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Papaya (2025)

Publicado originalmente em 03/09 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.

Um bebê mamando na teta de sua mãe. Quando o filme começa, não temos dúvida de que é disso que se trata a imagem enquadrada. A esfera negra de olhinhos fechados sugando a forma laranja à sua frente remete à essa relação. Logo o quadro se amplia e vemos que são inúmeros bebês esféricos enfileirados. Estamos no interior de uma mamão e essas figurinhas antropomorfizadas são suas sementes, conectadas pelos filamentos à sua polpa. Uma imagem terna, que dá o tom infantil e doce da animação Papaya, escrita e dirigida por Priscilla Kellen.

A simpática bolinha protagonista, ainda infante, observa encantada um pássaro bicar o mamão onde está e abrir uma fresta para fora, para em seguida voar. O ato de desbravar o céu lhe chama a atenção imediatamente e se torna um sonho e um desejo. É a primeira de seu fruto a ver o mundo lá fora, saudada por sua mãe-mamoeiro.

A direção de arte do filme acerta muito na criação visual das personagens. A árvore-mãe, com seus galhos-braços longos, que acolhem a cria, tem seus frutos utilizados como uma espécie de roupa, em um degradê de tons de tons de verdes e amarelos. Além disso, as suas flores brancas adornam sua cabeça, como brincos e tiara. Já a personagem principal, sem nome, tem grandes olhos muito característicos e expressivos, um nariz composto por um triângulo lilás e uma boca que aparece, desaparece e muda de formato de acordo com a necessidade, além de três pintinhas no alto da cabeça, um design minimalista que garante o necessário para a narrativa silenciosa.

O desejo por poder voar se contrapõe à realidade física de ser uma semente. A primeira coisa que sua mãe faz depois de dar carinho, quando vem ao mundo, é colocá-la ao solo, que abaixo de todas as folhagens, parece escuro e limitado. E após uma chuva forte, raízes crescem e querem agarrá-la à terra. Um solo vivo, repleto de conexões em formatos fractais com todas as outras formas de vida ali plantadas. Mas ela quer ser livre. Outra decisão acertada é a escolha de retratar essas raízes como perninhas e a possibilidade de usá-la para perambular e conhecer o mundo maior.

A semente quer voar e viver novos horizontes. São muitas tentativas frustradas, imitando sementes de outras plantas, como dentes-de-leão, ou insetos, como joaninhas. A trilha leve, com pandeiros e flautas dá o tom da brincadeira de buscar os céus. Os conflitos só chegam quando ela, sem querer, vai parar na cidade. Passa por arames farpados, pastagens secas, bois confinados e as mais tristes plantas cultivadas para monocultura. A trama não chega a tratar os tema com complexidade, abordando-os quase como um pano de fundo. O que não impede, de toda forma, que o retrato seja angustiante, dado toda a forma lúdica com que a floresta foi concebida antes, o contraste estabelecido e a maneira eficaz com a narrativa nos guia pelos percalços da semente.

Conforme avança não só as cores explodem, como as técnicas de animação se misturam, e as geometrias e fractais abrem espaço para uma interessante composição de fotografias reais. São brócolis, gomos de tangerina e espadas-de-são-jorge fazendo as vezes de árvores, em conjunto com flores, em uma composição cenográfica inusitada e bela.

Existe uma espécie de contra-lógica na história da semente: por um lado a ideia de liberdade, de fluir com as formas e cores dos pássaros é inspiradora. Por outro sua mãe-mamoeiro é absolutamente majestosa e como sonhar em ser alguém que você não é, como ir contra sua própria natureza quando ela também inspiradora por si só, em sua própria beleza particular? Mas também estou lendo demais em uma animação silenciosa e fofinha, que pincela vagamente alguns temas ecológicos para crianças pequenas.

De qualquer forma penso que é interessante que sua caminhada toda só seja possível quando se alimenta pela raiz em contato com os seus: depois de negar sua origem e conhecer o mundo, só pode ser quem é em conexão com sua origem. Então a mensagem de aceitação também passa por saber de onde vem, sem negar sua natureza vegetal-semente. Dito isso, Papaya é uma animação de técnicas lindas e com uma personagem principal carismática, que vai conduzir cada pessoa junto de sua jornada terna de aventura.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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