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The Comeback (2005-)

Publicado originalmente em 03/09 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.

A Camila Henriques havia me recomendado The Comeback (2005-), seriado criado por Michael Patrick King e Lisa Kudrow e protagonizado por ela, diante do sucesso e de meu apreço por de The Studio (2025-), série com Seth Rogen no papel principal que retrata os bastidores de um estúdio de televisão. Um dos diferenciais da primeira é o fato de que cada temporada é espaçada em aproximadamente 10 anos. Ela estreou em 2005, na esteira do término do seriado Friends, finalizado no ano anterior. De forma bastante referencial, a trama é sobre uma atriz de um sitcom de grande sucesso nos anos 90 que agora, depois de um tempo afastada das telas, está voltando às telas com outro projeto. Ao contrário de seu alter ego Valerie Cherish, Lisa não teve tempo de fazer esse descanso da imagem.

Mas Valerie é uma mulher insegura e sedenta por aprovação e holofotes, embora isso apareça sempre como algo feito na melhor das boas intenções. O programa para o qual ela é contratada é um sitcom que inicialmente ela protagonizaria, mas que a cada reescrita tem seu papel diminuído para uma coadjuvante de teor etarista. O machismo na equipe ao redor dela impera e às vezes parece um comentário do roteiro, mas às vezes parece simplesmente acontecer sem querer, escapando pelas bordas em uma série escrita e dirigida por homens 20 anos atrás. Algo nesse sentido é o eterno senso de concorrência de Valerie com Juna (Malin Akerman), a atriz mais jovem que assumi o protagonismo do seriado, o que remete a um A Malvada (All About Eve, 1950) mal rascunhado. 

O humor faz a linha cringe comum à época e um dos aspectos interessantes é a forma como os bastidores da produção são compartilhados com quem assiste. Além de ter fechado o contrato com a produção do seriado, Valerie aceitou ser filmada para um reality show, chamado The Comeback (explicando o nome da série), que retrata os bastidores da produção e sua volta à ativa. Quando tomamos que programas como The Osbournes (de Ozzy e sua família) e The Simple Life (o programa em que Paris Hilton e Nicole Richie faziam trabalhos comuns no interior estadunidense) começaram a ir ao ar em 2002 e 2003, respectivamente, esse formato em que (semi ou ex) famosos se expunham para as câmeras diante de um grande público ainda era uma novidade. 

E com isso é possível explorar as noções de estrelato, as dinâmicas de trabalho, a forma mídia espetaculariza uma falsa noção de realidade e como mesmo essas pessoas estão dispostas a falsear versões de si em busca da atenção do público.

A segunda temporada vira metalinguagem dentro da metalinguagem. Se a 1ª temporada era sobre a atriz de sitcom que tinha feito sucesso nos anos 90 voltando numa sitcom nova, sendo filmada em um reality show, na segunda temporada o roteirista da sitcom dentro da primeira resolve fazer uma dramédia na HBO relatando os bastidores, seu problema com vício e a relação com a atriz conturbada. E quem ganha o papel da protagonista é a própria atriz. Então é a Lisa Kudrow interpretando o alter ego interpretando o alter ego, criando uma camada interessante de significado. Quando eu percebi que quem interpretaria o personagem do roteirista-diretor, Paulie G (Lance Barber) dentro da ficcionalização seria Seth Rogen não pude deixar de pensar: tenho certeza que foi daí que nasceu a ideia de O Estúdio.

Apesar dessas questões metalinguísticas, a segunda temporada está menos preocupada aspectos das narrativas do que com a vida pessoal da própria Valerie, a quem sabe-se que quem está assistindo já se afeiçoou. Alguns comentários são tecidos sobre como os corpos femininos são descartáveis na indústria (e como ela mesma não sabe responder a certas perguntas a esse respeito).

Mas, afinal, essa temporada é sobre sua relação com os personagens recorrentes Jane (Laura Silverman), a produtora do reality show, Mickey (Robert Michael Morris), seu cabelereiro e melhor amigo e Mark (Damian Young), seu marido. É compreensível que essas pessoas sejam mais importantes do que a própria televisão e a profissão, mas também um pouco decepcionante que, com um caminho preparado para um comentário tão interessante, pouco se tenha aprofundado. Apesar disso, não deixa de ser bonito quando aproveito o jogo metalinguístico para sobrepor uma certa trama da vida real (não vou dar spoiler) à dos personagens com um desfecho emocionante.

A temporada mais recente começa em plena pandemia e rapidamente contorna temas recentes do contexto Hollywodiano, como os incêndios na Califórnia, as greves dos roteiristas e dos atores, incluindo uma participação da Fran Drescher, então presidenta do sindicato dos atores, os podcasts de celebridades, até chegar no contexto de 2026. Hoje nós não precisamos mais de reality shows ou paparazzi para stalkear os famosos. Eles mesmos fazem esse trabalho por nós e Valerie tem uma uma jovem contratada para filmá-la e alimentar suas redes sociais. Ao mesmo tempo, Mark, que odiava a sensação das câmeras seguindo-o o tempo inteiro, comenta que demorou demais para instalar câmeras de segurança dentro de casa e agora vemos, ironicamente, os mesmos ângulos a que assistimos nas temporadas anteriores, incluindo dentro do quarto, mas dessa vez por dispositivos instalados por ele. A era da hipervigilância nunca foi mais real.

Mas, agora que Valerie está em um novo sitcom (com um diretor que é basicamente o Jordan Peele) o mais interessante é o comentário que se tece sobre o uso de IA na elaboração de roteiros, e a consequente substituição de profissionais dessa área (e posteriormente de outras). Essa é uma discussão que não vai se esgotar tão cedo e, apesar das primeiras ações covardes da protagonista, o programa consegue imprimir soluções até otimistas.

No conjunto de suas temporadas, The Comeback tece um comentário satírico e ácido sobre como Hollywood lida com estrelas do passado, levando em conta um recorte de gênero e idade, que é inescapável. Valerie nunca alcançou o topo da fama, e parece sempre disposta a quase qualquer coisa para isso. Mas as pessoas ao seu redor também exploram sua imagem e a desrespeitam o tempo todo. O humor nem sempre é particularmente engraçado, mas talvez o objetivo não seja fazer rir, e sim constranger com o absurdo. Em meio a isso, Lisa Kudrow de fato brilha. E a proposta de acompanhar sua personagem por duas décadas é quase um experimento em si. Porque no final, o que The Comeback comprova, pela personagem e pela atriz, é que o que nos conecta com a arte são os artistas.

The Comeback: O Retorno está disponível em streaming na HBO.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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