[79º Festival de Cannes] Nagi Notes
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
As emoções, sentimentos e sensações provocados pelo cinema não dependem, necessariamente, de estímulos muito explícitos para que sejam percebidos pelo espectador. Há espaço para que extravagância e sutileza coexistam como expressão artística. Entretanto, é inegável que, quando a intensidade emotiva ecoa do singelo ou mesmo da constância, surpreendendo justamente porque não esperamos seu surgimento, o sentir facilmente se converte em admiração pela capacidade do cineasta e por sua compreensão humana, que o leva a extrair muito daquilo que aparentemente parece pouco.
São muitos os nomes que nos levam ou levaram a tal estado emotivo através do cinema. Especialmente em Nagi Notes, primeiro filme da competição exibido no 79º Festival de Cannes, dirigido por Koji Fukada, é impossível não pensar em Yasujirō Ozu como fonte primária para sua existência. A constância rítmica e a delicadeza das nuances quase imperceptíveis do tom fílmico fazem com que o espectador percorra os estágios de uma meditação. Primeiro, a concentração aguçada pela curiosidade ou pela predisposição à abstração. A distração ou a desconexão são naturais a esse processo de permanência, causando, invariavelmente, alguma medida de tédio. Em determinado momento, há o resgate do devaneio, o retorno do foco à respiração, para que, subitamente, o ápice sensorial ou emocional se imponha. Claro que Fukada não é Ozu. Entretanto, não apenas a inspiração é evidente, mas também o alcance desse semelhante estado contemplativo.
Nagi Notes encontra sua temática no retorno às raízes e no contraste entre o urbano e o interiorano, através da figura de Yuri (Shizuka Ishibashi), uma arquiteta bem-sucedida de Tóquio e recém-divorciada, que viaja para Nagi, cidade rural situada no distrito de Katsuta, para visitar sua ex-cunhada e amiga, Yoriko (Takako Matsu), uma artista especializada em esculturas de madeira, além de posar como modelo para seu novo trabalho. A estadia de Yuri gradativamente se expande aos habitantes locais e ao ambiente que ela passa a ocupar, fazendo surgir novas amizades, interesses amorosos e o fortalecimento de sua relação com Yoriko, a ponto de acompanharmos, pouco a pouco, a integração da mulher da cidade grande à vida pacata e rural daquele espaço.
Tal qual Retrato de Uma Jovem em Chamas, enquanto a modelo posa, a artista a decifra, seja pela observação, seja pela intimidade que se abre através do diálogo decorrente das horas de trabalho. A conversa permite a Yoriko conhecer novos prismas da amiga, vínculo que, ao mesmo tempo em que possibilita o detalhamento e a precisão da escultura, aprofunda a relação das duas em perspectivas antes desconhecidas. Grande parte do estado meditativo proporcionado por Nagi Notes nasce desses momentos, pois a atenção dedicada às palavras trocadas e à madeira talhada para dar forma a um rosto expressivo é intensa, e a artista, capaz de conduzir simultaneamente ambas as atividades, nos cativa em seu ofício a ponto de nos colocar em seu lugar, na tentativa de compreender aquela mulher que, aos poucos, abandona as vestimentas da cidade grande para aderir às roupas simples do interior.
Paralelamente, o caminho de Yuri se cruza com o de Haruki (Kawaguchi Waku) e Keita (Kiyora Fujiwara), dois adolescentes locais que transitam livremente pela casa de Yoriko e que também gradativamente se aproximam da visitante. A presença dela parece encorajar os meninos a compreenderem o sentimento que nutrem um pelo outro, e o romance queer passa a se afirmar em diferentes gerações nessa cidade conservadora em que a homoafetividade não se expressa publicamente. A afronta a esse conservadorismo parte dos mais jovens, mas também abre espaço, na mesma medida, para que a relação enigmática entre as amigas avance de forma sutil, sem a necessidade de definições ou rótulos.
Fukada faz da arte, outrossim, um caminho para a reflexão a respeito da idealização da imagem, da criação das musas em relação às pessoas que existem para além delas, aos seres humanos que habitam o mistério eternizado pela expressão artística. Yuri é reconhecida por Keita quando chega à cidade porque ele já havia visto seu rosto desenhado, e o pai do garoto se apaixona por ela antes mesmo de conhecê-la, igualmente impactado por essa imagem. A arte fundamentada no ser humano representa apenas uma parcela ínfima e momentânea de toda uma existência, à qual atribuímos complexidades e mistérios que nem sempre correspondem à realidade – e a expectativa inevitavelmente caminha lado a lado com a frustração.
No mais, Nagi Notes não é somente sobre as pessoas que habitam Nagi, mas também sobre a própria cidade e sua cultura. O meio influencia as escolhas, o modo de vida, a paz e os conflitos dos personagens, que percorrem seus caminhos, trabalham no pasto e se exercitam pelas trilhas locais. Os ofícios das protagonistas dizem muito sobre os conceitos de lugar, habitat e lar. Yuri é arquiteta de grandes e imponentes edifícios, símbolos da ideia de autoridade associada à cidade. Yoriko, por sua vez, talha a madeira e revela o desejo de doar suas obras a espaços públicos, aleatórios e ao ambiente natural, para que exerçam seu papel místico e, com o passar do tempo, desintegrem-se junto à própria natureza.
Além disso, os sons ditam a rotina e revelam o estado de espírito dos personagens, pois a presença de um campo de defesa do exército japonês na região faz com que os estouros das bombas ao fundo atuem como interrupções incômodas dos momentos de calmaria. Os insetos reforçam a sensação de ruralidade, enquanto o rádio local faz emergir um conforto associado à estabilidade e à familiaridade encontradas naquele espaço.
O tempo passa lento na cidade pacata, e também no filme. Aos poucos, Yuri abandona não apenas os códigos visuais e comportamentais da cidade grande, mas também a imagem rígida que construiu de si mesma, permitindo-se existir de maneira mais espontânea naquele espaço. O cineasta é elegante na condução dessas mudanças silenciosas, sem rupturas bruscas ou grandes manifestações dramáticas, fazendo com que transformações emerjam com naturalidade do cotidiano e da observação. Nagi Notes nos induz à posição de artistas para observar esses personagens em gradual descoberta de quem são, como se a calmaria de Nagi possibilitasse, enfim, que escutassem a si próprios.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

