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[79º Festival de Cannes] La Perra

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


A ideia da substituição da maternidade humana pela adoção de animais não humanos é bastante contemporânea. Embora famílias sejam compostas por animais ditos de estimação desde que a domesticação se tornou uma possibilidade, hoje o próprio conceito de “possuir” um gato ou cachorro, por exemplo, passou a ser visto como ultrapassado, uma vez que a noção de posse está tradicionalmente associada às coisas. Se, por muito tempo, o direito civil brasileiro, de matriz romano-germânica, tratou os animais como bens, atualmente eles são reconhecidos como seres sencientes, capazes de sentir dor, sofrimento, prazer e emoções, além de titulares de interesses juridicamente protegidos e, em algumas correntes, até mesmo sujeitos de direitos. Não por acaso, tornou-se cada vez mais comum discutir, no âmbito do direito de família, questões relacionadas à guarda e à convivência desses seres que compartilham nossos lares. 

A conceituada obra literária A Cachorra, da escritora colombiana Pilar Quintana, traz a figura do animal como substituto do filho que a protagonista, Damaris, não consegue ter, mas transcende essa premissa ao confrontar as expressões do feminino presentes nos dois seres que se conectam: mulher e cachorra. Fundamentada no romance de Quintana, Dominga Sotomayor representou o cinema latino-americano na Quinzena dos Cineastas do 79º Festival de Cannes com La Perra, uma coprodução brasileira que conta com Selton Mello no elenco.

Quiçá La Perra seja, de fato, a obra mais brasileira desta edição do festival, seja pela coprodução com Chile, seja pela presença do ator brasileiro e da língua portuguesa na trama, da latinidade, ou ainda, pela forte influência de nossa cultura novelesca e musical – não por acaso, a canção preferida da protagonista, Sílvia (Manuela Oyarzún) é “Aguenta Coração”, de José Augusto, tema de abertura de Barriga de Aluguel.

Sílvia habita uma isolada ilha da costa chilena ao lado de seu companheiro, Mario (David Gaete), em uma pequena comunidade que sobrevive da pesca e da colheita de algas. Leva uma vida pacata e desprovida de grandes acontecimentos, como uma pequena parte da imensidão marítima que a cerca, até adotar Yuri, uma diminuta cachorra que surge durante seu expediente de trabalho e que ela decide levar para casa. A partir de então, Yuri passa a preencher uma lacuna em sua vida com alegria, espontaneidade e companheirismo, e as duas estabelecem um vínculo afetivo intenso. 

Veja-se que a maternidade permeia a narrativa por diferentes vias. Ainda assim, a sutileza com que esse tema é trabalhado acaba prejudicando La Perra no sentido de evidenciá-lo como seu principal eixo dramático, ao menos à primeira vista. A adoção de Yuri não está necessariamente associada, de imediato, à ausência de filhos na vida de Sílvia, e só compreendemos a dimensão desse vazio após a primeira metade do filme, quando a cachorra, depois de um desaparecimento que altera significativamente a relação entre as duas, retorna prenha.

Além disso, o fato de a novela e a música favoritas da protagonista serem justamente Barriga de Aluguel, exibida entre 1990 e 1991 e centrada na impossibilidade da maternidade biológica, constitui uma referência bastante específica para o público brasileiro que viveu aquele período. Embora coerente com a proposta do filme, trata-se de um elemento que acaba surgindo de maneira um tanto solta.

Quanto às alterações relacionais e emocionais acarretadas pelo desaparecimento e posterior retorno de Yuri, elas decorrem, sobretudo, da ascensão de um trauma infantil de Sílvia, elemento que molda sua rotina no presente, mas cuja função narrativa permanece pouco evidente. As escolhas minimalistas que visam preservar o mistério que circunda a ilha e a silenciosa protagonista acabam dificultando o engajamento do espectador. 

A diretora recorre ao passado por meio de flashbacks, conferindo à atmosfera do longa um aspecto mais onírico, para revelar que a casa vazia que Sílvia limpa com tanto afinco é, na verdade, a residência de veraneio de sua família, fragmentada pelo mesmo trauma que alimenta sua culpa e ajuda a explicar sua profunda infelicidade. É também nesses retornos temporais que Selton Mello se insere em La Perra, interpretando Duda, o tio brasileiro da protagonista, que chega de avião à ilha acompanhado da esposa e do filho pequeno.

Vale mencionar que a composição imagética de Yuri diante da vastidão do ambiente e das belas paisagens captadas em planos abertos é um verdadeiro deleite. Em verdade, a simples presença da cachorra já é cativante – com razão, ela foi laureada com a Palma Dog, prêmio concedido à melhor atuação canina do Festival de Cannes. A espontaneidade de seus gestos, observados por uma câmera posicionada à sua altura, suas brincadeiras e a forma como seu foco muda repentinamente em direção a qualquer estímulo que desperte sua atenção expressam com precisão o fascínio que nós, seres humanos, nutrimos por esses animais. É impossível não se afeiçoar a Yuri. 

Sua liberdade natural, entretanto, confronta os aprisionamentos internos de Sílvia, como se seu instinto selvagem e espírito livre fossem uma afronta à protagonista, incapaz de se desvencilhar das dores da infância. Compreendemos que se trata de um conflito gerado por uma cicatriz do passado, mas não necessariamente por um desejo materno frustrado. Nesse sentido, La Perra pouco investiga a maternidade em si, mas trata os efeitos duradouros de feridas incuráveis sobre a forma como construímos vínculos afetivos. Yuri torna-se, portanto, catalisadora de sentimentos já existentes, fazendo aflorar culpas, ressentimentos e dores que Sílvia mantinha submersos. Ainda assim, ao optar pelo silêncio sem encontrar, nas imagens, formas suficientemente expressivas de elaborá-lo, o filme acaba explorando tais conflitos apenas em sua superfície. 


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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