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[79º Festival de Cannes] A Woman ‘s Life

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


No contexto brasileiro, a medicina está tão atrelada ao elitismo que pouco nos lembramos que trata-se de uma profissão que, sim, é elitizada, mas ainda pertence ao rol da classe trabalhadora. O médico é o operário da saúde que não pode delegar seu ofício, que está condicionado exclusivamente aos estudos para poder exercê-lo e a depender da área de especialidade, que se submete a jornadas sobre-humanas (ou desumanas) de trabalho. Um médico não se constrói com herança, não se torna médico por indicação.

O cinema permite que tracemos paralelos entre as culturas de nossas terras em comparação com terras estrangeiras. Nesse contexto, trata-se de um exercício interessante conhecer algo semelhante à realidade de outros lugares, em que a figura do médico parece estar mais dissociada de uma ideia burguesa. É, ao menos, o que sinto em filmes como Lady Bird, que insere a protagonista numa família que vive com poucos confortos e que é sustentada pela personagem interpretada por Laurie Metcalf. E é, de alguma forma, o que sinto com A Woman’s Life, que integra a competição do 79º Festival de Cannes, dirigido pela diretora Charline Bourgeois-Tacquet.

A protagonista Gabrielle (Léa Drucker) é uma médica-cirurgiã e diretora do departamento de cirurgia de um hospital. Quando não está operando, está ao telefone resolvendo pendências burocráticas do hospital, os problemas de sua equipe, e a demanda laboral faz com que possa dedicar pouco tempo à família e cuidar da mãe adoecida com Alzheimer. Ela optou por não ter filhos, mas vive um casamento de longa data. 

Gabrielle faz tantas coisas ao mesmo tempo que acompanhar as  inúmeras funções a que se dedica é um desafio. Não há respiros em sua fala, não há pausas em seus movimentos, e ainda assim, apesar do notório caos e desgaste contínuo ao qual parece acostumada, raramente a vemos em momentos de irritação. Muito embora faça parte do mundo da medicina há muitos anos, trata-se de uma profissional que não se deixou perder nas possibilidades de mecanização de seu trabalho, e nem abandonou a humanidade perante seus pacientes.

É o ritmo agitado e incessante imposto por seu ofício que me recorda o posicionamento do médico na classe trabalhadora. A intensidade da jornada de trabalho e a ausência de tempo livre em prol da dedicação da vida alheia em seu momento mais frágil e demandante de cuidado, não deixa dúvidas de que a ideia de elitização vem, naturalmente, de eventual recompensa financeira, porém, em tratando-se de remuneração, a paralisação do trabalho, invariavelmente, significa não ganhar. Ou seja, segue sendo meio de sustento.

É admirável observá-la, já madura, cheia de energia e se permitindo vivenciar novas experiências. Bourgeois-Tacquet a faz casada, mas livre, a faz uma profissional claramente workaholic, mas humana. Sua vida multifacetada é dividida em onze capítulos pela diretora, e o primeiro deles é denominado, justamente, “I want it all”. Essa ânsia por fazer tudo e dar conta de tudo é bastante definidora da personalidade de Gabrielle e daquilo que, para além do trabalho, move sua cadência acelerada.

A turbulência também é definida pelo som incessante e enlouquecedor do hospital. Se os próprios aparelhos hospitalares já causam, por si só, ansiedade por seus bips constantes, já que a expectativa de qualquer mudança nessa constância sonora pode significar um risco, ao fundo, essa ansiedade se mescla com o perturbador bater de martelos e máquinas em funcionamento de uma obra que acontece do lado externo. O som, unido à desordem da imagem trazida pelo fluxo de pessoas em movimento, expressa o nível de tensão daquele ambiente de trabalho. A sensação que fica é que qualquer tempo é propício para um burn out.

O único respiro, de fato, é o passo que ela se permite em direção à liberdade. Gabrielle inicia um relacionamento extraconjugal com uma mulher mais jovem, Frida (Mélanie Thierry), no que entendemos ser sua primeira experiência lésbica, e viaja para os Alpes italianos com ela numa cabana. Ali, no isolamento, os sons e a agitação dão lugar a sonecas no meio da tarde, longas conversas, convívio de qualidade, paixão e sexo. Há, portanto, na mesma pessoa, uma possibilidade infinita de mundos.

Há uma determinada cena de discussão matrimonial em A Woman’s Life em que o marido desabafa a respeito de tudo que Gabrielle diz que ele faz de forma equivocada, se colocando na posição de imperfeito em comparação a uma suposta perfeição da esposa, essa mulher que dá conta de tudo. Veja-se, porém, que ela dá conta de tudo e quer tudo. Os capítulos finais coroam sua humanização: quando ela percebe que não pode ter tudo, deixa que a imaturidade e o desespero tomem conta dela sem sequer escondê-los. 

Talvez seja aí que A Woman’s Life encontre sua maior honestidade: compreender que humanizar Gabrielle não significa transformá-la em exemplo de equilíbrio ou força inabalável, mas permitir que ela falhe, deseje demais, se perca e aja com egoísmo. Bourgeois-Tacquet não julga, mas sim reconhece a exaustão de uma mulher que passou a vida inteira tentando sustentar todas as estruturas ao seu redor sem jamais admitir as próprias insuficiências. Quando, enfim, elas escapam, não há grande punição moral, mas a constatação bem humorada de que ninguém consegue existir plenamente em todos os mundos que escolhe habitar.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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