[79º Festival de Cannes] Siempre Soy Tu Animal Materno
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
Nossa referência social, nossos modelos de existência e comportamento, advêm das bolhas nas quais cada um de nós está inserido: bolhas familiares, de amizade, regionais. As pessoas com quem convivemos, os lugares que habitamos e aqueles que escolhemos manter em nossas vidas para além dos vínculos sanguíneos moldam nossa percepção sobre “como viver”. Qual seria a forma correta de viver? De que maneira é aceitável que eu me comporte?
Romper as bolhas que limitam nossas percepções pode ampliar horizontes e abrir espaço para a aceitação de outras referências, capazes tanto de nos ajudar a construir nossos próprios modos de existência quanto de nos ensinar a respeitar sua diversidade. Sair de casa, respirar outros ares, entrar em contato com culturas diferentes: tudo isso possibilita conexões externas que nos afastam de certos egocentrismos inconscientes e nos fazem perceber nossa pequenez diante das bilhões de pessoas que habitam este planeta.
Quando penso nessa imensidão, em que cada ser humano é um pequeno universo, sempre retorno à mesma pergunta: quem sou eu para julgar modos de vida diferentes do meu?
Valentina Maurel faz de Siempre Soy Tu Animal Materno, coprodução mexicana e costa-riquenha da mostra competitiva Un Certain Regard do 79º Festival de Cannes, um instigante ponto de partida para tais questionamentos. Através da bolha familiar já rompida de três mulheres – uma mãe e suas duas filhas -, o filme acompanha personagens que, cada qual a seu tempo e à sua maneira, buscam encontrar-se na construção de seus modos individuais de viver. Nesse processo, confrontam-se, julgam-se mutuamente e, por isso mesmo, revelam a incapacidade de se encaixarem nos universos umas das outras.
Maurel trabalha o isolamento geracional provocado pelo tempo e pela inacessibilidade emocional dessas mulheres por meio de símbolos tanto intrínsecos à narrativa quanto presentes nos ambientes que explora de maneira inquieta. A ansiedade e a agilidade da câmera da diretora, aliás, refletem o caos interno das três personagens femininas que acompanhamos. Elsa (Daniela Marín Navarro), de 28 anos, é a filha mais velha de Isabel (Marina de Tavira) e irmã de Amalia (Mariangel Villegas), de 20 anos. A personagem acaba de retornar para sua cidade natal, San José, na Costa Rica, após passar alguns anos morando na Bélgica.
O retorno de Elsa a faz reencontrar uma família fragmentada. Após Isabel, com a maioridade das filhas, decidir seguir a própria vida e dedicar-se à carreira de escritora que havia abandonado, Amalia passa a morar por conta própria na antiga casa da família. A filha pródiga enxerga desordem por todos os lados – e, de fato, ela existe. Enquanto a irmã troca a fechadura da porta para impedir a entrada da diarista responsável pela limpeza doméstica e passa a dividir o lar com um grupo de pessoas (e cachorros) desconhecidos, a mãe prefere ignorar o que acontece, como se o período de entrega e dedicação às filhas já tivesse ficado para trás.
Nesse contexto, Elsa assume aquilo que se esperaria de uma figura materna e toma para si a responsabilidade de administrar os conflitos familiares, ainda que ela própria viva em um apartamento quase sem mobília, alimente-se mal, tenha deixado na Europa o namorado que amava por medo da intensidade do sentimento entre eles e não consiga experimentar prazer no sexo.
As personagens não precisam estar solitárias para que sintamos seus isolamentos. Siempre Soy Tu Animal Materno adota pausas recorrentes para nos conduzir pelas ruas de San José e nos familiarizar com aquele ambiente não apenas por suas vias movimentadas e pelo vulcão que contorna o horizonte da cidade, mas também por sua paisagem sonora, composta por uma fusão entre a urbanidade e resquícios de tranquilidade vindos do canto dos pássaros, já adaptados àquele espaço.
Quando somos inseridos na multidão, a imagem parece assumir uma lentidão estranha, destoante do ritmo frenético das personagens. A angústia provocada por esse contraste, bem como o reflexo do estado emocional conturbado das mulheres daquela família, é intensificada pela trilha sonora, que ecoa como uma buzina incessante e progressivamente mais alta. Até mesmo quando acompanha a busca pela casa de Amalia, cujo muro é vandalizado com a palavra “puta”, a câmera de Valentina Maurel assume um movimento rápido, específico e repetitivo.
Para além dos sinais de desordem e instabilidade contextualizados pelo espaço urbano, as barreiras existentes entre essas mulheres, e que impedem uma aproximação desprovida de atritos, dificultando uma reconexão geracional, podem ser percebidas na casa fechada e suja de Amalia, nas chaves que precisam ser trocadas, no vazio do apartamento de Elsa ou mesmo no desconhecimento das filhas acerca do livro erótico escrito pela mãe, que a mais velha, ainda na vida adulta, é incapaz de ler. Há, entre elas, um distanciamento conveniente e confortável, que as leva a negligenciar as carências afetivas e os conflitos umas das outras, ao mesmo tempo em que permanece pulsante a necessidade de reconexão pelo afeto que, naturalmente, compartilham.
A maternidade evocada pelo título atravessa todas essas mulheres, sejam elas mães ou não. Há, em Siempre Soy Tu Animal Materno, uma ideia muito forte de diferentes formas de maternidade, sobretudo da maternidade construída pela escolha afetiva, equilibrada pela consciência da necessidade, em determinados momentos da vida, de afastar-se dessa condição.
Isso não se manifesta apenas na figura de Isabel, que tenta reapropriar-se do próprio corpo, da carreira e da própria vida após sentir que cumpriu seu papel materno, mas também nas filhas: Elsa, pela responsabilidade que assume, e Amalia, pelos cachorros que acolhe. Essa dimensão materna não se concentra apenas na figura de quem exerce o papel de mãe, mas também se manifesta nas relações de filiação e pertencimento afetivo, algo que se evidencia na ligação de Amalia com Dora, a antiga empregada da família.
Quando Elsa manifesta à mãe preocupação com a sanidade de Amalia, todos os julgamentos que, pela ilusória ideia de uma possível padronização dos modos de vida, compartilhamos e lançamos sobre a jovem são encurralados por Valentina Maurel: Isabel está, de fato, preocupada, mas com Elsa, que acredita que, por ter vindo da Europa, possui o direito de impor à família um caminho único ou supostamente correto a ser seguido.
Siempre Soy Tu Animal Materno compreende que determinados afetos coexistem com violências silenciosas que, por comodidade, exaustão ou incapacidade emocional, acabam sendo ignoradas umas pelas outras. Há abandono, negligência, julgamentos e feridas difíceis de nomear, mas nenhuma dessas violências é organizada pelo filme em uma lógica simples de vítimas e culpadas.
Maurel entende que as relações humanas são desordenadas demais para isso, e nos confronta com a complexidade de reconhecer que nem todo afeto é suficiente para reparar rupturas. O caos também é um modo de existir e a mudança pode abrir espaço para outras formas de viver. Tudo aquilo que escapa ao uniforme e ao hegemônico contempla múltiplas possibilidades de existência, e julgá-las a partir de um olhar maniqueísta revela-se insuficiente. Lares provisórios continuam sendo lares, casas desorganizadas continuam sendo casas, mães que desejam seguir seus próprios rumos seguem sendo mães, filhas que escolhem outras figuras maternas continuam sendo filhas. Resta reconhecer nossa pequenez e tentar encontrar algum sentido nesse tumulto formado por oito bilhões de vidas coexistindo ao mesmo tempo.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.


