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[50ª Mostra de São Paulo] Everytime (2026)

Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.


Muitas pessoas estavam comentando sobre o filme Everytime, escrito e dirigido por Sandra Wollner, que passou por Cannes e gerou burburinho. Com cada uma que comentou comigo eu perguntava se tinha assistido ao filme anterior da cineasta, O Problema de Nascer (2020), que passou na Mostra de São Paulo durante a pandemia. E, para minha surpresa, embora aquela edição tivesse sido online, não encontrei ninguém que assistiu a ele. A minha pergunta era porque esse meu primeiro contato com a diretora me provocou e me deixou me deixou pensativa. É daqueles trabalhos que ficam na memória. A trama é sobre uma menina chamada Elli, que mora com seu pai. Só que na verdade ela é uma androide e ele abusa sexualmente dela, ao mesmo tempo em que falseia suas memórias, criando momentos de sua vida que nunca existiram. O filme parece investigar os limites éticos da relação humano-máquina de uma maneira bastante extrema ao usar uma criança como sujeita. Na época, casou desagrado em muitas pessoas, mas eu gostei.

Agora, em Everytime, uma das protagonistas é Jessie (Carla Hüttermann), uma adolescente que está no colegial e namora com Lux (Tristán López). Certo dia, na véspera de viajar com sua mãe Ella (Birgit Minichmayr) e sua irmãzinha Melli (Lotte Shirin Keiling) para a praia em Tenerife, ela sai escondida com o namorado para dançar. Os dois usam drogas, dançam felizes a noite toda, passeiam por um bosque, apreciam a beleza das coisas, e, por fim, sobem ao topo de um edifício para ver o sol nascer. Enlevada pela esfera laranja cujo maravilhamento é amplificado pela substância consumida, Jessie não se atenta para a borda do prédio e despenca lá do alto.

À mãe, à irmã e ao namorado restam um luto compartilhado. A ele cabe ainda ainda uma culpa que não necessariamente é acolhida. Quase adulto, mas ainda um menino, chora em posição fetal, e Ella o pega no colo e diz “você deveria ter cuidado mais, deveria ter cuidado mais”. É como se ela ao mesmo tempo aceitasse, mas nunca aceitasse.

Juntos, os três vão a Tenerife, ele ocupando o espaço que deveria ter sido de Jessie. Há um olhar constante para as últimas fotos registradas no celular da menina. Ao mesmo tempo, Melli retorna ao jogo em que o mundo é composto de blocos, similar a Minecraft, que as duas jogavam juntas. E também manda mensagens para o número de celular de Jessie, mesmo sabendo que ninguém vai receber. Até que um dia aparece na tela três pontinhos, indicando que alguém está digitando (provavelmente alguém que comprou o número para usar em um novo celular), mas não tem tempo de ver a resposta porque sua mãe quebra seu celular sem querer. Juntando esses elementos é possível afirmar que Wollner, nessa amostragem de dois filmes, está interessada na relação entre infância e crescimento, memória, e tecnologia. A própria noção de luto é investigada por meio desses dispositivos, acionando as recordações e ajudando a criar novas.

Mas o próprio título Everytime, “toda vez”, dá pistas de que essas lembranças não são assim tão simples. Em certo momento Melli encontra uma bebê perdida que é a cara de sua irmã quando era bebê. Em outro ela fala que um acontecimento se deu quando Jessie estava na faculdade. Mas como se ela morreu antes de ir? O tom onírico dos dias na praia vai embaralhando cada vez mais o passado, o presente e o futuro da percepção das três personagens. Na verdade sequer estou certa de que Lux realmente esteve lá. Só sei que as memórias reais e digitais se fundem ao ponto que até mesmo o videogame com o seu pôr do sol quadrado, espelhando o nascer do sol derradeiro de Jessie, fazer parte daquela realidade. São muitas camadas de uma dor sentida, expressa em uma mistura de elementos que podem ou não ser simbólicos.

Esse é o tipo de filme que garante uma resposta emocional imediata, mas que permanece muito tempo na mente, martelando uma meditação posterior. Não só isso, ele provavelmente se beneficiaria de ser assistido uma segunda vez, para ser melhor degustado e destrinchado. Everytime é uma obra para ser apreciada com uma calma que nem sempre um festival privilegia, mas comprova o talento que Sandra Wollner já vinha demonstrando para lidar com seus temas propostos.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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