[50ª Mostra de São Paulo] Breves Comentários Parte 3
Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.

A Terra de Meu Pai (Fatherland, 2025)
No filme dirigido por Paweł Pawlikowski, Sandra Huller interpreta a filha Erika, filha do escritor Thomas Mann, que no momento também ocupa a função de sua tradutora e interprete enquanto ambos viajam. Ele está exilado nos EUA desde 1933, a história se passa em 1949. Ele será homenageado tanto na Alemanha Ocidental como na Oriental. Em certo momento perguntam a ele se não se considera um traidor por ter deixado o país, mas ele diz que só está ali (e o trabalho homenageado porque foi embora). Para o autor, qualquer lugar onde se fale alemão pode ser sua pátria, ao mesmo tempo em que já garantiu sua cidadania estadunidense. Para ela ela não é tão simples. Profundamente antifascista, esse traço é visto como “comunista” e por isso seu pedido se cidadania foi negado três vezes no outro país. Já no de origem, o que resta é uma sombra constante do nazismo perturbando. O título A Terra de Meu Pai portanto, não poderia ser mais irônico, pois sei pai abunda em pátrias para clamar, enquanto ela se vê deslocada, sem país. Seu irmão, do qual só vemos brevemente, como um espectro queer sem acolhida, talvez esteja ainda pior. Ficcionalizado a partir da viagem real que o autor fez, mas com sua esposa, e não sua filha, essa mudança serve para reforçar a ruptura geracional. O filme traça paralelos entre os projetos falidos de ambos os países, Alemanha Ocidental e Oriental, capitalismo e socialismo, representados na figura do Mann, na desumanização política mesmo pela arte e quem segura o fio de humanidade da narrativa extremamente fria é Erika. Crítica completa da Natália Bocanera de nossa cobertura em Cannes aqui.


Amor Possível (Possible Love, 2026)
Um casal de grevistas, Mi-ok (Jeon Do-yeon) e Ho-seck (Sul Kyung-gu), é demitido de seu emprego em uma indústria. No novo filme de Lee Chang-dong, ele examina as relações de classe e a fetichização da classe trabalhadora na Coreia do Sul hiper-capitalista. A documentarista Yo-ji (Cho Yeo-jeong) deseja retratar a história do casal e no processo descobre que o silêncio do homem provem da violência policial sofrida durante a luta. A câmera da cineasta nunca desliga, numa relação desigual, que se apresenta como amizade, mas está sempre pronta a roubar imagens para seu próprio filme. A realidade distante entre as vidas de cada um se escancara quando conhecem as casas uns dos outros. O marido de Yo-ji, Sang-woo (Zo In-sung), a julga insincera, mas mesmo ele se vê enredado em uma confusa relação de flerte que ultrapassa a barreira de classe. É muito interessante como o diretor constrói um senso de desejo pelo outro, e torna interessante sua a vida e o seu modo de ser, de modo atraente e empático, como um sopro de (outro) tipo de liberdade, antes de chamar cada dupla novamente para seu ponto de partida. Amor Possível, nesse sentido, não deixa de ser um título curioso.


Behemoth: Uma Vida Composta em Peças (Behemoth!, 2026)
O filme, dirigido por Tony Gilroy, acompanha Alex Serian (Pedro Pascal), um violoncelista em diferentes períodos de sua vida, até quando, no passado se envolve com Nadia (Eva Victor), quando ambos tocam na mesma orquestra. Trata-se da melhor atuação de Pascal no cinema e a participação de Victor é muito boa. Já Olivia Wilde, como a esposa de um patrocinador com quem Alex tem um caso, demonstra mais uma vez excelente timming cômico, mas o o registro se perde pois parece que está em um filme com outro tom. A montagem é confusa e nem sempre fica claro em qual tempo está se passando a história. Já o uso de música é muito bom: quando os artistas fazem trabalhos paralelos gravando trilha sonoras de filmes e essa trilha se espalha se tornando a trilha do próprio filme a que estamos assistindo. Mas em Behemoth o drama em si é um tanto quanto convencional.


