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[50ª Mostra de São Paulo] Black Zombie (2026)

Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.


O documentário Black Zombie, dirigido por Maya Annik Bedward, já entrega sua temática no título, que é uma referência direta ao filme Zumbi, A Legião dos Mortos (White Zombie), de 1932, obra adaptada de um livro de William B. Seabrook. Ele era um viajante e foi para o Haiti, onde conheceu o conceito de zumbi. Para os haitianos ele define uma pessoa presa à escravidão na plantação de açúcar depois da morte. Seabrook inicialmente pensou que se tratava de uma superstição local, até que foi levado por locais para ver plantações e viu pessoas que mal o olhavam nos olhos e não respondiam quando falava com elas, e então acreditou nas histórias. O irônico é que se tratavam de empreendimentos mantidos por empresas estadunidenses com regimes similares a escravidão moderna, e era por isso que aquelas pessoas, exaustas, estavam incapazes de reagirem. Mas convencido da veracidade dos relatos ouvidos, escreveu um livro repleto de clichês racistas e vendeu os direitos de adaptação para o cinema. E assim nasceu o zumbi hollywoodiano e sedimentou o monstro como algo vinculado ao horror.

Não só a figura era monstruosa, como nos primeiros anos, era utilizada como uma forma de provocar o medo justamente pela possibilidade de jugo: a figura dominada que aparece para as personagens brancas como o contraste da perda da autonomia. Todas essas representações sempre foram carregadas de imagens racistas. Além disso, o estigma respingou, também, para a própria religião vodu, que foi retratada de maneira violenta ao longo de décadas, construindo um imagético repleto de inverdades.

A definição de zumbi vai mudar quando George Romero lançou A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968), com seus zumbis que agora não mais personificam a escravidão, mas são mortos que voltaram à vida para comer carne humana. Uma mudança de paradigma que desloca o senso de horror em um momento histórico tenso na própria história dos Estados Unidos. Nesse sentido, o protagonista interpretado por um ator negro (Duane Jones), sobrevivendo às violências desses mortos-vivos e recebendo a empatia de quem assiste, em plena luta dos direitos civis, é mais que significativa. O depoimento de John Russo, roteirista do filme, que explica como foi compor essas nova versão das criaturas e como não pensaram no impacto social do filme na época é muito interessante.

Nem todos os depoimentos parecem cabíveis em uma duração tão enxuta. Entendo que o de Thea Munster, criadora do Zombie Walk seja para dar conta do impacto cultural do monstro na cultura pop contemporânea, mas Slasher entrar como fã do gênero é completamente dispensável. Por outro lado, um dos aspectos que mais agregam em termos de informação ao documentário é trazer a perspectivas de pessoas do Haiti, especialmente sacerdotes vodus, falando do impacto do racismo de Hollywood sobre sua religião. Quem nunca viu desde animações para criança com personagens usando bonecas para espetar e causar dor até filmes com cenas de tortura sedo chamadas de vodu? Nenhuma dessas práticas fazem parte da religião, que foi criada durante o período da escravidão a partir de elementos oriundos da cultura de diversos povos diferentes, perseguida e proibida pelos colonizadores e disfarçada em ritos católicos para poder sobreviver. Pelas indumentárias e práticas mostradas no filme, é semelhante às religiões afro-brasileiras (que passaram por processos de perseguição e estigmatização também, diga-se de passagem).

O filme, dessa forma, analisa como aconteceu essa apropriação do conceito haitiano de zumbi por Hollywood, o impacto disso na cultura e religião do país de origem, o racismo nas representações originais, como essa origem foi se perdendo essa origem ao mesmo tempo que as imagens foram ficando cada vez mais violentas, e por fim, qual o sentido do zumbi contemporâneo e suas implicações. Black Zombie pode trazer algumas informações que fãs do gênero já conhecem, mas o faz de forma extremamente bem apresentada e informativa, compondo um bom histórico para os fãs do horror em específico e do cinema em geral.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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