[Olhar do Norte] Os Avós, de Ana Lígia Pimentel
Este texto faz parte da cobertura do 8º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, de 23 a 27 de setembro de 2026.
Exibida entre outubro de 2025 e março deste ano, a novela Três Graças, do trio Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva, trouxe Sophie Charlotte na pele de Gerluce Maria das Graças, uma mulher de 30 e alguns anos que se torna avó. O núcleo da trama tinha ainda Dira Paes como a mãe da personagem de Sophie. Ou seja, quatro gerações — as três “Graças” que viram quatro — no centro de uma história que chegou a ser questionada quando sua sinopse se tornou pública, como se casos assim fossem impossíveis de acontecer na vida real. Sim, as pessoas realmente vivem em uma bolha.
Os Avós, de Ana Lígia Pimentel, foi exibido pela primeira vez há um ano, antes mesmo de a estreia da novela dos Silva escancarar essa bolha em rede nacional. Não que esse tema seja novo ou distante — é bem possível que você, caro leitor, venha de uma linhagem de mulheres que foram mães extremamente jovens, muitas vezes antes mesmo da chegada da vida adulta. Os Avós parte de uma investigação feita por Ana Lígia no interior do Amazonas e une ficção e “personagens” reais para falar da epidemia permanente de famílias que chegam à sua terceira geração antes que a matriarca complete 35 anos.
Essa docuficção aproveita do artifício da divisão em capítulos para se dedicar a cada história. Há espaço para que a gente veja o amor nos pequenos detalhes da rotina difícil e para que cada uma das garotas que se tornaram mãe recentemente ou vivem essa espera falem sobre seus sonhos (ou sobre a ausência deles).
A experiência coletiva do cinema foi um ganho e tanto para um filme que já tem como trunfos a espontaneidade dos depoimentos e o carisma em tela, sobretudo das avós. Alguns depoimentos chegaram a arrancar risadas do público que assistiu ao filme no encerramento do 8º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, como o de Mari, que fala, sem muita cerimônia, sobre ter traído o marido, ou o de Elizete, que conta que sempre quis ser avó porque queria envelhecer cedo.
Essas reações espontâneas tiveram seu ápice no momento em que o filme muda de rota e mostra uma família de classe média, em um contraste com tudo o que apareceu antes. Quando o ator Victor Kaleb, que também atua na organização e na curadoria do Olhar do Norte, conta sobre ser um avô com 31 anos de idade, deu para sentir os comentários confusos. Depois, descobri que aquela era uma encenação para que a diretora pudesse contar as histórias que a elite esconde. O contraste funciona para falar de classe social e das dinâmicas de gênero, pontuadas em momentos como as falas do personagem de Kaleb sobre como ter um neto é algo que “atrai as mulheres” ou sobre como a criação da filha, que teve aos 14 anos, ficou, a princípio, a cargo da mãe dele.
É uma perspectiva que também evidencia a sobrecarga que recai sobre as mulheres, especialmente nas famílias mais pobres, como mostram os relatos de viuvez precoce de algumas das entrevistadas.
Antes de chegar a seu último bloco, o filme mantém por boa parte o dinamismo desses relatos, que são tão diferentes entre si em suas particularidades e, ao mesmo tempo, vindos de origens que estão debaixo dos nossos narizes. Ao dar voz principalmente às mulheres, Ana Lígia consegue falar sobre essas gravidezes precoces como problemas que envolvem toda uma cadeia, desde a saúde pública e, em muitos casos, abusos sexuais. A fala da mulher que não consegue perceber a depressão da filha — uma menina de 11 anos que engravidou de um homem de 42 –, e que relativiza o ocorrido, chega no fim do filme, mas é suficiente para que essa docuficção consiga ser um filme-denúncia sem depender deste relato como mero elemento de choque.
Esse ritmo, no entanto, não se mantém até o final. O último capítulo, dedicado a Ana Paula, destoa dos anteriores até mesmo na escolha do nome, já que, por falar de uma avó ausente, leva o nome da adolescente que engravidou. Ele até tem momentos que reforçam a relação entre gravidez e saúde: é o único que tem uma jovem falando que pensou em abortar, e, novamente, mostra uma menina que precisou crescer cedo demais e não teve recursos emocionais para isso (como não deveria ter, né? Afinal, é uma menina). Ainda assim, o conjunto soa um pouco confuso e a narração em off de Maria Ribeiro tira um pouco das nuances de imagem na tela.
No saldo geral, Os Avós foge do rótulo de “filme necessário” porque tem algo a contar para além da denúncia distante. Ana Lígia, o co-roteirista Francis Madson e a equipe do filme conseguem mostrar as histórias que se escondem nas casas onde essas garotas vivem. Em todos os blocos, as entrevistadas respondem sobre os sonhos que têm ou dos quais desistiram e é nesses momentos que as idades delas transbordam. E, sim, digo “as entrevistadas” porque, apesar de termos alguns homens também falando sobre ter ou não sonhos, o filme é delas e é no matriarcado que essas renúncias deixam marcas mais profundas.



