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Os Ruminantes (2025)

Muitas vezes a história do cinema se confunde com a história oficial de um país. Na América Latina dos anos 1960, quando ditaduras civis-militares se impuseram como regra, essa confusão era comum e são muitas as histórias de filmes proscritos, desaparecidos, e também daqueles que sequer chegaram a existir. 

O filme de Tarsila Araújo e Marcelo Mello aborda a obra inconclusa A Hora dos Ruminantes, cujo roteiro foi escrito por Sérgio Person e Jean-Claude Bernadet. Inspirado no livro homônimo de José J. Veiga, expoente do realismo fantástico no Brasil, a produção foi pensada como continuidade do projeto cinematográfico iniciado por Person com O Caso dos Irmãos Naves. 

Após a repercussão do filme sobre os Irmãos Naves, Person e Bernadet se aproximam e estreitam amizade a partir de projetos políticos comuns vinculados ao cinema. O crítico belga, assim como a filha do cineasta, Marina Person, ambos entrevistados pela equipe do documentário, pontuam quais as críticas de Sergio em relação ao Cinema Novo, a voga do cinema brasileiro da época: temas populares abordados a partir de forma e discurso herméticos, cujo resultado acabava afastando o público. 

Nesse sentido, a intenção de Person era produzir filmes que conjugassem conteúdo crítico e narrativa popular. Na sequência de uma história explicitamente crítica à ditadura com o caso dos irmãos presos e torturados, o roteiro de A Hora dos Ruminantes traria uma alegoria política sobre o perigo da adesão popular às táticas militares de opressão, cujo resultado era a violência que se espalhava por todo o tecido social. 

A escolha de Tarsila Araújo e Marcelo Mello em ilustrar os depoimentos originais de Marina Person e Bernadet com trechos de filmes e entrevistas de Sérgio Person articula de forma coerente os acontecimentos. A essa estratégia narrativa somam-se também novas informações sobre o boicote à realização do filme, coletadas a partir de extensa pesquisa em arquivos (desde jornais até documentos oficiais) cujo ponto de partida é a tese de doutorado de Marcelo sobre o roteiro não filmado de A Hora dos Ruminantes.

Outra estratégia narrativa interessante é o uso de imagens retiradas do Acervo da Cinemateca Brasileira para ilustrar trechos do roteiro, de forma a criar uma visualidade possível em composição com a leitura do texto em voz off, algo que funciona muito bem, especialmente na descrição visual do que seria a sequência final do filme. 

A montagem consegue dar ritmo à ligação entre passado e presente, explorando a coerência na continuidade do pensamento político vinculado ao trabalho de Person e Bernadet. A certa altura de seu depoimento, Jean-Claude sugere que a equipe esteja perdendo tempo ao filmar aquela história, que os cineastas deveriam estar filmando algo sobre a ascensão da extrema direita no país. 

E essa deixa desemboca no final do filme, quando a manada de ruminantes do roteiro não filmado se junta à bancada ruralista atual: a ditadura civil-militar, que deixou como legado uma série de crueldades, mortos e desaparecidos, tenta se manter viva através da Bancada do Boi e da Bíblia, destituindo direitos conquistados e tentando levar o país a um novo período de ignorância e terror.

Um filme sobre filmes e sobre como a arte é afetada em tempos de governos de extrema-direita. A narrativa revela não só a frustração de um cineasta diante de um projeto fracassado, mas também de um ideal político que deixou de existir. O papel da pesquisa merece destaque, devido a diversidade de fontes, a fineza das citações e a reunião de material tão rico utilizado de maneira plástica e elegante. Ao final, é possível dizer que alguns filmes desaparecidos merecem mesmo o esforço em reinventá-los, pois sem eles o que se perde é também um pouco da história de um povo.

Crítica de cinema graduada em História, Mestre em Antropologia e Doutoranda pela UFPA

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