém e emociona como poucos romances hoje fazem. Ainda bem que a segunda temporada já está confirmada, já estou esperando.
Rivalidade Ardente (Heated Rivalry) está disponível para streaming na HBO Max.



