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[Tribeca 2026] Deepfake, de Matt Eames

Este texto faz parte da cobertura do Tribeca Film Festival 2026, que ocorre em ocorre em Nova York de 3 a 14 de junho.

Há uma tentativa recorrente no cinema contemporâneo de desvendar o que as projeções da mídia fazem com as pessoas. A cobrança pela juventude eterna, por exemplo, guiou A Substância (2024), de Coralie Fargeat, filme que rendeu a Demi Moore sua primeira indicação ao Oscar. Assistir a Deepfake (2026), de Matt Eames, me fez retornar às discussões que cercaram o lançamento do body horror de Fargeat, mas os paralelos ficam na superfície. Integrante da programação do Festival de Tribeca 2026, o filme de Eames usa a obsessão com redes sociais e aplicativos para examinar as cobranças impostas à geração dos 30 e poucos anos.

Eames, que também assina o roteiro, coloca em cena Jane (Jessica DiGiovanni), uma mulher em busca de novas amizades para escapar de um círculo social frequentado por seu ex-namorado. Quando a conhecemos, ela está criando um perfil no que parece ser um aplicativo de relacionamentos, mas que depois descobrimos ser uma plataforma voltada para contratar amizades (isso mesmo).

Jane testa diferentes versões de si mesma para se encaixar no que acredita ser atraente nesse tipo de ferramenta, e é interessante como o filme evidencia isso logo em sua apresentação. Por meio de uma narração em off, acompanhamos as informações que ela tenta inserir em seu perfil. A cada nova tentativa, a personagem abandona detalhes genuínos sobre quem é para construir uma versão que julga mais atraente, mas que, no fundo, revela cada vez menos sobre si mesma.

O filme habita um universo de relações descartáveis. Para cada nova carência de Jane, existe um aplicativo pronto para preenchê-la. Nesse sentido, Deepfake também evoca um dos episódios mais lembrados de Black Mirror, Nosedive, em que a personagem de Bryce Dallas Howard é levada à loucura pela corrida por aprovação e likes promovida pelas redes sociais. No filme de Eames, a crítica também é ácida à engrenagem que sustenta essas plataformas, da precarização do trabalho mediado por aplicativos à pressão para que as pessoas (especialmente as mulheres) se enquadrem em padrões estéticos e passem a enxergar como defeitos características que antes nunca haviam lhes incomodado.

Jane deixa sua identidade à mercê da amiga contratada (Sophia Lucia Parola) e de uma espécie de consultora de imagem (Jocelyn Weisman), e as duas tomam conta de sua vida de tal forma que chega um momento em que seu perfil nas redes sociais já não exibe mais seu rosto, mas o de uma modelo contratada (adivinhem) por um aplicativo criado para suprir exatamente esse tipo de necessidade.

Terminei Deepfake meio em dúvida se o filme soube como concluir sua história, mas a verdade é que, assim como Jane, ele envereda por um caminho sem volta. A imagem do apartamento ocupado apenas por ela no início do filme contrasta com a festa realizada naquele mesmo espaço no final da história, sem sua participação, porque a personagem já não importa naquela equação. Sem oferecer respostas definitivas sobre se as redes sociais causam ou apenas potencializam o vazio de quem as utiliza, o filme de Matt Eames soa quase como uma fábula sobre as mentiras escondidas por trás de uma foto no Instagram.

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

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