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[79º Festival de Cannes] Teenage Sex and Death at Camp Miasma

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


Há de se dizer que o cinema, dentre tantas e múltiplas possibilidades, nos permite experimentar realidades que não as nossas. A imersão na imagem em movimento é tão profunda que influencia padrões de beleza, ideais de vida, profissões e, sobretudo, desejos. Assistir a um filme está longe de ser um ato passivo para o cérebro: o cinema mobiliza mecanismos ligados à percepção, emoção, memória, recompensa e aprendizagem social, de modo que a experiência cinematográfica não apenas nos sensibiliza, mas participa ativamente da construção de fantasias, comportamentos, valores e formas de desejar. A imagem em movimento tem a capacidade de moldar nosso imaginário enquanto acreditamos estar apenas observando uma história. 

Em que medida essa idealização inconsciente é capaz de influenciar gostos e prazeres em nossas vidas é algo que Teenage Sex and Death at Camp Miasma, novo filme de Jane Schoenbrun, exibido na mostra Un Certain Regard do 79º Festival de Cannes, explora a partir da figura de sua protagonista, Kris (Hannah Einbinder), uma diretora de cinema que deseja refilmar a franquia slasher Camp Miasma. Em busca de inspiração, ela mergulha numa obsessão crescente e retorna ao antigo set de filmagens, onde vive reclusa Billie (Gillian Anderson), a final girl do longa original. 

A representação estética do Camp Miasma propriamente dito é um deleite imagético assumidamente (claro) camp, que abraça sua natureza fantasiosa sem qualquer preocupação em disfarçar homenagens livres e evidentes a Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock. A cabana onde Billie se isola, situada numa cadeia montanhosa nevada construída a partir de fundos artificiais e iluminada por luzes coloridas tão irreais quanto o próprio espaço, transforma-se quase numa materialização dos desejos cinéfilos de Kris. Schoenbrun parece se divertir ao recuperar uma nostalgia exagerada, artificial e performática do camp como uma estética que encontra beleza no excesso e na fabricação da fantasia. 

Kris representa muitas facetas da cinefilia e da própria realização cinematográfica. É uma mulher independente, que respira cinema – intelectualizado, acadêmico, teórico. O apego às teses, às técnicas cinematográficas e aos estudos obsessivos sobre Camp Miasma a afasta da experimentação fílmica e a aproxima da mecanização da sétima arte. Essa tecnificação do cinema, isto é, essa tentativa de aplicar fórmulas matemáticas a um material essencialmente subjetivo e humano, transborda para sua vida para além do trabalho: Kris se vê incapaz de alcançar prazer tanto no cinema quanto no sexo, do qual permanece emocionalmente apartada, sem compreender exatamente o lugar que ocupam seus fetiches, fantasias e desejos. 

Ao encontrar Billie, Kris encontra tanto a concretização de seus fetiches quanto a compreensão de que sentir o cinema, mais do que racionalizá-lo, é parte essencial da experiência cinematográfica. Camp Miasma é uma franquia noventista, e sua final girl é fruto de um cinema mais intuitivo, físico e sensorial. Billie representa a figura da musa, do objeto de desejo e da materialização da adrenalina proporcionada pelo horror, gênero que mobiliza nossos impulsos mais primitivos e transforma medo, tensão e excitação em prazer cinematográfico. 

Guiada por uma Billie que assume uma função quase terapêutica, despertando o primitivismo que faltava a Kris para o gozo pleno do experimento fílmico, é simbólico, mas não por acaso, que a origem de seus desejos e fetiches esteja justamente no próprio cinema e no universo que ele forja em nossos imaginários. Ouso dizer: se o cinema é o sexo do cinéfilo, Kris leva essa afirmação ao limite quando aprende, enfim, a se entregar a ele sem racionalizá-lo ou intelectualizá-lo de forma compulsiva. 

É bonito como Teenage Sex and Death at Camp Miasma se mostra uma metalinguagem deliciosamente autoconsciente e uma grande homenagem de Jane Schoenbrun ao cinema de horror, sobretudo ao horror realizado por mulheres e pessoas não-binárias. Ao confrontar diferentes gerações cinematográficas, atua como uma pessoa diretora que fricciona a intelectualização excessiva da cinefilia, a mecanização dos afetos provocados pela sétima arte e a capacidade do cinema de fabricar desejos a tal ponto que o real passa a parecer insuficiente. O longa compreende e retrata os mecanismos que constituem o fascínio cinéfilo, e no fim das contas, sugere o cinema como algo que ultrapassa o entretenimento ou a contemplação estética ao ser posicionado como substituto do prazer e da experiência concreta de vida.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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