A Odisseia (The Odissey, 2026)
Adaptar o poema épica grego Odisseia para as telas é, com o perdão do trocadilho, um trabalho homérico. Enquanto a Ilíada conta os dez anos de guerra de Troia, a obra relata os outros dez anos que o personagem Odisseu, rei de Ítaca e general responsável por aquela vitória, levou para voltar para sua casa. Uma verdadeira epopeia que dificulta a transposição direta do material, embora a leitura seja para lá de interessante. Quando Christopher Nolan, de todos os diretores, assumiu a tarefa de não só dirigir, mas roteirizar uma versão para cinema da história, garantiu no mínimo a curiosidade geral, visto ser um diretor dado a grandiloquências, mas que não costuma se dar bem nem com histórias familiares, nem romance, nem com nada envolva carga emocional, de maneira geral. E, para ser sincera, o resultado final foi positivo.
Na narrativa mítica de Nolan, Odisseu, vivido por Matt Damon, começa a trama sem memória, cativo nos braços da ninfa Calipso (Charlize Theron), adequadamente trajada com uma roupa de rede remetendo ao mar e uma túnica com estampa de areia. E é a partir daí, tentando recordar quem é e como veio parar naquelas terras, que é atormentado pela ideia de quem tem uma família em algum lugar e precisa voltar para casa. Vemos os acontecimentos, então, estruturados em flashback. A primeira pista é a própria tomada de Troia, emprestada da Ilíada: os soldados escondidos dentro do cavalo, uma ideia sua. O soldado Sinon (Elliot Page) aguarda a chegada dos troianos. Sinon não foi informado do plano e ingenuamente informa que era um presente para a deusa Atena e por isso foi sacrificado pelos inimigos no processo. Mas o plano funcionou: o cavalo foi levado para dentro da cidade e na calada da noite, sua barriga foi fendida e permitiu que eles abrissem as portas para a invasão que a fez cair. Só que tudo isso aconteceu apenas depois de dez anos de guerra e muito desgaste. Essa história é tão mítica que ultrapassa a própria fonte. Puro presente de grego.
Dividido em outro núcleo, em Ítaca, há a outra história notória: a da suposta viúva Penélope que há anos aguarda o marido que nunca voltou, vivida por uma Anne Hathaway com a compostura perfeita para o papel. Na ausência de um rei, ela é pressionada a se casar para que alguém ocupe o trono. Os vestidos modelados ao corpo, bem diferentes do drapeado que se espera de um figurino grego, em cores de joia, adornados com joias esculturais em ouro, reforçam um senso de realeza que a destaca. Então coloca uma condição: vai se casar no dia em que terminar de tecer a mortalha de seu sogro e passa todo dia sentada ao tear, e toda noite desmancha o trabalho feito.
Enquanto isso, inúmeros pretendentes se amontoam pela corte, comendo e bebendo porcamente, na esperança de um dia a desposarem e tomarem essas terras. Um deles é Antinoo, interpretado por Robert Pattinson, que se sai muito bem como antagonista. Ele lidera o grupo que ocupa o lugar e mantém a rainha praticamente refém na própria casa, zombando de sua hospitalidade. O ator parece se deleitar com as possibilidades de um papel tão vilanesco. Em certa cena, Penélope tece seu manto e Antinoo tenta coagi-la a casar-se com ele. O foco é mantido na personagem, filtrada através do tecido da tapeçaria, cada vez mais esmaecido, como a barreira que impede o matrimônio. Nolan sabe usar o próprio tecido que marca a data do futuro possível matrimônio como um um filtro ou barreira visual para a ameaça a ameaça de Antinoo, em uma composição simbólica significativa.
