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O Convite (The Invite, 2026)

Publicado originalmente em 25/06 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.


A estreia de Olivia Wilde como diretora se deu com o filme Fora de Série (Booksmart, 2019), surpreendente comédia adolescente sobre duas garotas que estão se formando no ensino médio e percebem que não aproveitaram nada da vida até então. O filme chegou até mesmo a figurar na nossa lista de melhores dirigidos por mulheres da década de 2010, conforme votada pelas mulheres da crítica de cinema. Em 2022 volta com Não Se Preocupe Querida (Don’t Worry Darling), uma ficção científica morna, que requenta Esposas de Stepford (Stepford Wives, 1975), uma história em que as esposas são gradativamente substituídas por réplicas perfeitas, mas sem dar os devidos créditos. O filme não foi o completo desastre que foi pintado, mas o lançamento foi ofuscado pelas questões pessoas da cineasta, que viu os holofotes se voltarem para o escrutínio de sua vida amorosa na época, o que abalou ainda mais a percepção de fracasso.

Em 2025, Olivia participa de um episódio do seriado O Estúdio (The Studio), protagonizado por Seth Rogen, que interpreta Matt Remick, um executivo de estúdio que tenta equilibrar as demandas de sua função, viabilizando financeiramente projetos e mantendo sua visão artística. A série funciona na chave do humor, mas, para quem gosta de cinema, é um prato cheio pelas participações especiais e referências. E no quarto episódio lá está Wilde, em uma trama noir interpretando uma personagem chamada Olivia, uma alter-ego que brinca com sua imagem pública de cineasta para fins de comédia. O empréstimo funciona e a parceria vai se repetir em seu próprio filme seguinte.

O Convite (The Invite, 2026) traz Wilde e Seth Rogen como Angela e Joe, um casal junto há 15 anos e que claramente já não sabe mais conversar sobre as pequenas coisas do dia a dia. Todos os acontecimentos narrados acontecem em apenas uma noite. O roteiro do filme é de Will McCormack e Rashida Jones, ambos responsáveis pela história de Toy Story 4 (2019). Curiosamente ele é adaptado de um filme espanhol chamado Sentimental (2020), escrito e dirigido por Cesc Gay.

Joe costumava ser músico de uma banda que havia feito sucesso anos atrás e agora é professor adjunto em uma pequena faculdade. Logo no primeiro quadro o vemos isolado, sentado em uma poltrona no auditório de sua escola, todos os assentos ao seu redor desocupados, enquanto os alunos performam no palco música que ele não aprecia. Seu olhar é de decepção e desconforto. O espaço vazio demonstra a desconexão. Ele vai embora expressando essa frustração. Esse não é o trabalho que queria ter. A frustração se expande para a bicicleta e, por sua vez, para a dor nas costas.

Acontece que ao chegar em casa é lembrado por Angela que haviam convidado os vizinhos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton) para um jantar. Angela parece ter passado o dia todo se desgastando em minúcias para que tudo estivesse perfeito. Comprou queijos variados, jámon pensando na origem da vizinha, arrumou arranjos de flores e até mesmo adquiriu um tapete novo para a sala. Essa obsessão pela imagem perfeita explica-se justamente porque o apartamento passou por uma reforma e a justificativa do jantar é apresentar aos outro o resultado, além de pedir desculpas pelo incômodo.

A chegada de Piña e Hawk é um elemento desestabilizador. Interrompe a briga do casal, claro, porque Joe não quer a presença dos estranhos em sua casa. Força uma polidez artificial, ainda que ele tenha afluxos de sinceridade desconcertante. E provoca a comparação. Energia é uma palavra que é constantemente utilizada por todos e há uma energia sedutora emanando deles. O figurino de Arianne Phillips, que já havia trabalhado com Wilde em Não se Preocupe Querida, é simples mas eficiente nesse sentido. Especialmente a personagem de Cruz, que é terapeuta sexual, move a dinâmica erótica entre os personagens, e a roupa dela, provida zíperes e botões, é facilmente acionada em diferentes cenas para aumentar o decote, mostrar o pescoço, desnudar a tatuagem e assim por diante, em um sutil balé cômico de sedução. A calça com cinto na cintura alta ajuda a marcar suas curvas de maneira simples e eficiente, em contraste com Angela, que deixa a camisa solta para fora do cós o tempo inteiro, de forma que as roupas não lhe marcam o corpo. E, por fim, Piña e Hawk ambos usam roupas pretas, porque além de uma cor poderosa e sedutora, eles são um times, atuam os dois juntos, combinando.

Por outro lado Angela usa os cabelos em tranças presas no alto da cabeça em um penteado juvenil e camisa em tom de verde que se camufla na cor que pintou as paredes do apartamento: aquela casa é sua fortaleza e ali ela se perde. Ela parou de trabalhar para cuidar da reforma do apartamento herdado dos pais de Joe e agora o figurino indica que literalmente faz parte desse lugar. Ali ela se perde quase como um objeto cênico. Já ele, com sua camisa jeans, fica em tom sobre tom, combina mas há um leve deslocamento tanto em relação à esposa quanto à casa. 

Em certo momento é revelado que aquele apartamento na verdade é composto pela integração da planta de dois, que eles mesmos jamais teriam como pagar por aquele espaço todo. A direção de arte de Jade Healy e Sandra Doyle Carmola consegue dar plena dimensão de um labirinto, como se aquele espaço expressasse o caos de sentimentos em que o próprio relacionamento de Angela e Joe se encontra. A planta não tem uma configuração que faça sentido, corredores fazem curvas e cômodos dobram-se em uma residência que não parece se conformar a uma edificação externar, mas à vazão das emoções.

tour pela casa se desdobra em situações e conversas inesperadas. É óbvio que o contraste da química latente entre os vizinhos é algo que perturba os anfitriões. Inclusive isso era algo que Joe, em sua sinceridade exacerbada queria comentar, porque eles conseguem ouvi-los transando e queria pedir moderação no barulho dos gemidos. Mas os casais se separam pela casa, criando dinâmicas de conversas pelos cômodos-labirintos que vão descortinando os relacionamentos acompanhados por uma trilha sonora sempre muito presente de Devonté Hynes.

Os diálogos afiados arrancam risadas, mas ao mesmo tempo vão deixando cada vez mais claras as intenções intricadas de cada personagem. As discussões de Angela e Joe se tornam acaloradas como em um Quem Tem Medo de Virginia Woolf tragicómico, enquanto Piña e Hawk mostram porque têm tanta segurança de seu próprio relacionamento, principalmente em termos sexuais, mesmo que não sem seus problemas. Há um convite dentro do convite, mas na proposta há expectativas, medos, dúvidas, e logo decepções. No diálogo há espaço para todos os atores brilharem ao seu estilo e o que começa divertido escalona pelo sensual e desaba para o melancólico.

Olivia Wilde retorna à direção com grande segurança e maturidade, trabalhando na frente e atrás das câmeras e comandando um elenco que segura diálogos que variam de tom do cômico ao dramático com facilidade. Trata-se de um filme teatral, que explora a força da atuação de suas quatro estrelas no palco desse espaço confinado configurado como um labirinto e numa paleta de cores limitada, que expressa as emoções de seus protagonistas, demonstrando controle visual na direção. O Convite é um filme de emoções, é uma comédia, sim, mas também é uma reflexão sobre todas as conversas que deveriam ser feitas dentro de um relacionamento.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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