[79º Festival de Cannes] Paper Tiger
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
James Gray lida, em seus dois últimos filmes, Armageddon Time e, mais recentemente, Paper Tiger, inclusão de última hora na competição do 79º Festival de Cannes, com um estudo da falência e da própria falácia do sonho americano. No primeiro caso, fica evidente que a ascensão social de uns se constrói a partir da queda de outros, e o diretor assume uma leitura bastante pessoal dos Estados Unidos dos anos 1980, endossada por um viés racial observado a partir de um lugar conformado, confortável e privilegiado que se reconhece enquanto tal, mas permanece inalterado. Em Paper Tiger, a questão racial deixa de ocupar centralidade, mas o gênero permanece inevitavelmente presente em seu olhar sobre essa nova faceta da busca desesperada pelo sonho americano, centrada em uma família composta por uma única mulher em meio a quatro homens.
É possível dizer que Paper Tiger integra o mesmo “universo” de Armageddon Time, seja pela temática, seja pelo período em que ambos se passam – os anos 1980 -, seja pela adoção de uma perspectiva muito pessoal que, mais uma vez, se revela isenta e distante dos desdobramentos das ações atribuídas a personagens que não se parecem com Gray. Considerando-o aqui enquanto homem branco, heterossexual, rico e de meia-idade, torna-se evidente o lugar seguro do qual o diretor observa essas dinâmicas sociais e familiares.
Em Paper Tiger, Irwin (Miles Teller), como patriarca da família, carrega o peso de possibilitar a promessa americana à esposa, Hester (Scarlett Johansson), e aos dois filhos adolescentes. Protegido e influenciado pelo irmão mais velho, Gary (Adam Driver), os dois acabam se envolvendo com o mercado de petróleo controlado pela máfia russa. A honestidade e a moral aparentemente incorruptível de Irwin, incapaz de compreender plenamente o funcionamento daquele submundo, colocam não apenas os irmãos, mas toda a família em risco, em acontecimentos que gradativamente desencadeiam outros ainda mais graves, até que se forme uma bola de neve.
Fica claro para nós, espectadores, que o ideal de prosperidade buscado pelos irmãos está muito longe de ser alcançado, e o desenrolar da narrativa torna esse objetivo cada vez mais distante. Nós percebemos isso, mas os personagens sustentam um otimismo quase incoerente diante da gravidade da situação em que se colocam. A inocência de Irwin é compreensível, mas em Gary reside uma malandragem de pretensão heroica e um senso de responsabilidade perante o irmão mais novo que chegam a ser comoventes. Aliás, Adam Driver é, de longe, o que há de melhor em Paper Tiger. Seu carisma como ex-policial que transita entre os universos opostos, porém complementares, do crime e do combate a ele o transforma em uma figura expressiva da qual desconfiamos a princípio, mas à qual nos afeiçoamos gradualmente, a ponto de torcer para que suas soluções precárias realmente funcionem.
Nesse mundo masculino, há Hester – e a ausência de voz, clareza e controle que lhe é imposta. Trata-se de uma mulher que lida, em silêncio e sozinha, com seus próprios dilemas e com a preocupação extrema em relação ao futuro dos filhos, sendo comunicada sobre as decisões do marido apenas depois de já terem sido tomadas ou quando suas consequências já reverberam sobre toda a família. Restrita à maternidade e ao casamento, ela esconde um segredo relacionado à própria saúde para manter incólume o universo masculino ao seu redor. Seu gesto de absoluta doação acompanha, inevitavelmente, a anulação de si mesma.
Paper Tiger não traz, nessa abordagem, qualquer crítica ao papel (ou a falta dele) da mulher dentro desse núcleo familiar tradicional. O desinteresse do diretor por essa leitura de gênero, assim como a relação disso com o olhar racial já presente em Armageddon Time, torna-se evidente na coletiva de imprensa do filme durante o Festival de Cannes. Ao ser questionado pelo crítico brasileiro Márcio Sallem, do Cinema com Crítica, sobre a representatividade feminina em um filme tão masculino e sobre a atual crise da masculinidade, o diretor respondeu em tom de discordância, afirmando que não pensa gênero em suas histórias, mas apenas seres humanos.
Trata-se de uma postura que, em certa medida, nega a existência concreta e indiscutível da desigualdade de gênero. A boa intenção e a pretensa isenção de equiparar todos os seres humanos acabam ocultando uma limitação de perspectiva talvez até inconsciente de alguém que ocupa uma posição social tão favorecida que parece incapaz de enxergar para além de sua própria bolha existencial. Como dito anteriormente, James Gray parte de um lugar privilegiado em gênero, raça, sexualidade e classe social, e demonstra estar bastante confortável nele, algo que inevitavelmente se reflete na discussão política proposta por sua película.
Apesar de ser visualmente muito certeiro na medida nostálgica através da fotografia quente e amarelada, bem como preciso na construção de uma narrativa que parte da curiosidade para se transformar em uma escalada contínua de agravamentos até atingir o ápice em uma tensa cena envolvendo Adam Driver sendo perseguido em um milharal, Paper Tiger evidencia que a busca pelo imaginário estadunidense de ascensão continua sendo uma forma brutal de manipulação e frustração dos mais vulneráveis, capaz de provocar a ruína de famílias inteiras. Ainda assim, o filme decepciona por sua falta de comprometimento político, sobretudo ao amarrar-se no universo do filme do diretor que o precedeu, produzindo uma sensação de continuidade que, nesse caso, não funciona a seu favor.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.