Por fim, o filho de Penélope, Telêmaco (Tom Holland), deseja descobrir se o pai ainda está vivo, porque embora ainda não tenha idade, poderia tentar assumira o trono e acabar com essa confusão sucessória. Ele ainda tem a companhia de um pastor amigo leal a seu pai, Eumeu, vivido por John Leguizamo. O ator costuma ancorar emocionalmente as tramas com seus papéis coadjuvantes, como faz em Romeu + Julieta (1996) e Moulin Rouge (2001), por exemplo, e aqui, mais uma vez, rouba a cena quando está presente. Telêmaco busca se informar viajando a Esparta, onde recebe informações de Menelau (Jon Bernthal) e Helena (Lupita Nyong’o)
A partir desse pontapé inicial dos acontecimentos, mal se sente as quase três horas do filme passarem. A montagem de Jennifer Lame encadeia os acontecimentos com tal agilidade, imprimindo um ritmo narrativo vigoroso, que passa de aventura em aventura, ora deixando sem fôlego, ora provocando o horror adequado, com a ação visível e bem conectada, e o filme voa. A trilha sonora de Ludwig Göransson às vezes é excessiva, martelando enfaticamente algo que já foi sentido, mas não deixa de ser expressiva. (E aqui eu preciso fazer um parêntese: a percepção a respeito da trilha pode ter sido prejudica pelo som da minha cabine, que estava completamente desregulado, exageradamente alto. Precisei assistir ao filme todo de fone de ouvido para suportar o volume, isso porque não tinha levado protetor auricular).
Nolan não deixa de fora os principais elementos mitológicos da Odisseia, se permitindo mergulhar no grotesco do ciclope Polifermo (Bill Irwin) ao terror canibal dos gigantes lestrigões, retradas com armaduras medievais europeias, em longas sequências pavorosas. Por outro lado o monstro Cila e o redemoinho Caribde passam rápidos como uma nota de rodapé. E claro, há a bruxa Circe, interpretada por Samanta Morton, que vive suas ações de forma intensa e justificada e faz sua pequena participação se destaca. As sereias, por sua vez, são interessantes: o diretor as mostra visualmente mas opta por não compartilhar seu canto, talvez porque nada daria conta de capturar o quão terrível ele é. Ao invés disso, mantém a câmera na reação desesperada de Odisseu ao ouvi-las, dando uma dimensão da tortura que seu provoca.
Dimensão é um substantivo que se relaciona com todo esse filme. Dada a escala épica da história, é claro que escolhas foram feitas. Personagens ficaram de fora e alguns fios narrativos ganharam mais destaque do que outros. Deuses são mencionados, mas, com exceção de Atena, interpretada por Zendaya, nenhum deles aparece. Eles brincam com o destino dos protagonistas de forma invisível. Ela aparece porque é conselheira de Odisseu, como deusa da sabedoria e da guerra. Zendaya consegue imprimir acolhimento, cansaço e decepção nas interações da divindade com seu apadrinhado. Afinal, o filme permite uma leitura sobre a tomada de Troia que é a de traição à tudo que é divino. A trama complexifica a figura de Odisseu, trazendo nuance a suas ações. Seus feitos são a vitória, mas também a ruína a de todo o povo. Matt Damon carrega a atuação do protagonista não como um herói de ação, mas com um arco dramático condizente.
Mas a escala impressiona. Difícil não pensar em cinemão feito com recursos, grande elenco, bom efeitos, grande resultado, tudo de encher os olhos e aí lembrar de filmes de outras épocas: me peguei pensando em quando fui ver no cinema Titanic. É difícil hoje tantos recursos irem para um filme bem realizado assim, e não para uma obra vazia de franquia. A comparação com outros épicos vem, como Jasão e os Argonautas (Jason and the Argonauts, 1963), com suas animações em stop motion de Ray Harryhausen. E com todos esse elementos, incluindo os míticos, as personagens e linhas de narrativa paralelas, tive receio que a trama ficasse confusa por algum momento, mas isso jamais aconteceu.
O fato é que um filme como esse é cinema de espetáculo. Está tudo ali: a grandiosidade dos elementos, a entrega das atuações, o figurino de Ellen Mirojnick, a direção de arte de Ruth De Jong e uma narrativa épica coesa. E claro, nada disso funcionaria se não houvesse um envolvimento emocional adequado com as personagens e esse costuma ser o calcanhar de Aquiles (perdão) de Nolan. Mas aqui existe uma resposta dramática para lá de adequada. A jornada de volta para casa de um lado e a longa espera de outro são ambas marcadas pela resistência de seus protagonistas. E o terceiro ato, em especial, gera uma ansiedade antecipatória. A Odisseia é uma experiência prazerosa de ótimo grande cinema que raramente se encontra. Como é bom quando um projeto ambicioso assim dá certo e se converte em narrativa arrebatadora.




