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O Testamento de Ann Lee (The Testament of Ann Lee, 2025)

Publicado originalmente em 27/11 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.


Comecei a ver O Testamento de Ann Lee (The Testament of Ann Lee), dirigido por Mona Fastvold, sem saber nada sobre ele. Não tinha visto nada da cineasta, cujo filme anterior, Um Fascinante Novo Mundo (The World to Come, 2020), um faroeste sáfico, está morando na minha watchlist há anos. E nisso descubro que o roteiro é assinado por Brady Corbert, diretor do famigerado O Brutalista (The Butalist (2024), que foi escrito em parceria com… Mona Fastvold. E assim descobri também que são um casal e nesses últimos projetos colaborativos estão investigando as origens e raízes dos Estados Unidos contemporâneos. 

Nesse filme ela apresenta a história de vida da líder religiosa Ann Lee, nascida em 1736 em Manchester na Inglaterra. Desde criança ela tinha ideais muito próprias sobre a fé, e é retratada como alguém que chegava a reprovar as ações dos próprios pais, ao mesmo tempo em que não se encontrava nas práticas das igrejas disponíveis. A montagem, de forma interessante, pisca visões que perturbam a jovem Ann, interpretada  por Amanda Seyfried, com suas aflições e inquietações sobre a relação entre o divino e a carne. 

É quando ela conhece um pequeno grupo de cristãos chamados de shakers, dissidentes dos quakers (sim, aqueles da aveia). Assim como o grupo original, eles eram conhecidos pelo pacifismo, incluindo a objeção de consciência para não irem para guerras; e o igualitarismo, ou seja, se opunham à escravidão, e as mulheres tinham posição de igualdade dentro das igrejas, sendo, inclusive, pregadoras. A diferença, que deu origem ao seu apelido de “chacoalhadores”, é que música era central nos seus ritos e eles faziam aqueles tipos de “transes” em que as pessoas entram em um comportamento espasmódico de êxtase. Tudo isso, claro, era extremamente mal visto por outros grupos cristãos, que consideravam mulheres e pessoas não brancas “naturalmente” inferiores por ordem divina. 

No filme, ao ver um sermão de Jane Wardley (Stacy Martin), uma das lideranças shakers, Ann sentiu que ali era seu lugar de fé. Apenas para descobrir que, num país teocrático com o Reino Unido, minorias religiosas são perseguidas e presas. Conforme seu papel na igreja cresce, após uma prisão, ela resolve que a saída é guiar seus féis para o Novo Mundo, para então construir uma comunidade shaker nos Estados Unidos. 

Seus fiéis porque o filme cobre toda a vida de Mãe Ann Lee, como ficou conhecida, e com o passar do tempo ela se tornou não só a figura central da igreja, como uma espécie de Messias. Na doutrina shaker, homens e mulheres são iguais porque Deus seria dual, sem gênero e ao mesmo tempo masculino e feminino. Então, para seus seguidores, ela era a segunda vinda prometida de Jesus, que concluiria um ciclo sagrado: Deus veio à terra primeiro como o filho de um carpinteiro e depois como a filha de um ferreiro. Chega a ser bonito como conseguiam ver uma poética como essa em suas próprias crenças.

A mudança para os Estados Unidos não foi sem turbulências, pois, afinal, a terra da liberdade nunca acolheu minorias. Mas a maior mudança da doutrina de Ann Lee em relação às anteriores (e fruto de conflito dela com alguns seguidores e, claro, com o seu marido, William (Lewis Pullman), foi a exigência do total celibato para a dedicação às obras de Deus. Para ela, o desvio dessa atenção total é o que leva a população à queda. E com isso, a comunidade só pode crescer por meio de adoção ou de conversão. Todos dormem em camas de solteiro e a igreja é separada com mulheres de um lado e homens de outro. É curioso como a quebra de dogmas se manifesta na construção dogmática de novas regras. 

E nesse sentido o filme inteiro é trabalhado com uma estética instigante. Porque se a crença shaker por um lado abre mão do prazer do corpo, por outro demanda o movimento do corpo para se manifestar. E a devoção a Deus é manifestada, muito, por meio da música. Então o que não mencionei até agora é que trata-se, muito adequadamente, de um musical. Os números de dança, criados por Celia Rowlson-Hall, são enérgicos, com coreografias hipnóticas e movimentações abruptas, em espasmos, condizentes com o tipo de transe religioso que se espera testemunhar. A voz de Amanda Seyfried ressoa doce e casa com as melodias. O resultado é complexo e inegavelmente lindo. 

Mas algo não funciona o tempo todo na narrativa. Ao apresentar a religiosa pelo olhar de uma de suas seguidora, que narra o filme em voz over, não há nuance. Em certo momento conta-se que, diante de juízes ela teria falado em 12 ou então 72 línguas. É claro que há uma certa brincadeira com o exagero dos relatos grandiosos de então, mas, ainda assim, ela é apresentada do começo ao fim, como essa espécie de santa abnegada, sem espaço para o questionamento dessa imagem.

A religião e o próprio processo colonial são relatados como algo até mesmo progressista, por terem uma liderança mulher. O filme sequer menciona que as terras ocupadas pelos shakers eram de território indígena Mohawk (fato que eu precisei ler em outras fontes). Faltou imbuir a narrativa de mais ambiguidade em relação à personagem, encontrar uma forma de contar sua história sem necessariamente endossar a sua versão ou uma visão única.

De toda forma, para além de toda a beleza estética, o resultado final é estranho e frio, e alguns momentos são episódicos, o que atrapalha a conexão com a protagonista, que muitas vezes é mais um conceito do que uma pessoa. Mesmo que a persona religiosa prevaleça, para que uma visão de espiritualidade fosse mais efetiva, precisaria ser mais cálida ou encontrar outros afetos para além da intensidade das performances de dança.

É difícil não comparar as duas parcerias entre Fastvold e Corbert. Ambos escrevem juntos. Ambos os filmes são biografias (uma de uma pessoa ficcional e outra não) que abarcam um grande espaço de tempo, tentando entender a própria formação da identidade dos Estados Unidos por meio de religião. Ambos se recusam a olhar para o uso de religião como justificativa de processos coloniais. Ambos encontram a violência hipócrita no cerne daquela nação. Mas a partir daí cada um tem sua própria direção e os resultados não poderiam ser mais diferentes. O do ano passado é absolutamente estéril e duro: não entrega nada em termos estéticos e emocionais. O desse ano experimenta mais, ainda que falhe em criar conexões emocionais, mas acerta na experimentação artística. Afinal, toda a bela reflexão dual da religiosidade, manifestada na igualdade entre feminino e masculino, acaba por resultar em uma visão um tanto quanto carola e quase descamba em um Damares: o Musical. Mas o filme não se perde porque exulta nas explosões visuais e sonoras que instigam sensorialmente. Seyfried é pura entrega. A experiência de assistir a O Testamento de Ann Lee é complexa, confusa, estranha, intensa e interessante, mas jamais enfadonha. 

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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