Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

[50ª Mostra de São Paulo] Di Cavalcanti (2026)

Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.


Depois de ter cravado sua marca no cinema brasileiro com sua trilogia composta pelos filmes Mar de Rosas (1977), Das Tripas Coração (1982) e Sonho de Valsa (1987), a cineasta Ana Carolina teve uma filmografia intermitente, passando por um intervalo até Amélia (2000) e com seu filme mais recente, Paixôes Recorrentes sendo lançado em 2022. Agora retorna novamente com um documentário intitulado Di Cavalcanti, sobre o artista modernista que ajudou dar a cara ao movimento moderno no país.

Com inventividade, a cineasta foge das ferramentas usuais da não-ficção e se apropria da encenação para narrar essa vida e obra. Pega emprestado o ator Julio Adrião, que interpreta um personagem apaixonado pela figura do pintor, e que passa a narrar todos os detalhes dos acontecimentos. Ele tem cartas do retratado, que lê para outras pessoas, ao mesmo tempo em que comenta os momentos históricos e contextualiza os detalhes que importam para que cada fato se dê. Em algum ponto da narrativa que se cria, Tuna Dwek se junta a ele. E aí momentos da vida do artista também são recriados em flashback.

O filme relata a participação do pintor na concepção da Semana de Arte Moderna de 1922, seu engajamento político, especialmente sua filiação comunista, a falta de recursos econômicos e como isso afetou constantemente sua carreira, o impacto das mudanças de regime político na sua vida profissional, e apesar disso, o quanto se manteve relevante mesmo após a deflagração da ditadura militar. É interessante como quando falamos de grandes nomes da história da arte brasileira, poucas vezes temos um contexto maior sobre de onde essa arte provém.

Existe uma certa teatralidade na encenação, cujo exagero pode desagradar alguns, mas que também garante o dinamismo da entrega. Di Cavalcanti é um documentário pouco convencional, realizado com a confiança de uma veterana que, para além de entregar dados e fatos sobre a vida do retratado, se propõe a explorar a linguagem e como contar essa história.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *