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[79º Festival de Cannes] A Terra Do Meu Pai (Fatherland, 2026)

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


Na introdução de A Terra Do Meu Pai (Fatherland, 2026), um dos vencedores do prêmio de melhor direção no 79º Festival de Cannes (houve empate com La Bola Negra), duas pessoas conversam ao telefone. Trata-se de um homem e de uma mulher: ambos estão nus, ambos fumam seus cigarros, cada qual em seu espaço, separados pela linha telefônica. A conversa revela intimidade e afeto entre eles; a distância parece dolorosa, e o tom é melancólico, embora ainda frio. O homem sugere que a solução para o mundo seria que todos se matassem: “sou eu e você contra o mundo”, complementa. A cena é longa, construída a partir de uma câmera parada, e o único dinamismo surge da montagem paralela que nos permite observar esses dois corpos  que conversam desolados. Não sabemos exatamente qual é a relação entre eles, mas a chegada do contexto logo nos oferece as informações necessárias. 

Essa intimidade fria ocorre entre dois irmãos, Erika (Sandra Hüller) e Klaus (August Diehl), e esse é o máximo de calor que Pawel Pawlikowski encontra na relação entre duas pessoas numa Alemanha devastada do pós-Segunda Guerra Mundial. Ambientado em 1949, A Terra Do Meu Pai nos coloca diante de um país que tenta se reconstruir enquanto ainda convive com os resquícios do nazismo, presentes nas ideologias, nos comportamentos e nos modos de vida. Nesse tempo e espaço, o pai dos dois é Thomas Mann (Hanns Zischler), um dos mais importantes escritores alemães do século XX, vencedor do Nobel de Literatura e intelectual abertamente opositor do regime nazista, cuja figura paira sobre a família como símbolo de prestígio, rigidez e contradição. 

Tal qual Morangos Silvestres e em inspirada atmosfera bergmaniana, onírica em muitos momentos, o célebre escritor e professor Mann pega a estrada ao lado da filha em um percurso no qual receberá homenagens e láureas – entre elas, o Nobel de Literatura. Em meio a festas, cerimônias, coletivas de imprensa, formalidades e hipocrisias políticas, o mundo da filha parece girar inteiramente ao redor do pai: ela dirige para ele, traduz seus discursos, revisa seus textos e faz sua barba. Os dois filhos deveriam acompanhá-lo, mas Klaus está ausente e, até que os motivos dessa ausência sejam revelados, recaem sobre ele julgamentos, enquanto a filha absorve sozinha a sobrecarga de ocupar a função de “faz-tudo” do pai. 

A polidez excessiva e a frieza dos personagens mantêm um distanciamento emocional – inclusive nosso – mesmo nos momentos mais difíceis. Não é apenas o país que vive uma tragédia: os acontecimentos devastadores que recaem sobre a família tampouco parecem suficientes para provocar qualquer aproximação entre eles ou alterar os planos da roadtrip. Cumprir protocolos basta. Em um cenário político mórbido, no qual pai e filha antifascistas são obrigados a compartilhar espaços com aqueles que representam seus opostos ideológicos, a sensação é a de que nada mais é capaz de despertar qualquer sentimento que não seja raiva. E essa é, de fato, a única emoção que emerge com alguma intensidade, justamente nos raros lapsos em que conhecemos os personagens e seus dilemas internos de maneira mais profunda. 

Falta pertencimento a Mann e Erika, seja no âmbito familiar fragmentado, seja no âmbito político e territorial. Eles pegam a estrada e percorrem um país destruído que já não reconhecem mais. Entre si, tampouco encontram conforto ou intimidade. A intimidade, afinal, parece residir no Klaus ausente. Quando surge a possibilidade de voltar para casa, o novo questionamento que emerge é precisamente onde esse lugar ainda existe.

Em que pese o distanciamento ao qual somos mantidos, ressaltado pelo preto e branco expressivo habitual do diretor, é quase contraditório o quanto seu olhar se volta para as pessoas. Durante os discursos do homenageado, a câmera não se fixa no palestrante, mas em seus ouvintes atentos. Não se trata, entretanto, de uma observação afetuosa, e sim até julgadora da moralidade duvidosa daqueles que fingem aderir ao pensamento do escritor. 

Há de se destacar que a centralidade na qual Mann se posiciona diz muito sobre seu caráter. Trata-se de um patriarca narcisista, acostumado aos aplausos e à reverência, que submete a filha a uma pretensa inferioridade associada ao seu gênero. É difícil sentir qualquer empatia por sua figura. Se a roadtrip cinematográfica geralmente se associa a jornadas de transformação, em A Terra Do Meu Pai ela parece se confundir no próprio objetivo: o percurso em direção à homenagem transforma-se em um caminho funesto, e nenhuma daquelas pessoas que acompanhamos parece verdadeiramente digna de salvação ou capaz de alcançar uma postura mais humana e calorosa.

A beleza de A Terra Do Meu Pai reside precisamente na surpresa. Quando julgamos não haver qualquer possibilidade de salvação para aquela família, quando o que paira é a frieza generalizada regida apenas pela necessidade de cumprir protocolos e compromissos, Pawlikowski recorda a humanidade de seus personagens e olha para Mann e Erika com uma gentileza comovente através de Bach, mais especificamente da peça Jesus, alegria dos homens. Engolidos por um contexto político devastado e por um país em ruínas, os personagens encontram, onde menos se espera, algum resquício de paz e de pertencimento. O lar perdido ainda existe, ainda que invariavelmente situado em meio à destruição. 


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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