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Vladimir (2026)

Publicado originalmente em 26/02 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.


Esses dias eu mandei lá no grupo de telegram do FpE um trailer de uma minissérie nova da Netflix chamada Vladimir. Ela é criada e roteirizada por Julia May Jonas, autora do livro de mesmo nome e dirigida por Shari Springer Berman & Robert Pulcini, Francesca Gregorini e Josephine Bornebusch. A premissa é que uma professora universitária de literatura, interpretada por Rachel Weiszs, em um casamento de longa data com outro professor do mesmo departamento, John (John Slatery). Acontece que seu digníssimo marido vem sendo acusado de assédio sexual por algumas alunas.

A sua vida se complica com a chegada do novato professor-estrela Vladimir, interpretado por Leo Woodall, vindo de Bridget Jones 4. Com esses dois papéis recentes, o ator já entrou no typecast de “louca pelo garoto”, para parafrasear o título daquele: o boy por quem a mulher mais velha perde a cabeça. E é exatamente isso que acontece: a protagonista perde as estribeiras pelo professor do momento, recém publicado, no frescor do otimismo acadêmico. 

O trailer promete uma história sobre uma mulher fantasiando com um homem mais jovem (e entre esse, o próprio Bridget JonesBabygirl e Sonhos, essa parece ser realmente uma tendência narrativa nesse momento). E ela é permeada por comentários ácidos e sardônicos feitos por meio de quebra de quarta parede. Também promete que a narrativa vai abrir espaço para exploração do erotismo, mas fica a pergunta: é real ou imaginação?

O que não se espera é que a trama lide com tantas questões sobre o terreno pantanoso da carreira acadêmica. A professora que outrora era vista como moderna e descolada pelos alunos hoje virou cringe, porque os valores da geração Z mudaram. Ela diz que sabia que o marido tinha relacionamentos extraconjugais, que eles tinham seu acordo de relacionamento aberto, embora ela mesma já não o usasse há muito tempo. De acordo com ela, para sua geração, negar que universitárias podem querer se relacionar de forma consensual com seus professores é negar sua agência enquanto mulheres adultas. 

Essa afirmação me lembrou da entrevista da Fernanda Torres no podcast da Vera Iaconelli, Isso não é uma sessão de análise (inclusive recomendo, é ótima). Eu não vou lembrar as palavras exatas, mas ela conta que na geração dela, todas as atrizes apareciam nuas em filmes porque tinha a coisa da pornochanchada, mas também de uma postura de ser contra o conservadorismo do cinema de antes. E ela acha que em retrospecto, então, o questionamento de agora é bom, mas ela também acha que tem um “policiamento” (palavra dela) e o que a extrema direita fez “bem” foi tomar para si a liberdade de expressão e o desejo e que “a gente” (entendo que ela quis dizer as pessoas de esquerda ou progressistas) temos que fazer uma negociação [dessa liberdade de expressão ou desejo].

Daí fiquei pensando que para minha geração sempre se usa o argumento de dinâmica de poder, que toda relação que é baseada em dinâmica de poder é inerentemente abusiva, seja na diferença de idade, ou na ordem da hierarquia, ou no caso das personagens retratadas, os dois. Mas para alguém como a personagem (sem nome) de Rachel Weisz faz parte das escolhas (às vezes falhas) de ser uma mulher adulta, que até uma geração atrás talvez seque pudesse sair de casa e frequentar uma faculdade. São pontos de vista de que complexificam uma narrativa.

E apesar desses questionamentos iniciais, claro, que John se mostrou um grande de um monstro. E em meio a isso tudo ainda há seu próprio papel e as cobranças por que passa: por que não faz um pronunciamento público para os membros do campus? Por que não conversa com suas alunas e seus alunos, suas orientandas e seus orientandos diretamente sobre o assunto? Por que não pede divórcio? Junto com Sorry, Baby e Depois da Caçada, Vladimir compõe um retrato (nem sempre muito realista, talvez) das dinâmicas de poder, mas também das cobranças políticas que envolvem a carreira acadêmica. E assim, as ações do marido impactam negativamente sua própria carreira. 

Essa diferença geracional também é encarnada de maneira próxima pela filha do casal, Sid (Ellen Robertson), que é advogada e vai ajudar o pai nas audiências acadêmicas, ao mesmo tempo em que lida com seu próprio relacionamento, que está em um momento complicado, em que sua companheira deseja se tornar mãe. A convivência na casa dos pais mostra que as expectativas de relacionamento, família e vida adulta não são como parecem. . 

Já Vladimir, por trás de sua fachada de garotão, também tem uma família, com esposa e filha pequena, o que é um balde de água fria para a heroína (?) da série, que resolve se tornar amiga a qualquer custo de Cynthia (Jessica Henwick), a esposa, que também é nova professora no departamento. E ele fica amigo da protagonista, mas é tudo desconcertante, uma sucessão de erros indescritíveis sem spoiler

Até aqui talvez eu fiz parecer que tudo é muito mais denso do que realmente é. Não me entenda mal, até tem temas interessantes. Mas a série vai degringolando de um jeito na obsessão dessa mulher por Vladimir e a gente fica olhando tudo e pensando “amada, ele nem é isso tudo, pra queeeê”, e ainda assim não consegue parar de olhar, num misto de vergonha alheia e fascinação, porque Rachel Weisz, sim, é maravilhosa, mas questionando a sanidade dos fatos. Tudo bem que são apenas 8 episódios de 30 minutos, então é uma maratona boa de fazer num fim de semana. E o desfecho é daqueles que lembra redação da terceira série. Fiquei tão constrangida, que fui ler as avaliações do livro na amazon para ver se era isso mesmo. Aparentemente é. E apesar do final bobagento, dá pra se divertir com o processo (não se isso faz sentido). 

Vladimir está disponível em streaming na Netflix.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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